É Primavera!
1 de Setembro de 2010
publicado na revista Wide, de setembro/outubro de 2010, ano 7, nº 80, ISSN 1806-0099
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NAS BANCAS!
A ferramenta não faz o artista
1 de Julho de 2010
publicado na revista Webdesign de julho de 2010, ano 7, nº 79, ISSN 1806-0099
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O uso de recursos ópticos em ilustração e pintura é uma área bastante controversa da história da arte e existem poucos pontos de consenso. Sabemos que grandes artistas como Jan van Eyck (1390-1441), Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610) ou Johannes Vermeer (1632-1675) tiveram contato com câmera obscura mas ninguém sabe ao certo o quanto isso influenciou na produção artística dos grandes mestres. Existe uma teoria, intitulada “Hockney-Falco thesis”, do artista David Hockney e do físico Charles Falco, que atribui um uso extensivo de recursos como espelhos curvos, câmeras lúcida e obscura ao realismo conseguido pelos pintores renascentistas. O livro de Hockney é muito questionado e considerado exagerado, mas o fato é que sabemos que auxílios ópticos foram de fato utilizados por vários dos grandes artistas.
Albrecht Dürer (1471-1528), em seu tratado “De Symmetria Partium in Rectis Formis Humanorum Corporum / Underweysung der Messung”, publicado em 1538, descreve com ricas ilustrações o uso do quadriculado como auxílio para o desenhista. Outra recomendação interessante é o uso de uma moldura com fios formando um quadriculado entre o artista e o modelo, para auxiliar nas proporções do desenho. Este conselho foi adaptado para um vidro quadriculado e seguido por inúmeros artistas. Até hoje, um dos métodos aplicados na aprendizagem do desenho é o do papel quadriculado para a cópia de uma referência. Existem muitas outras indicações de auxílios ópticos para o desenho, todas ricamente ilustradas. Uma destas ilustrações, a gravura “Mann beim Zeichnen einer Laute” é bastante famosa e acabou se tornando um ícone das experiências ópticas em arte deste período. Neste mesmo livro, Dürer também aborda tipografia (fotografias 139 a 152 no fac-símile do Rare Book Room e mostra uma impressionante quantidade de estudos de perspectiva e simetria.
Mais recentemente e, portanto, de forma melhor documentada, sabemos de grandes artistas que usaram outros auxílios gráficos no desenho. Mestres como Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) e o ilustrador Norman Rockwell (1894-1978) usaram fotografia como base de suas imagens, por exemplo.
Uma das minhas grandes campanhas pessoais é fazer o povo entender que a ferramenta não faz o artista. Ilustração vetorial, por exemplo, costuma dar muito mais trabalho do que a tradicional. Faço um sketch de modelo vivo em segundos, mas trabalhar um vetor pode consumir até alguns dias. Os artistas 3D sabem disso bem: usar uma ferramenta que diminui o trabalho repetitivo não significa que o computador faça tudo sozinho. O mesmo acontece com webdesign. Usar um gerenciador de conteúdo não diminui em absolutamente nada o esforço envolvido em se manter um site, por exemplo. Parece simples a todos o entendimento de que quem faz o escritor não é o Word mas no entanto muitos acham que o trabalho do artista é menor ou seu talento deve ser questionado se utiliza algum recurso tecnológico, não importa qual. Já ouvi de clientes atrocidades do gênero de “ah, isso você faz rapidinho, é só botar aí no computador que está pronto”. O isso em questão era um infográfico extremamente complexo mas não importa, poderia ser qualquer coisa que a minha perplexidade teria sido a mesma. Muito irritante esse negócio de uma pessoa ser capaz de entender que não é o martelo que faz o marceneiro mas achar que é o computador que faz o designer ou o ilustrador.
Em animação existe uma técnica chamada rotoscopia, desenvolvida pelos animadores Dave e Max Fleischer, que consiste em desenhar quadro a quadro em cima de uma referência filmada; utilizada, por exemplo, nos desenhos do Superman dos anos 40. Assim como seus primos a óleo ou grafite, essa técnica é bastante criticada por um segmento mais purista dos animadores. Na realidade o debate é o mesmo, já que animação nada mais é do que ilustração seqüencial em movimento. Ou, como disse Norman McLaren (1914-1987), “animação não é a arte de desenhos que se movem mas a arte de movimentos que são desenhados”.
Vermeer usou câmera obscura mas a pintura não se fez sozinha por mágica. Rockwell encenava as suas ilustrações primeiro na fotografia para ter a referência com detalhes depois mas a fotografia não ganhou vida e foi lá desenhar por ele, posso garantir. Disney usou rotoscopia em vários segmentos de “A Branca de Neve” e nem por isso o filme foi fácil ou muito menos simples de fazer.
Em praticamente qualquer grande loja de material de pintura hoje encontra-se para vender projetores, que nada mais são do que versões portáteis, modernas e infinitamente mais práticas das câmeras obscuras de séculos atrás. Basta mencionar a palavra “projetor” para algum artista mais purista para desencadear horas de sermão a respeito. Pessoalmente, eu prefiro o desenho de observação porque ele me dá tempo de raciocinar a imagem, mas não tenho absolutamente nada contra quem gosta de um processo mais rápido. Assim como o artista escolhe a técnica (aquarela, lápis, vetor, etc) a ser usada para cada imagem, o instrumental à sua volta também varia muito de acordo com o caso e um mesmo artista pode usar algum tipo de auxílio óptico para um trabalho e para outro, não.
Então, se alguém diminuir um trabalho seu só porque foi feito usando layers no Photoshop ou um snippet de um código qualquer, faça como eu e responda que se o Vermeer podia, você também pode.
Um rinoceronte com má reputação
1 de Junho de 2010
publicado na revista Webdesign de junho de 2010, ano 7, nº 78, ISSN 1806-0099
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Praticamente todos os designers e ilustradores têm acesso a um scanner. Curiosamente são raros aqueles que, ao precisar de uma textura, não a procuram primeiro na internet. Sim, é mais prático, já está na nossa frente, digitalizada e tratada, mas também é a que todos já viram e usaram. Exemplos do uso excessivo de referências e recursos não faltam. Ninguém agüenta mais a marquinha da xícara de café pronta daquele brush do Photoshop que, acredite, você não é o único que tem. Eu sei que pode ser uma surpresa, mas o seu cliente também conhece o (ótimo) WooThemes. E gente, sério, os efeitos neon abstratos encontraram o seu limite de uso, não?
