No mês de março, com a circulação da edição especial da revista Webdesin “Catálogo Portfólio”, os artigos dos quatro colunistas foram publicados no site da revista.
O meu é intitulado Águas de março. Espero que vocês gostem!
No mês de março, com a circulação da edição especial da revista Webdesin “Catálogo Portfólio”, os artigos dos quatro colunistas foram publicados no site da revista.
O meu é intitulado Águas de março. Espero que vocês gostem!
publicado na revista Webdesign de fevereiro de 2010, ano 7, nº 74, ISSN 1806-0099.

Nas bancas!
obs: Conforme orientação da Editora Arteccom, que publica a revista Webdesign, colocarei o artigo Você também curte o carnaval aqui no site em abril de 2010.
A Revista Webdesign está sendo toda reformulada e, com isso o tempo de espera para a publicação no site do autor (ou seja, aqui), caiu de 6 para 2 meses. Além disso, eu virei colunista mensal, notícia que muito me deixou feliz.
Em março vai ser publicado um especial sobre agências digitais e não sai nenhuma coluna, nem a minha nem de ninguém, mas o artigo de março que já estava pronto vai ser publicado no portal da revista. Em abril voltamos à programação normal.
Com isso, eu pude colocar aqui alguns dos artigos já publicados na revista impressa.
Espero que vocês fiquem tão contentes quanto eu.
publicado na Revista Webdesign de dezembro de 2009, ano 6, nº 72, ISSN 1806-0099.
Considerando que a fotografia surgiu apenas em 1826, não é de se estranhar que os grandes ícones da arte mundial ainda sejam pinturas ou esculturas. A televisão surgiu em 1923 e o youtube em 2005. Santos Dumont inventou o avião em 1906, provando que havia vida antes da internet. Assim como você precisa estar no twitter para entender brincadeiras do tipo “comofas” ou “mimimi”, é necessário conhecer a nossa história para compreender o que acontece hoje. O impacto e a permanência dos símbolos e ícones da atualidade muitas vezes seguem ainda a mesma lógica de leitura, análise e interpretação destas imagens que, durante muito tempo eram a nossa única mídia.
Hoje em dia a inserção de propaganda nas artes “clássicas” (muitas aspas nesta hora, mas a título de ilustração vamos considerar pintura, escultura e arquitetura) causa náusea mesmo no artista mais flexível. Não foi sempre assim e certamente ainda veremos outras interpretações do assunto. Durante um período muito grande de nossa história, a propaganda pura e simples era mal vista e era mesclada com arte, especialmente arte sacra, para que pudesse ser aceita. Existem incontáveis exemplos de monarcas, ricos mercadores e outros representantes do poder vigente inseridos em cenas bíblicas pelas hábeis mãos de artistas importantes, como Botticelli, Bernini, Piero Della Francesca e tantos outros.
Quando pensamos em Natal, muitos de nós lembram do velho barbudo popularizado pela Coca-Cola em 1931 mas a ocasião tem sua origem em uma tradição cristã, não no shopping center. Assim como a Coca-Cola usou um símbolo religioso (São Nicolau) para criar uma comunicação eficaz que todos entenderam na hora, era muito comum que os ricos e os nobres usassem cenas conhecidas para criar uma comunicação imediata com o seu público. Estas cenas eram normalmente bíblicas ou da mitologia Greco-romana. Ter um quadro pintado por um artista célebre não era para muitos e este fato isoladamente já seria mais que suficiente para a demonstração de poder desejada. O uso de pigmentos como o vermelho e o azul, que eram mais caros que o ouro, é outra forma de ostentação mas a soberba não se satisfaz facilmente e era ainda necessário que fossem retratados em uma cena divina.
Escolhi para este artigo, de uma forma bastante aleatória, confesso, o quadro A adoração dos pastores (também conhecido como A adoração dos magos), de Sandro Botticelli.
Os pastores em questão eram a família Medici e sua entourage. Algumas figuras importantes são:
- A sagrada família, com Jesus no colo da Virgem Maria e São José ao fundo;
- Cosimo, Il Vecchio, patrono dos Medici, que segura os pés de Jesus;
- Piero Di Medici, figura central de manto vermelho;
- Lorenzo, o Magnífico, à esquerda do quadro;
- Sandro Botticelli, à direita com um manto amarelado, olhando para nós.
Tocar o sagrado, ou seja, fisicamente tocar os pés do menino Jesus seria considerado uma heresia terrível não fosse o fato de que Cosimo já estava morto quando o quadro foi pintado. Seu sucessor, Piero Di Medici, foi assassinado 4 anos após término do quadro, em 1478, em uma tentativa do golpe de estado. Assume o poder, então, o neto de Cosimo, Lorenzo, o maior príncipe que toda a Itália conhece: Lorenzo, o Magnífico. Foi Lorenzo quem criou todo o sistema bancário europeu (fundou bancos até na Inglaterra), um estrategista brilhante, um grande intelectual e um dos maiores poetas da Itália. Foi o grande mecenas dos artistas. Ele compreendia as obras de arte e debatia a iconografia com os artistas, em uma relação de simbiose, havia um clima de intelectualidade compartilhada entre o príncipe e o artista. Lorenzo cercou-se dos intelectuais Poliziano (entre outras coisas, professor de Michelangelo), Ficino (alquimista) e Pico Della Mirandola (filósofo) e tinha a maior biblioteca da Europa antes de Gutenberg. Botticelli divide o quadro matematicamente, com a sagrada família no topo do triângulo, o mundo político à direita e o artístico à esquerda e, como uma forma de demonstrar a troca entre iguais, coloca seu auto-retrato no lado político e Lorenzo no artístico. Esta troca de lugares é bastante representativa do pensamento humanista da época: a política não existia sem a arte e vice-versa. Ninguém poderia conceber um administrador que não conhecesse arte e muito menos um artista que não fosse um profundo conhecedor de política e ciência/religião (não havia separação, ainda).
A tradição hermenêutica criada por Botticelli (decifração de textos e imagens) perdurou até, pelo menos, o século XIX. Este quadro não é exceção e existem alegorias que à primeira vista podem parecer apenas cenográficas mas que contém em si signo e significado, como as ruínas Greco-romanas ao fundo. O Renascimento é assim chamado por ser o desejo de fazer renascer o Império Romano e, ao mesmo tempo, superá-lo em técnica e beleza. É o período posterior à Idade Média. Foi Francesco Petrarca quem deu o nome à Idade Média, dizendo que o mundo em que vivia estava velho, podre e seco, e que era preciso voltar à luz Greco-romana, para deixar a idade de trevas, idade medíocre. As ruínas no quadro dizem que os renascentistas retornaram a este período de glória e o superaram. É, portanto, um símbolo de ostentação também, mas desta vez do artista e não da família Medici.
A Virgem Maria é sempre contida, melancólica. Nunca, em hipótese alguma, em estilo algum, é representada sorrindo. Ela tem a intuição do futuro e sabe que o menino será morto mas não pode revelar o plano de Deus. Sofre calada, nunca ri abertamente. Outra alegoria interessante é o pavão no canto direito. O pavão de asa aberta é considerado um símbolo da vaidade fútil e vazia. Já o pavão de asa fechada, por oposição, é um ícone de sabedoria.
Existem muitos outros elementos iconográficos nesta imagem mas vou deixar para você descobrir. Pode falar, você nunca achou que um quadro de 1474 rendesse tanto assunto, não é? E, claro, aproveitando, um Feliz Natal para todos!
publicado na Revista Webdesign de outubro de 2009, ano 6, nº 70, ISSN 1806-0099.
Durante muito, muito tempo, a arte era a única mídia disponível. A população era analfabeta e toda comunicação, propaganda e ideologia era transmitida através de imagens. A imagem precisava funcionar, as pessoas precisavam reconhecer imediatamente o seu significado. Se usarmos uma abstração simplista e considerarmos o início da iconografia não nas cavernas mas apenas a partir de, digamos, Egito, contamos algo em torno de 5 mil anos de produção artística. O Papa Gregório, o Grande disse: “a imagem é a bíblia dos ignorantes”. A imagem torna visível um pensamento até mesmo para os iletrados.