Além do problema óbvio do seu trabalho ficar com cara de qualquer coisa, existe o risco da repetição do erro. A melhor história que conheço disso é a do rinoceronte de Albrecht Dürer (1471-1528). O artista era um polítropo, ou seja, era arquiteto, botânico, gravurista, anatomista, escreveu tratados de pintura, anatomia e perspectiva etc. Era considerado “o Leonardo da Alemanha”. E, no entanto, até hoje renomados historiadores atribuem a ele um erro crasso. Em 1515, Dürer publicou uma xilogravura de um rinoceronte com várias divisões como se fosse uma armadura e chifre único e curto. A ilustração de Dürer foi copiada durante séculos, literalmente.
Em 1790, mais de 200 anos depois, em Travels to Discover the Source of the Nile, foi publicada uma ilustração, teoricamente feita ao vivo, de um rinoceronte africano. O livro era sobre o Nilo, perceba. O problema é que a espécie africana não tem divisões na pele e tem um longo chifre duplo. Um problema maior ainda é que o autor do livro, James Bruce, cita a gravura de Dürer como sendo errada e ainda diz que é “admiravelmente infiel, em todos os pormenores, e está na origem de todas as formas monstruosas sob as quais o dito animal tem sido pintado desde então…” [GOMBRICH]
A polêmica não termina aí. Um dos meus autores prediletos e, sem dúvida alguma, um dos mais importantes da história da arte, Sir Ernst Gombrich, em seu ótimo livro Arte e ilusão: um estudo da psicologia da representação pictórica, afirma que a xilogravura de Dürer, reproduzida durante quase 500 anos, é fruto da imaginação fértil do artista alemão. Sem querer transformar esta coluna em um tratado de zoologia, existem cinco espécies de rinoceronte. Duas destas, a de Java e a indiana, possuem características muito semelhantes às retratadas por Dürer.
Apesar de a primeira gravura, a do Dürer, ser absolutamente plausível, a segunda gravura, mencionada por Sir Gombrich, é uma quimera. Ou seja, une o chifre duplo africano com a pele dividida indiana e muito provavelmente características emprestadas de mais outros tantos animais exóticos. Portanto, a ilustração do livro sobre o Nilo que é “admiravelmente infiel”. Se o livro fosse publicado hoje, a ilustração certamente iria para o Photoshop Disasters. Não por acaso, Sir Gombrich tem o cuidado de garantir ao leitor que apurou que nenhuma espécie conhecida dos zoólogos corresponde à gravura.
Existem, naturalmente, algumas outras atrocidades cometidas à morfologia dos rinocerontes e outros animais, como a ilustração do ornitólogo William Jardine para o The Naturalist’s Library, de 1836, do que seria um rinoceronte africano, com um misterioso chifre duplo em arco. Todas em publicações científicas, o que faz com que estes #FAILs sejam ainda mais graves.
Reza a lenda que Dürer nunca viu um rinoceronte pessoalmente, mas se pensarmos em termos de história, faz bastante sentido que o artista tenha tido informações a respeito do rinoceronte indiano e não do africano. Portugueses já estavam em Bombaim, em 1509, e, apesar de a África já ser velha conhecida de todos, sem dúvida alguma era a Índia que estava na moda em 1515, data de publicação do rinoceronte de Dürer.
É provável que o artista tenha se baseado em informações relatadas de algum espécime levado a Lisboa, como era costume das expedições da época. Existem, realmente, alguns erros morfológicos na xilogravura de Dürer, mas nada tão imperdoável quanto a fama que carregou durante quase 500 anos. Ou seja, um simpático rinoceronte usado como referência acabou rendendo cinco séculos de polêmica.
Então, quando você precisar de uma textura fácil de encontrar como um pedaço de papel, um grão de café ou uma flor, dê um passeio, cate uma pedrinha, coloque no scanner. O ar puro lhe fará bem. Ou mesmo em casa: conheço um designer que gastou 40 minutos procurando por uma boa imagem em alta resolução de folhinhas até lembrar que tinha scanner e uma samambaia em casa. Deixe a internet para a textura do solo lunar ou pele do dragão de Komodo. E, se precisar que a textura se repita, o link a seguir tem um tutorial (em inglês) de como transformar a sua imagem na famosa seamless texture.
O ideal é que você crie a sua própria referência (até para que seu trabalho não se transforme em um rinoceronte com má reputação), mas para aqueles dias chuvosos ou para aquele trabalho feito às quatro da manhã, fica aqui a sugestão de procurar em lugares pouco comuns.
Precisa de um tecido? Que tal um quadro bizantino ao invés daquela textura que todo mundo já conhece? Existem séculos – literalmente – de arte com texturas para nenhum CGtextures botar defeito. Precisa de um olho? Por que não usar um detalhe de um Caravaggio? Os grandes mestres, de uma forma geral, são fontes quase inesgotáveis deste tipo de material. Além de sair do óbvio, ainda tem a vantagem de estar em domínio público.
Toda nudez (digital) será castigada
1 de Maio de 2010
publicado na revista Webdesign de maio de 2010, ano 7, nº 77, ISSN 1806-0099
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A idéia de divindade associada à amamentação vem de longe e está presente em praticamente todas as culturas. Segundo a mitologia grega, a Via Láctea foi formada com um esguicho de leite materno de Juno. Ísis amamentou Hórus, Dewaki a Krishna, Virgem Maria a Jesus.
Essa profusão de leite materno sagrado para todo canto enjoa até o mais beato dos mortais. Alberto Manguel, em seu brilhante Lendo imagens, faz uma citação hilária de João Calvino: “Não há cidade pequena demais, nem convento [...] demasiado exíguo que não ponha à mostra um pouco de leite da Virgem [...]. A quantidade é tão grande que, se a Virgem Sagrada tivesse sido uma vaca [...], haveria de ter passado a vida inteira em árdua labuta para conseguir produzir uma quantidade tão vasta”.
Literalmente durante milênios houve uma divisão bastante clara entre os sexos. O homem pertencia ao mundo público e a mulher ao mundo privado. Ainda temos resquícios disso no idioma: o homem público é político e a mulher pública é prostituta. Sem muita diferença, certamente dirão as línguas mais afiadas, mas ao falar mal dos políticos dão mais um claro exemplo de que a mulher pública não é respeitada. Bem resumiu Rita Lee em Pagu: “Mexo, remexo na inquisição / Só quem já morreu na fogueira / Sabe o que é ser carvão”.
Então, voltando, como a mulher pertencia ao mundo privado era considerado um absurdo representá-la nua. No entanto temos nudez feminina desde que o mundo é mundo. O pulo do gato era que as mulheres representadas nuas não eram reais, eram divindades, figuras mitológicas. Então, uma Vênus nua tudo bem, porque não era uma “mulher de verdade”. Esta mentalidade perdurou durante muito, muito tempo. Mais ou menos da Grécia Antiga até o Impressionismo. Estamos falando de algo na ordem de grandeza de 5 mil anos.
A nudez masculina, entretanto, era considerada normal e homens comuns eram representados nus. Provando que o proibido é sempre mais interessante, infelizmente a nudez masculina não é tão popular quanto a feminina.
A grande virada nesta mentalidade de que a mulher é restrita ao mundo privado tem data e nome conhecidos. Foi em 1863, na França. O grande evento no mundo das artes era o Salon de Paris, que acontecia bienalmente desde 1725. Era muito importante, concorrido e difícil de entrar. Édouard Manet (1832-1883) foi um dos que não conseguiu ser aprovado pelos acadêmicos curadores. Montaram, então, o Salão dos Recusados (Salon des Refusés). Manet expôs o seu recusado Le déjeuner sur l’herbe (1862). Foi um choque. Damas empurravam seus maridos para longe do quadro. Senhoritas enrubesciam à sua frente. O grande alvoroço foi porque Manet pintou uma mulher nua sem uma literatura que a justificasse. Ou seja, a mulher não é uma divindade, não é um ser mitológico. É uma mulher real que, como se não bastasse, ainda olha para o espectador como se estar ali almoçando nua na relva fosse a coisa mais natural do mundo. E, para piorar, os homens estão completamente vestidos. Acho que se Manet tivesse pintado o Papa em uma cena pagã não teria causado tanto furor. Naquele momento rompia-se uma mentalidade de alguns milhares de anos. Não é pouca coisa.
Existia ainda um agravante a tudo isso. O repertório das pessoas na época era os grandes mestres. Manet faz uma referência clara – era claríssima na época – ao Julgamento de Paris (1515), de Raphael (1483-1520) e ao Fiesta campestre (1510), de Ticiano (1473/1490-1576). As pessoas que visitavam os salões reconheciam estas referências com a mesma facilidade que você reconhece um endereço de email. Não precisava ser um estudante de artes. Leigos efetivamente sabiam essas coisas. Então, a afronta de Manet era múltipla: uma mulher real nua, em uma composição que remetia aos grandes mestres, sem qualquer tipo de justificativa literária, cercada por homens vestidos em uma ação trivial e cotidiana. Para a mentalidade da época era um grande choque.
Não pense você que esta é uma questão antiga. Em 2008 o Facebook censurou fotos e pinturas de mães amamentando, alegando que eram obscenas e removeu várias fotos de usuários. Teve protesto, é claro. Na época foi criada uma petição online intitulada “Hey Facebook, breastfeeding is not obscene!” que não conseguiu reverter a decisão do site. Esta censura causou bastante surpresa em muitas pessoas porque a mãe que amamenta é, ainda hoje, quase que santificada e não pode, portanto, ser compreendida como erótica ou sexual. Os defensores da censura alegam que a amamentação é um ato íntimo e particular e que pertence, portanto, ao mundo privado. Ou seja, mais de um século se passou desde que Victorine Meurent posou para Manet e ainda temos conflito nesta área.
Sob o risco de parecer um pouco mais xiita do que eu gostaria, afirmo que o conflito vai além. É um conflito de (in)compreensão do feminino. Juliana Cunha, em um dos blogs que eu mais gosto de ler, o Já matei por menos, em seu post Conclusão é para os fracos, pergunta: “Primeiro eu leio que as mulheres são apenas 5% dos presidentes de empresas, depois leio que são maioria entre os ricos. Oi? O que a gente faz? Trafica?”. Aproveito para fazer coro à Juliana e perguntar o que a sua empresa está fazendo para atender ao público feminino. Acredite, site com florszinhas ou tons pastéis não é o que precisamos.
O reconhecimento dos símbolos
1 de Abril de 2010
publicado na revista Webdesign de abril de 2010, ano 7, nº 76, ISSN 1806-0099
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Dois dias já haviam passado da Páscoa quando, em um certo 22 de abril, ainda a 24 km da costa, as âncoras de Pedro mergulharam 34 metros mar abaixo1, colocando fim a uma viagem chatíssima. Ou seja, não é de hoje que o Brasil começa depois do Carnaval. Os nativos brasileiros subiram a bordo da caravela de Cabral no dia seguinte ao desembarque, em 24 de abril de 1500. Cabral colocou sua melhor roupa e todos os adornos a que um capitão-mor tinha direito e no entanto os índios não conseguiram diferenciá-lo dos demais brancos a bordo, em uma das melhores comprovações que conheço de que a compreensão de um signo é sempre posterior à sua contextualização. Nós sempre reconhecemos um símbolo, nós nunca conhecemos um símbolo.
Quando você vir um homem com uma coroa na cabeça e montado em um elefante é Manoel I, rei de Portugal na época. Muita gente acredita que esta representação é por causa do famoso caminho para a Índia mas na verdade é por ele ter enviado ao Papa Leão X um elefante chamado Hanno de presente. As pessoas na época acharam tão exótico quanto você está achando agora e as charges políticas exploraram bem o estranho presente. Por falar em elefantes e caricaturas, foi o cartunista norte-americano Thomas Nast, muitos anos depois, o responsável pelos burro e elefante que acabaram se tornando símbolos dos partidos Democrata e Republicano norte-americanos, respectivamente. No melhor estilo do capitalismo, o que começou como uma crítica virou marketing.
As naus que aqui chegaram eram o fino da alta tecnologia e, além das velas latinas (triangulares) para momentos de vento contra, tinham também a vela redonda (que era quadrada) para traduzir cada sopro em maior velocidade. Eram tipo um processador multi-core da época. Cada vela ostentava uma enorme Cruz de Malta. Você sabe qual, é aquela com serifas. A que nós vimos chegar em nossas praias já tinha sofrido um redesign, mas era bem parecida com a da Primeira Cruzada em 1096, que por sua vez era idêntica à cruz da Ordem dos Templários. Sim, aqueles do Santo Graal. Sim, do Indiana Jones. Não encontrei bibliografia disso, mas nada me tira da cabeça que as atuais roupas de mergulho com tubarões são inspiradas no uniforme dos cavaleiros templários.
Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama tinham em comum mais do que o idioma. Tinham também o mesmo piloto, Pero Escolar. A indicação de Cabral para a missão é um mistério até hoje. A armada era enorme, composta por 13 naus e 1500 homens, representando quase 3% da população de Lisboa. Seria mais ou menos como se um designer inexperiente assumisse o comando de uma mega-corporação e, por ser inexperiente e não burro, contratasse o Luli Radfahrer para pilotar.