Naturalmente a história da arte revê estes significados organicamente à luz de novas evidências. Só é possível falar do que sabemos hoje e o amanhã trará, com certeza, novas informações.
Existe uma discussão antiga que diz que precisamos conhecer antes de ver. Explico: quem nunca conheceu uma vaca não irá reconhecer a sua representação a menos que lhe seja explicado. Ou seja, para ver a vaca, é preciso primeiro saber o que é uma vaca. Os signos (e seus significados) sempre dependem, portanto, do repertório de quem os vê.
Nós somos tão acostumados a símbolos que às vezes nem os notamos. Para um usuário de internet, um arroba, por exemplo, assume o significado imediato de um email ou de uma pessoa no twitter. Nas artes o símbolo também se apresenta e também depende daquilo que você conhece para ser compreendido mas o fato de você não reconhecê-lo não significa, em absoluto, que o elemento iconográfico não esteja presente.
Pode parecer meio óbvio para um católico mas nem todos sabem que as chaves de São Pedro em uma obra de arte apontam para um personagem ou cenário do Vaticano, por exemplo. Assim como pontos de Umbanda serão entendidos como meros rabiscos para aquele que não os conhece.
Exemplos não faltam e este artigo, por mais que se estenda, jamais conseguiria abordar sequer a maioria, que dirá todos. O importante é saber que os elementos possuem significados e que, se for do seu interesse, basta uma pequena pesquisa para compreendê-los. Vou aqui falar de alguns elementos recorrentes como um ponto de partida no assunto mas o que é importante é você saber que estes elementos existem.
Até a criação do primeiro corante sintetizado, o Mauve, em 1856, as tintas eram preparadas a partir de elementos naturais. As cores, portanto, também são um elemento a ser considerado. Durante muito tempo o vermelho era um pigmento caríssimo e conseqüentemente assume com freqüência um valor representativo de nobreza e/ou riqueza. O azul era feito de Lápis-Lazuli, uma pedra preciosa que, assim como o pigmento vermelho, valia mais do que o ouro.
Apolo, deus do sol e da razão, padroeiro da ciência e dos artistas, patrono do mundo, era sempre representado com um sol em volta da cabeça, para mostrar que era um iluminado. Hoje, por influência da iconografia católica, entendemos todo círculo nesta posição como auréola mas na verdade esta alegoria representa iluminação (não necessariamente espiritual). Por este motivo não é incomum encontrar este círculo em cabeças não-santas, como imperadores, nobres e ocasionais filósofos. Exemplo: a auréola nas cabeças do imperador Justiniano e da imperatriz Teodora, na Basílica de San Vitale, em Ravenna, na Itália. Ainda na mesma linha, Jesus Cristo é representado com a cor branca e o demônio com a negra por causa de quem vê ou não a luz. Não é uma interpretação racista, um questionamento que sequer fazia sentido na época do surgimento do cristianismo. Por este mesmo motivo, o Divino Espírito Santo é representado com uma pomba branca, por ser aquele que liga a Terra e o Céu – e portanto voa – e é iluminado (branco).
Na Grécia antiga, os médicos eram os sacerdotes de Asclépius e as enfermeiras eram as sacerdotisas de Higéia (higiene). O veneno da cobra era usado como anestesia. O emblema de Asclépius era uma cobra. Por isso o caduceus, símbolo da medicina, tem uma serpente.
A arte egípcia tinha uma função de preservação e perpetuação do que ou de quem era representado. Por este motivo, as figuras egípcias eram sempre mostradas a partir do seu ângulo mais característico. No Mural do túmulo de Khnumhotep (c. 1900 a.C.) podemos ver claramente que todas as figuras, inclusive peixes e pássaros são representados com a cabeça em perfil e com o corpo de forma a mostrar os traços mais importantes para a sua identificação, como o tipo de asa em um pássaro ou as escamas de um peixe. Hoje, as figuras humanas nesta posição tornaram-se um ícone da cultura egípcia.