Assim que Colombo botou os pés na América começou na Europa um debate sobre se os nativos teriam ou não alma2. Este é, na verdade, um questionamento mais econômico do que filosófico: se tem alma não pode ser escravizado. E escravos eram bons para a economia daqueles tempos.
A comprovação da nossa existência foi para o pensamento vigente da Época dos Descobrimentos o que o catolicismo foi para o Império Romano. Toda a percepção de mundo foi abalada. De repente o mundo deixou de ser plano e a Europa deixou de ser o centro. Dando mais um passo anacrônico, é possível entender Linus Torvalds como um Colombo contemporâneo, alguém que muito mais coloca o pensamento tradicional em cheque do que como alguém que finca bandeira em novos territórios.
Em tempo: Santa Maria, Pinta e Niña eram as embarcações de Colombo, tá gente? Assim como as de Cabral, elas também tinham uma cruz de Malta nas velas. O sotaque muda mas a cruz é a mesma. Colombo viajava sob as ordens dos Reis Católicos de Espanha, Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, que usavam como símbolo um conjunto de flechas, conhecido como el yugo y las flechas, muito similar ao feixe de varas do senado do Império Romano. O feixe – fascio, em italiano – acabou sendo usado como símbolo do fascismo (fascio – fascismo). E não apenas na Itália de Mussolini. A bandeira do partido de extrema direita espanhol Falange Española de las JONS é até hoje um fascio, por exemplo. Então, preste atenção porque talvez um array de setas não seja um bom ícone para velocidade. De uma forma geral, é sempre bom evitar símbolos religiosos e/ou políticos quando você estiver criando uma identidade visual. A possibilidade de involuntariamente ofender alguém é enorme. Por isso é tão importante ouvir a opinião de quem não sabe no que você está trabalhando. De preferência, inclusive, alguém de outra área profissional completamente diferente da sua.
Em 1500 Leonardo Da Vinci estava no auge da sua carreira. Em 1501 Michelangelo começou a esculpir o David. Entre 1499 e 1502, Rafael pintou Ressurreição de Cristo, que hoje é parte do acervo do MASP. O movimento renascentista ganhou este nome porque era uma tentativa de reviver a glória do Império Romano e considerava tudo que aconteceu entre estes períodos como medíocre (daí o termo Idade Média, inclusive)3. Então, este negócio de sair conquistando novos territórios não era tão novo assim. Não apenas a estratégia militar geopolítica estava em alta, mas as artes também. Toda a compreensão européia dos acontecimentos estava necessariamente mergulhada nos ideais renascentistas e, portanto, uma importante parte da formação da nossa própria identidade também. Nossa história é contada do ponto de vista de quem aqui chega. Deveríamos ter uma carta, ainda que escrita anacronicamente, do ponto de vista dos nativos: “A feição deles é serem brancos, maneira de amarelados, de rostos magros e narizes finos”. Ia ser divertido, pelo menos.
O Brasil fascina os estrangeiros que aqui chegam desde que, bem, aqui chegam. Existem registros de que 5 portugueses desertaram a armada de Cabral e por aqui ficaram. E olha que isso foi bem antes do ar condicionado, do metrô e da wireless livre na praia.
1. BUENO, Eduardo, A viagem do descobrimento, (Rio de Janeiro, Objetiva, 1998); BUENO, Eduardo, Capitães do Brasil, (Rio de Janeiro, Objetiva, 1999); BUENO, Eduardo, Náufragos, Traficantes e Degredados, (Rio de Janeiro, Objetiva, 1998).
2. RIBEIRO, Darcy. Os índios e a civilização: a integração das populações indígenas no Brasil moderno. Petrópolis: Vozes 1977.
3. HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
Águas de março
1 de Março de 2010
Publicado online na Revista Webdesign online em 01 de março de 2010
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Águas de março
Todas as crenças, de certa maneira, buscaram na água os seus ritos de passagem e momentos de transição. Para alguns, a água é purificadora, para outros é ligada à morte e às vezes a vidas futuras. Da água nascemos, por ela morremos. Alimenta a Terra, mata a sede dos seres vivos, afoga, constrói e destrói e nela navegamos.
De uma forma geral, independente da cultura, a água era considerada a fonte de vida primordial. No século XVIII, com o surgimento da ciência experimental, a água passa a ser incolor, insípida e inodora. A água não é mais um elemento, é apenas três átomos, H2O. Talvez este distanciamento emocional explique o que leva a humanidade a poluir o elemento que a mantém viva.
A Tailândia homenageia a deusa da água, Phra Mae Khongkha, durante o festival Loy Krathong, que acontece no final da temporada de monções. Milhares de pessoas iluminam os rios e canais com velas, oferecem flores e acendem incensos. É um simbolismo de amor.
Em inúmeras tradições, o peixe, fruto das águas, é um ícone de revelação, sabedoria e santidade. Quando o cristianismo surgiu, o símbolo de Cristo era um peixe. Na tradição cristã, a água é um elemento purificante. Até a saliva aparece na Bíblia, curando os olhos de um cego. Curiosamente, o elemento da extrema-unção é o óleo, que não se mistura com a água.
No islamismo, os fiéis só podem fazer as suas cinco orações diárias depois de um ritual de lavagem do corpo com água limpa, chamado “wudu”, e os mortos recebem três banhos que os prepara para a nova vida espiritual.
A transmutação da água é uma simbologia tão forte que se repete inúmeras vezes. No Egito, Moisés faz um gesto e transforma água em sangue. Foi um choque, consideraram uma violência. Séculos depois, Jesus Cristo transforma água em vinho. E depois, antes de ser crucificado, o vinho se torna sangue sagrado.
É na água que Narciso vê sua imagem refletida. Ou seja, a água pode ser também uma prisão do Ego.
No Brasil, Iemanjá é uma divindade muito venerada, até mesmo por pessoas não-praticantes do Candomblé ou Umbanda. Todo réveillon vemos levas de pessoas jogando flores ao mar para Iemanjá, independente de sua religião. Ela é também um símbolo de fecundidade e rege a maternidade. Na África era cultuada pelos egbá, nação Iorubá da região próxima ao rio Yemojá. Em rituais de Umbanda, banhos de cachoeira, rio ou mar lavam desafetos e infortúnios.