Foi só com a Revolução Francesa de 1789 que estes pressupostos foram rompidos. Era, finalmente, a época em que ser rebelde era sinônimo de ser inteligente, rebeldia tinha status. “De repente, os artistas sentiram-se livres para escolher qualquer coisa como tema, desde uma cena de Shakespeare a um acontecimento do dia, o que quer que, de fato, apelasse para a imaginação e despertasse interesse. Esse descaso pelos temas objetos tradicionais da arte pode ter sido a única característica que os artistas bem-sucedidos do período e os rebeldes solitários tinham em comum.” [GOMBRICH, E. H.; História da Arte; pág. 481; tradução Álvaro Cabral, Rio de Janeiro: LTC, 2008.]. Apesar de, depois de 1789, estas alegorias e símbolos não serem mais imprescindíveis na arte, os seus significados permaneceram até hoje.
Com tudo isso não estou dizendo que você precisa criar um ícone para o site do seu cliente que dure 5 mil anos, mas talvez seja bom buscar referências que já fazem parte do nosso inconsciente coletivo para conseguir uma comunicação mais rápida e imediata. E, por falar em bons símbolos, pegue o seu cachimbo e sua lupa e assuma todo o seu lado Sherlock na próxima vez que olhar para uma obra de arte.
publicado no portal da Revista Webdesign em 25/09/2009
No artigo do mês passado, apresentei as características de um programa open source de diagramação, o Scribus. Neste novo texto, o assunto em destaque são os “PDFs on-line” e vamos dividir sua análise em duas partes: na primeira, vou falar sobre uma aplicação possível sem ser como e-books e afins. E, na segunda, sobre e-books, e-zines, e-editoras e-etc.
PDFs diagramação
Os PDFs podem ser embed (inseridos em um post de blog, por exemplo) assim como os vídeos do YouTube ou as músicas do Blip. Um dos mecanismos mais simpáticos de fazer isso é usando o Scribd, que tem até mesmo a opção do seu PDF ser aberto com as páginas no estilo pageflip.
Um uso meio óbvio é o de organizar um portfólio. Podemos criar “books” como os fotógrafos fazem e publicá-los em um blog sem muita dificuldade, ainda com a vantagem de já estar pronto para impressão se for necessário.
Outra utilização que pode ser interessante é a publicação de documentos que exigem uma determinada formatação rígida, como atas de uma associação ou pareceres jurídicos. Ou ainda, criar uma seção de downloads no seu site com agendas para o ano seguinte, marcadores de página, ou o que mais a sua imaginação criar.
Existem muitos sites que permitem o upload e embed de PDFs, como o Issuu ou o Scribd. Antes de começar a fazer upload para todos, vale passear um pouco pelas publicações disponíveis para ver como cada um lida com os PDFs:

O Scribd, assim como muitos outros, está tentando criar uma comunidade on-line, com presença no Twitter e uma página inicial que lembra muito o Facebook, mostrando as últimas atualizações de pessoas na sua lista.

O Issuu, por sua vez, foca mais em periódicos, tanto que, em sua home, o destaque é para “Featured magazines”. Se o seu plano é uma revista em PDF gratuita on-line, certamente este é um bom lugar para se estar. Existem verdadeiras pérolas por lá. Uma das minhas favoritas é a Illustration:
PDFs e-publicação
Que o futuro é e-book, e-zine, e-qualquer-coisa, ninguém duvida. A grande questão é como ganhar dinheiro com isso. Afinal, o escritor precisa pagar suas contas, o ilustrador precisa comer etc. Algumas soluções começam a aparecer, como a portuguesa Bubok (disponível para o Brasil), mas existe ainda a questão do trabalho editorial.

Antes de tudo, publicações são necessariamente fruto de um trabalho em equipe. O escritor está preocupado (ou deveria, pelo menos) com a qualidade do que escreve. O ilustrador/fotógrafo/etc. se preocupa em dialogar com o texto esteticamente. O diagramador se preocupa em fazer com que estes elementos funcionem juntos. O revisor se preocupa com nossa língua pátria.
E quem se preocupa com o conjunto da obra, com posicionamento de mercado, com marca, com tudo isso? O editor! Ele não é fabricante de papel, mas sim um fabricante de ideais. E essa função não morre nunca. Acredito pessoalmente que os e-etc. ainda não são o padrão justamente porque os autores acham que se podem colocar os seus livros em um blog da vida, não precisam do editor. Estão errados. O resultado é um livro sem unidade, sem posicionamento, sem todo um trabalho de raciocinar o produto final como algo interessante, palatável e vendável. O que acontece, no final das contas, é uma publicação eletrônica perdida no espaço.
Naturalmente, existem exceções de profissionais que são, ao mesmo tempo, autores ou ilustradores e editores, mas não são a maioria e, muito menos, o padrão. A diferença é que agora você não precisa mais de uma sala comercial para fazer isso. Você pode reunir profissionais de sua confiança e criar você mesmo, a um custo muito baixo, uma minieditora funcional. Ainda não sabemos ao certo o caminho a tomar, mas afinal de contas é justamente por causa do leque de possibilidades que você gosta de trabalhar com internet, né?
Segundo o IBGE, 24,5 milhões dos internautas brasileiros não ficam um único dia sem internet. Já estudos da Intel Brasil apontam que 64% dos usuários brasileiros têm o hábito de comprar on-line. É uma fatia de mercado muito significante. E esse povo todo é alfabetizado. Esse povo todo lê.
O Scribd lançou nos Estados Unidos um sisteminha de cobrar pelos PDFs. Por enquanto ainda não está disponível no Brasil. A portuguesa Bubok tem um trabalho bastante interessante, inclusive registrando ISBN* se assim o autor desejar. Ainda percebo alguns problemas práticos nesta solução, além dos conceituais citados acima, como, por exemplo, tamanhos rígidos ou a venda dos livros impressos sob demanda ser necessariamente em euros.
A grande questão, novamente, não é a solução técnica, mas sim a questão editorial. O leitor também sente falta de uma linha editorial definida, um selo sob o qual ele sabe o que encontrar. Por outro lado o “fetiche do papel” realmente está com os dias contados. Alguma solução há de ter. Enquanto o mercado não se define, você pode ir se preparando para não ser pego de surpresa, como aconteceu com a indústria fonográfica.
* Vale lembrar que o registro do ISBN no Brasil é extremamente simples e fácil.
publicado na Revista Webdesign de agosto de 2009, ano 6, nº 68, ISSN 1806-0099.
Esse negócio de pensar diferente não tem nada de novo. De vez em quando a civilização cansa e resolve inovar. Os gregos inovaram quando resolveram fazer algo diferente dos egípcios; os romanos inovaram quando construíram seus templos; os cristãos inovaram quando criaram a arte bizantina; os renascentistas inovaram quando decidiram resgatar a grandiosidade da cultura Greco-romana; os franceses inovaram quando criaram o concreto armado… Enfim, exemplos não faltam. Inovação é fruto da necessidade e do desejo humanos e, acredite, quem vier depois de nós também será “moderno”.
Nas artes plásticas existe uma coisa muito, muito antiga, chamada schemata. E desde que o mundo é mundo, ou seja, desde que o mundo tem Michelangelo, que os artistas se esforçam para ultrapassar, para vencer a schemata, para superá-la.
Schemata quer dizer esquemas. Ou seja, todos aqueles tutoriais que você certamente já viu de onde colocar a orelha na cabeça ou quantas medidas-cabeça tem um corpo ou ainda como desenhar uma galinha a partir de uma oval. Em artes plásticas, consideramos como um “esquema” todo conjunto que fornece um guia para criação e/ou identificação de significados gráficos. Em psicologia este termo é bem mais abrangente e complexo, mas eu sou ilustradora e não psicóloga.