Já para os índios Bororo, da região do Mato Grosso, a água é o mediador entre os irreconciliáveis Céu e Terra. Não podemos pensar em água sem falar da Lavagem do Bonfim, que acontece em Salvador na segunda quinta-feira depois do Dia de Reis, em janeiro. Temos também muitos mitos ligados à água – como o Boto, o Caboclo-d’água, Alamoa, Iara, e Boiúna – que ainda perduram em algumas regiões do país.
Na mitologia grega, o Oceano é tão antigo quanto o mundo e por isso é sempre representado como um velho. Vários ícones repetem este conceito. Os nomes mais comuns da “mitologia aquática” são Netuno, Proteu, Tritão e Tetis. Netuno é geralmente representado nu, com uma longa barba e com um tridente na mão, com o qual ele poderia, a seu bel prazer, provocar terremotos e maremotos. Proteu guardava o rebanho de Netuno, isto é, os peixes. Como pagamento pelo trabalho, Netuno deu-lhe o conhecimento do passado, do presente e do futuro.
A água assume também uma face erótica-mortal com as sereias, que com seu canto atraem os inocentes homens para o fundo das águas.
A cidade asteca de Tenochtitlán (onde hoje é a cidade do México) tinha um sistema complexo e extremamente eficaz de aquedutos. Outra que impressiona é Roma, com suas fontes termais e um sistema hidráulico dos tempos de César que ainda funcionam.
Quando os espanhóis chegaram à América e encontraram os índios, a estranheza foi mútua. Os europeus questionavam se os nativos tinham alma e estes, por sua vez, mergulhavam os espanhóis na água para descobrir do que eram feitos.
Para o taoísmo e para a acupuntura, os meridianos de nosso corpo são como caminhos de água na Terra e dependem de não haver qualquer bloqueio para fluírem. Esse movimento energético (falando de modo simplista) no corpo é conhecido como “chi” e é usado também em artes marciais, como o Tai Chi Chuan e o Aikidô.
O mito do dilúvio, que encontramos entre todos os povos, é a água dos céus e da terra que renova a humanidade nem que seja no tapa. É o símbolo do retorno a um passado romântico, o famoso “no meu tempo era melhor”.
A literatura, então, deita e rola com os simbolismos da água. De Lusíadas a Vinte mil léguas submarinas passando por Vidas secas, o elemento água se torna importante inclusive na narração de histórias.
Curiosamente, a iconografia moderna de água não utiliza mitos e sempre reproduz algum tipo de onda ou pingo. Ou seja, o movimento tornou-se mais importante do que o elemento. Esta mudança de entendimento da água faz todo sentido se pensarmos que somos seres pós-industriais e vivemos em uma época de valorização do conhecimento e da informação que são, por natureza, voláteis e móveis.
A internet, por exemplo, é entendida como um meio fluido, líquido. Prova disso é que usamos um navegador e somos internautas (ou, em inglês, surfistas).
Hoje falamos de fluxo de informação, design fluido, acessibilidade (não-bloqueio, chi), e redes sem limites definidos. Vivemos a água em movimento e refletimos esta fluidez em nosso cotidiano. É natural, portanto, que a imagem do mito-ícone, estática e dependente de contexto, assuma uma importância menor. Vivemos um tempo em que o conteúdo, volátil e etéreo, é mais importante do que seu suporte. Vivemos um tempo em que a onda sonora é mais importante do que a matéria (mp3 versus CDs). E por falar em música, como fã incondicional de Tom Jobim, termino fechando o verão.
Você também curte o carnaval
1 de Fevereiro de 2010
publicado na revista Webdesign de fevereiro de 2010, ano 7, nº 74, ISSN 1806-0099.
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Cecília Meireles escreveu um livro intitulado Batuque, Samba e Macumba: Estudos de gestos e rituais 1926-1934, publicado pela Funarte em 1983, onde ela descreve a vestimenta das baianas em detalhes. As baianas, no carnaval, são uma homenagem às “tias” dos escravos, as senhoras que educavam seus filhos, cuidavam dos doentes e apaziguavam brigas. O pano na cabeça das baianas chama-se trunfa e, apesar desta informação já ter se perdido, é um signo também de matriarcado e de status. O mesmo livro relata também a relação entre o batuque e a capoeira: “O batuque vem do ritual de adestramento masculino para as guerras, seus movimentos são martelados e secos, e a coreografia consta da marcha cadenciada de um dos personagens, ladeando a roda que sustenta a música com cânticos e instrumentos, acompanhados de bater de palmas, terminando num golpe de agilidade que deita por terra o companheiro escolhido para substituir. Do batuque derivou-se no Brasil a escola de capoeiragem.[1]” Tanto a capoeira quanto o batuque foram proibidos no Brasil durante muitos anos. Alguns autores acreditam que os passos de samba têm sua origem na capoeira, que seriam golpes de capoeira levados na brincadeira, sem violência. Como sou capoeirista e no entanto sou incapaz de sambar nem que minha vida dependa disso, essa vertente me parece um tanto alienígena.
Não posso falar em Carnaval sem mencionar a Commedia dell´Arte e seus personagens Pedrolino, Arlecchino e Colombina (Pierrô, Arlequim e Colombina, respectivamente). A Commedia dell´Arte surgiu na Itália durante o Maneirismo (século XVI) e era originalmente um teatro de rua mas conseguiu tanta adesão que tornou-se um evento popular. Era um acontecimento bastante revolucionário para a época, em que as peças eram faladas em italiano e não mais em latim, o que muito ajudou a sua popularização. Até pouco tempo atrás aqui no Brasil ainda víamos crianças fantasiadas de Pierrô e de Colombina nas ruas mas acho que esta tradição se perdeu.
Foi em Carnavais, paradas e procissões, de Roberto da Matta, que encontrei a melhor referência sobre a importância da fantasia carnavalesca: “No Carnaval a roupagem apropriada é a fantasia, um termo que em português do Brasil tem duplo sentido, pois tanto se refere às ilusões e idealizações de realidade quanto aos costumes usados no Carnaval. (…) O contrário ocorre na fantasia carnavalesca, que revela muito mais do que esconde, já que uma fantasia representando o desejo escondido faz uma síntese entre o fantasiado, os papéis que representa e os que gostaria de representar. Como conseqüência, as fantasias carnavalescas criam um campo social de encontro, de mediação e de polissemia social, pois, não obstante as diferenças e incompatibilidades desses papéis representados graficamente pelas vestes, todos estão aqui para ‘brincar’. (…) O pobre que se transforma simbolicamente em nobre, é porque não quer (ou não pode) abrir mão deste momento compensatório que lhe proporciona o Carnaval.[2]”
Os elementos carnavalescos tem origens diversas. Uma história que acho interessante é a do confete. A origem é espanhola (papelillos) mas foi o confete francês, criado por Le Malin Cassin, que veio para o Brasil. Devemos aos comerciantes cariocas Miguel Lemos & Irmão a introdução do confete no Rio de Janeiro, em 1892. A imprensa saudou a inovação porque era uma alternativa ao entrudo – uma “brincadeira” que consistia em alvejar quem quer que ousasse passar na rua com água e farinha colocadas dentro de bolhas de ceras ocas – mas o início do uso do confete foi também violentíssimo, com os pitboys da época enchendo bocas e roupas dos mais fracos. Foi só em 1896, com a chegada das mais variadas formas e cores de confete e serpentina, que a brincadeira entrou mais no espírito do Carnaval. Em 1897 surgiu o confete de ouro, “coisa finíssima e cara, capaz de embelezar qualquer mulher. Jogar confete dourado numa cabeça feminina era glorificar a proprietária da cabeça. Dois mil contos gastou o carioca em ‘papel picado’ no ano de 1898! O País proclamou: ‘O alter ego da moda é o jogo de confete’.[3]” Em 1907 o jornal A Gazeta de Notícias promoveu uma grande batalha de confete, em um evento puritano, onde quem tivesse “intenções lascivas” era vetado. A batalha aconteceu no Rio de Janeiro, na segunda-feira de Carnaval, na Avenida Beira-Mar, das 16 às 20 horas, e de lá os foliões seguiram para um bal masqué (baile de máscaras) beneficente no Clube de Regatas de Botafogo. Desde então escutamos que o “verdadeiro” Carnaval está morrendo. Nesta época a crítica ia para os bailes e demais eventos em clubes, hoje escutamos o mesmo discurso em relação aos sambódromos da vida. Passaram-se mais de cem anos e o discurso de quem ou o que é “verdadeiro” continua, sem levar em conta que Verdade é um conceito absolutamente subjetivo e dependente da noção de realidade que você tem. Viva Joãosinho Trinta, isso sim!
A raiz da maioria dos elementos carnavalescos está na fantasia, na transmutação temporária. Por este motivo sempre acho engraçado quando um amigo nerd/geek me diz que não gosta de Carnaval e, ao mesmo tempo, usa nicknames online ou se caracteriza com o nobre uniforme da Federação. É claro que cada um de nós lida com este jogo psicossocial da máscara de maneiras diferentes, mas não critique quem gasta dinheiro com fantasias e cai na folia todo ano. É uma “válvula de escape” tão importante para aquela pessoa quanto FarmVille ou RPG pode ser para você.
Link recomendado: http://www.jangadabrasil.com.br/
Leia mais: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40141997000100011&script=sci_arttext
Dica: o conto Restos do Carnaval, de Clarice Lispector
[1] MEIRELES, Cecília. Batuque samba e macumba: estudos de gestos e ritmos. Funarte, 1983.
[2] DA MATTA, Roberto. Carnavais, paradas e procissões: reflexões sobre o mundo dos ritos. In: Religião e Sociedade. Rio de Janeiro. ISER: Maio, 1977. N. 1, p. 3-30.
[3] ENEIDA. História do carnaval carioca. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1958.
De Jano aos blogs: a perpetuação da expressão humana
1 de Janeiro de 2010
publicado na revista Webdesign, edição de janeiro de 2010, ano 7, número 73, ISSN 1806-0099
obs: coloco a data aqui igual à de publicação mas sempre respeito o prazo de reprodução
Jano é um dos mais antigos deuses do panteão romano. Segundo a mitologia, não era filho de deuses e ganhou sua divindade após um bem-sucedido e longo reinado. É uma divindade exclusivamente romana, não aparece na mitologia grega. É considerado o deus dos portões, passagens, entradas, portas e similares. Normalmente Jano é representado com dois rostos. O que olha para frente é novo e imberbe e o que olha para trás é velho e barbudo. É aquele que percebe todos os ângulos de uma mesma questão, que vê o passado e o futuro simultaneamente. É também quem dá o nome ao mês de janeiro.
Este conceito, de que o passado é tão importante quanto o futuro na compreensão do todo, ficou esquecido durante séculos no Ocidente. Devemos à revolução dos blogs a retomada desta idéia. Passear pelos arquivos de um blog nos dá poderes de oráculo na visão do passado e uma noção mais clara daquele todo específico, ou seja, do “todo” que o blog pretende mostrar.
Jano possui uma chave dupla, é aquele que tem o tempo em suas mãos. A iconografia da chave de Jano é muito similar à das chaves de São Pedro. Quando o Cristianismo surgiu, a maioria das pessoas era analfabeta e a Igreja recorreu a símbolos que já pertenciam ao inconsciente coletivo para conseguir se comunicar. Existem vários exemplos de “cristianização” de elementos iconográficos que já eram utilizados, como por exemplo a luz na cabeça de Apolo (auréola) ou o 3 como número sagrado. O Cristianismo, por sua vez, também empresta seus ícones a outras culturas e outros tempos. Nossa história é orgânica e permeada por diálogos. Não somos frutos apenas de nosso tempo. Somos frutos de todos os tempos.
Acho no mínimo curioso que sejam os blogs os primeiros desta nova Era a falar de monetização. É atribuída também a Jano a invenção do dinheiro-moeda. As moedas romanas mais antigas (c. 225 a.C), inclusive, trazem Jano em uma face. No verso das moedas de prata, cobre e ouro, respectivamente, as moedas mostram: Júpiter em uma quadriga (biga tem dois cavalos, quadriga tem quatro), a proa de um barco e, uma cena de cobrança de tributos devidos a Cesar. Júpiter, só lembrando, é o deus romano do céu, dos trovões e do dia e é, portanto, outro símbolo da passagem de tempo.
Outra coincidência engraçada é o termo navegar/navegador para internet. Teria sido Jano também o inventor do barco, primeiro utilizado em sua travessia da Tessália a Roma. Jano emigrou para a Itália já casado com Carmise[1] (ou Camasena, uma outra grafia possível), com quem teve vários filhos. Seu filho mais famoso foi Tiber, que empresta seu nome ao rio mais importante daquele país, o rio Tibre (em latim Tiberis). Sempre fico na expectativa que surja um navegador chamado Jano com a feature de um histórico mais inteligente do que uma simples lista.
Essa idéia de Jano como aquele que observa os vários ângulos da questão é tão forte que em representações mais recentes, a partir do século II d.C, às vezes é representado com quatro faces e ocasionalmente com uma face feminina e outra masculina.