A schemata varia de acordo com a cultura e período da história.
Os famosos ícones bizantinos, por exemplo, tinham sempre figuras alongadas e biplanares, porque representavam o divino e era considerado heresia representá-lo em um suporte menor e inferior (humano). Dentre as três principais religiões monoteístas (cristianismo, judaísmo e islamismo), inclusive, o cristianismo é até hoje a única a representar o divino com figuras humanas. Isto é um esquema, um conjunto de “regras” aceitas pela cultura vigente no período como o padrão correto e, portanto, rapidamente reconhecido em seu significado.
Toda arquitetura gótica tem em seu ponto mais alto “pontas” porque é uma metáfora da alma: quanto mais próximo do céu (do divino), menos matéria (corpo) tem. Os esquemas são, antes de tudo, filosóficos.
Em ilustração, o primeiro livro de esquemas de que se tem conhecimento é de 1608 e é intitulado Il vero modo et ordine per dissegnar tutte le parti et membra del corpo humano (O verdadeiro modo e ordem para desenhar todas as partes e membros do corpo humano, em tradução livre). Foi publicado em Veneza e é de autoria de Odoardo Fialetti (pintor italiano, 1573-1638), com a colaboração de Giacomo Franco (gravurista italiano, 1550-1620). Como você pode notar, publicações do tipo “como desenhar pessoas (protozoários, paquidermes, casas ou árvores…)” não são exatamente novidade.
Assim como também não é novidade o conceito de moderno ou de ruptura.
Uma ruptura acontece quando conseguimos romper com o esquema, com a schemata.
Os renascentistas assim o fizeram e neste momento criaram técnicas usadas até hoje, o chiaroscuro e o sfumato. Eles introduziram volume onde antes as figuras eram quase planas. Outra ruptura famosa foi a dos cubistas, que mostravam na mesma figura vários planos diferentes, incluindo os ocultos pela perspectiva natural.
Podemos, sem errar muito, aplicar o mesmo conceito à internet. Não seria a web colaborativa uma ruptura com a “anterior”? Ou seja, não pensa diferente? Romper com o esquema é pensar diferente.
“Quando me sento para fazer um desenho da Natureza, a primeira coisa que faço é esquecer que alguma vez já tenha visto um quadro.” – John Constable (pintor inglês, 1776-1837).
Precisamos entender de tecnologia antes de nos tornarmos o próximo Steve Jobs. Precisamos entender de mecânica antes de nos tornarmos o próximo Henry Ford. Precisamos estudar arquitetura antes de nos tornamos o próximo Oscar Niemeyer. Precisamos conhecer o esquema para poder superá-lo.
Falar em inovação nas artes hoje em dia, em um tempo em que somos pós-tudo, até mesmo pós-modernos, chega a ser engraçado mas é real. Faça exercícios consigo mesmo: troque de técnica ou de tema; permita-se experimentar, brincar, divertir-se.
E lembre-se que você já tem uma natureza inovadora: a arte em 3D é absolutamente inovadora, vetores rompem com tudo que conhecíamos antes, pixel art é uma renovação do mosaico mas com uma filosofia completamente diferente e até mesmo a criação de ícones para web é algo que a história da arte não conhecia antes.
Links:
http://www.nlm.nih.gov/dreamanatomy/
http://openlibrary.org/a/OL1778599A/Odoardo-Fialetti
http://pt.wikipedia.org/wiki/Chiaroscuro
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sfumato
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cubismo
http://www.artcyclopedia.com/artists/constable_john.html
http://www.metmuseum.org/toah/hi/hi_francgia.htm
http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Madonna_bizantina_Rico_de_Candia.jpg
publicado na revista Webdesign, edição de janeiro de 2010, ano 7, número 73, ISSN 1806-0099
obs: Conforme orientação da Editora Arteccom, que publica a revista Webdesign, colocarei o artigo Você também curte o carnaval aqui no site em março de 2010.