O reinado de Jano foi uma Idade de Ouro, com prosperidade, abundância de recursos naturais, liberdade e paz absoluta. Existe uma estátua de Jano com Belona[2] que mostra o deus delicadamente impedindo a passagem da moça. Belona é uma deusa da guerra. Jano é pacífico. Ele não é bruto, não derruba a guerreira a golpes de ignorância. Com sutileza, quase com ternura, faz com que ela não siga adiante. Assim foi todo o reinado de Jano: pacífico e gentil. Estamos muito longe desta realidade, infelizmente, mas online nos esforçamos muito para atingir esta utopia. Nos organizamos em comunidades, buscamos informações (o saber é o recurso mais valioso de nosso tempo), tentamos ganhar dinheiro e procuramos conviver de forma pacífica. Queremos todos, anacronicamente, um reinado de Jano.
Talvez a grande maioria de nós mantenha vivos os arquivos de seu blog sem refletir que isto pode ser uma expressão do desejo humano de perpetuar-se e de ser compreendido. Não mantemos nossos arquivos, como crêem alguns, (apenas) como prova do tempo de estrada ou para o Sr. Google ter o que buscar. Mantemos nossos arquivos como registros nas paredes das cavernas de que ali estivemos, de que pensamos, criamos, erramos, acertamos, vivemos. A vontade de expressão caminha junto com a vontade de registro desta mesma expressão e são, ambas, fundamentalmente humanas e é este fator, e não a facilidade de publicação, que torna o blog forte e, ao mesmo tempo, incompreensível para as grandes mídias habituadas a atender uma necessidade mercadológica e não uma necessidade atávica de poética pessoal.
A construção de nossa poética pessoal, aliás, é o que nos leva a usar ferramentas como o Twitter, Facebook e afins. A chave aqui é “pessoal” e é este o grande problema com o branding e outros jargões em inglês que o marketing adora inventar, mas isso é conversa para outro artigo.
E eis que então chega janeiro e, com ele, todos aqueles clichês de Ano Novo. Não seriam clichês, entretanto, se não tocassem em emoções próximas a nós. Fica aqui, portanto, o meu voto de que 2010 consigamos refletir sobre o passado e o futuro e que encontremos, de alguma maneira, o Jano em nossas vidas.
[1] PALAZZI, Fernando Piccolo, Dizionario di Mitologia e Antichità Classiche, Milão, Mondadori, 1925.
[2] http://commons.wikimedia.org/wiki/File:N29Janus-u-Bellona.jpg
Elementos iconográficos em obras de arte
1 de Dezembro de 2009
publicado na Revista Webdesign de dezembro de 2009, ano 6, nº 72, ISSN 1806-0099.
obs: coloco a data aqui igual à de publicação mas sempre respeito o prazo de reprodução
Considerando que a fotografia surgiu apenas em 1826, não é de se estranhar que os grandes ícones da arte mundial ainda sejam pinturas ou esculturas. A televisão surgiu em 1923 e o youtube em 2005. Santos Dumont inventou o avião em 1906, provando que havia vida antes da internet. Assim como você precisa estar no twitter para entender brincadeiras do tipo “comofas” ou “mimimi”, é necessário conhecer a nossa história para compreender o que acontece hoje. O impacto e a permanência dos símbolos e ícones da atualidade muitas vezes seguem ainda a mesma lógica de leitura, análise e interpretação destas imagens que, durante muito tempo eram a nossa única mídia.
Hoje em dia a inserção de propaganda nas artes “clássicas” (muitas aspas nesta hora, mas a título de ilustração vamos considerar pintura, escultura e arquitetura) causa náusea mesmo no artista mais flexível. Não foi sempre assim e certamente ainda veremos outras interpretações do assunto. Durante um período muito grande de nossa história, a propaganda pura e simples era mal vista e era mesclada com arte, especialmente arte sacra, para que pudesse ser aceita. Existem incontáveis exemplos de monarcas, ricos mercadores e outros representantes do poder vigente inseridos em cenas bíblicas pelas hábeis mãos de artistas importantes, como Botticelli, Bernini, Piero Della Francesca e tantos outros.
Quando pensamos em Natal, muitos de nós lembram do velho barbudo popularizado pela Coca-Cola em 1931 mas a ocasião tem sua origem em uma tradição cristã, não no shopping center. Assim como a Coca-Cola usou um símbolo religioso (São Nicolau) para criar uma comunicação eficaz que todos entenderam na hora, era muito comum que os ricos e os nobres usassem cenas conhecidas para criar uma comunicação imediata com o seu público. Estas cenas eram normalmente bíblicas ou da mitologia Greco-romana. Ter um quadro pintado por um artista célebre não era para muitos e este fato isoladamente já seria mais que suficiente para a demonstração de poder desejada. O uso de pigmentos como o vermelho e o azul, que eram mais caros que o ouro, é outra forma de ostentação mas a soberba não se satisfaz facilmente e era ainda necessário que fossem retratados em uma cena divina.
Escolhi para este artigo, de uma forma bastante aleatória, confesso, o quadro A adoração dos pastores (também conhecido como A adoração dos magos), de Sandro Botticelli.
Os pastores em questão eram a família Medici e sua entourage. Algumas figuras importantes são:
- A sagrada família, com Jesus no colo da Virgem Maria e São José ao fundo;
- Cosimo, Il Vecchio, patrono dos Medici, que segura os pés de Jesus;
- Piero Di Medici, figura central de manto vermelho;
- Lorenzo, o Magnífico, à esquerda do quadro;
- Sandro Botticelli, à direita com um manto amarelado, olhando para nós.
Tocar o sagrado, ou seja, fisicamente tocar os pés do menino Jesus seria considerado uma heresia terrível não fosse o fato de que Cosimo já estava morto quando o quadro foi pintado. Seu sucessor, Piero Di Medici, foi assassinado 4 anos após término do quadro, em 1478, em uma tentativa do golpe de estado. Assume o poder, então, o neto de Cosimo, Lorenzo, o maior príncipe que toda a Itália conhece: Lorenzo, o Magnífico. Foi Lorenzo quem criou todo o sistema bancário europeu (fundou bancos até na Inglaterra), um estrategista brilhante, um grande intelectual e um dos maiores poetas da Itália. Foi o grande mecenas dos artistas. Ele compreendia as obras de arte e debatia a iconografia com os artistas, em uma relação de simbiose, havia um clima de intelectualidade compartilhada entre o príncipe e o artista. Lorenzo cercou-se dos intelectuais Poliziano (entre outras coisas, professor de Michelangelo), Ficino (alquimista) e Pico Della Mirandola (filósofo) e tinha a maior biblioteca da Europa antes de Gutenberg. Botticelli divide o quadro matematicamente, com a sagrada família no topo do triângulo, o mundo político à direita e o artístico à esquerda e, como uma forma de demonstrar a troca entre iguais, coloca seu auto-retrato no lado político e Lorenzo no artístico. Esta troca de lugares é bastante representativa do pensamento humanista da época: a política não existia sem a arte e vice-versa. Ninguém poderia conceber um administrador que não conhecesse arte e muito menos um artista que não fosse um profundo conhecedor de política e ciência/religião (não havia separação, ainda).
A tradição hermenêutica criada por Botticelli (decifração de textos e imagens) perdurou até, pelo menos, o século XIX. Este quadro não é exceção e existem alegorias que à primeira vista podem parecer apenas cenográficas mas que contém em si signo e significado, como as ruínas Greco-romanas ao fundo. O Renascimento é assim chamado por ser o desejo de fazer renascer o Império Romano e, ao mesmo tempo, superá-lo em técnica e beleza. É o período posterior à Idade Média. Foi Francesco Petrarca quem deu o nome à Idade Média, dizendo que o mundo em que vivia estava velho, podre e seco, e que era preciso voltar à luz Greco-romana, para deixar a idade de trevas, idade medíocre. As ruínas no quadro dizem que os renascentistas retornaram a este período de glória e o superaram. É, portanto, um símbolo de ostentação também, mas desta vez do artista e não da família Medici.
A Virgem Maria é sempre contida, melancólica. Nunca, em hipótese alguma, em estilo algum, é representada sorrindo. Ela tem a intuição do futuro e sabe que o menino será morto mas não pode revelar o plano de Deus. Sofre calada, nunca ri abertamente. Outra alegoria interessante é o pavão no canto direito. O pavão de asa aberta é considerado um símbolo da vaidade fútil e vazia. Já o pavão de asa fechada, por oposição, é um ícone de sabedoria.
Existem muitos outros elementos iconográficos nesta imagem mas vou deixar para você descobrir. Pode falar, você nunca achou que um quadro de 1474 rendesse tanto assunto, não é? E, claro, aproveitando, um Feliz Natal para todos!
Símbolos e signos nas obras de arte
1 de Outubro de 2009
publicado na Revista Webdesign de outubro de 2009, ano 6, nº 70, ISSN 1806-0099.
obs: coloco a data aqui igual à de publicação mas sempre respeito o prazo de reprodução
Durante muito, muito tempo, a arte era a única mídia disponível. A população era analfabeta e toda comunicação, propaganda e ideologia era transmitida através de imagens. A imagem precisava funcionar, as pessoas precisavam reconhecer imediatamente o seu significado. Se usarmos uma abstração simplista e considerarmos o início da iconografia não nas cavernas mas apenas a partir de, digamos, Egito, contamos algo em torno de 5 mil anos de produção artística. O Papa Gregório, o Grande disse: “a imagem é a bíblia dos ignorantes”. A imagem torna visível um pensamento até mesmo para os iletrados.
Naturalmente a história da arte revê estes significados organicamente à luz de novas evidências. Só é possível falar do que sabemos hoje e o amanhã trará, com certeza, novas informações.
Existe uma discussão antiga que diz que precisamos conhecer antes de ver. Explico: quem nunca conheceu uma vaca não irá reconhecer a sua representação a menos que lhe seja explicado. Ou seja, para ver a vaca, é preciso primeiro saber o que é uma vaca. Os signos (e seus significados) sempre dependem, portanto, do repertório de quem os vê.
Nós somos tão acostumados a símbolos que às vezes nem os notamos. Para um usuário de internet, um arroba, por exemplo, assume o significado imediato de um email ou de uma pessoa no twitter. Nas artes o símbolo também se apresenta e também depende daquilo que você conhece para ser compreendido mas o fato de você não reconhecê-lo não significa, em absoluto, que o elemento iconográfico não esteja presente.
Pode parecer meio óbvio para um católico mas nem todos sabem que as chaves de São Pedro em uma obra de arte apontam para um personagem ou cenário do Vaticano, por exemplo. Assim como pontos de Umbanda serão entendidos como meros rabiscos para aquele que não os conhece.
Exemplos não faltam e este artigo, por mais que se estenda, jamais conseguiria abordar sequer a maioria, que dirá todos. O importante é saber que os elementos possuem significados e que, se for do seu interesse, basta uma pequena pesquisa para compreendê-los. Vou aqui falar de alguns elementos recorrentes como um ponto de partida no assunto mas o que é importante é você saber que estes elementos existem.
Até a criação do primeiro corante sintetizado, o Mauve, em 1856, as tintas eram preparadas a partir de elementos naturais. As cores, portanto, também são um elemento a ser considerado. Durante muito tempo o vermelho era um pigmento caríssimo e conseqüentemente assume com freqüência um valor representativo de nobreza e/ou riqueza. O azul era feito de Lápis-Lazuli, uma pedra preciosa que, assim como o pigmento vermelho, valia mais do que o ouro.
Apolo, deus do sol e da razão, padroeiro da ciência e dos artistas, patrono do mundo, era sempre representado com um sol em volta da cabeça, para mostrar que era um iluminado. Hoje, por influência da iconografia católica, entendemos todo círculo nesta posição como auréola mas na verdade esta alegoria representa iluminação (não necessariamente espiritual). Por este motivo não é incomum encontrar este círculo em cabeças não-santas, como imperadores, nobres e ocasionais filósofos. Exemplo: a auréola nas cabeças do imperador Justiniano e da imperatriz Teodora, na Basílica de San Vitale, em Ravenna, na Itália. Ainda na mesma linha, Jesus Cristo é representado com a cor branca e o demônio com a negra por causa de quem vê ou não a luz. Não é uma interpretação racista, um questionamento que sequer fazia sentido na época do surgimento do cristianismo. Por este mesmo motivo, o Divino Espírito Santo é representado com uma pomba branca, por ser aquele que liga a Terra e o Céu – e portanto voa – e é iluminado (branco).
Na Grécia antiga, os médicos eram os sacerdotes de Asclépius e as enfermeiras eram as sacerdotisas de Higéia (higiene). O veneno da cobra era usado como anestesia. O emblema de Asclépius era uma cobra. Por isso o caduceus, símbolo da medicina, tem uma serpente.
A arte egípcia tinha uma função de preservação e perpetuação do que ou de quem era representado. Por este motivo, as figuras egípcias eram sempre mostradas a partir do seu ângulo mais característico. No Mural do túmulo de Khnumhotep (c. 1900 a.C.) podemos ver claramente que todas as figuras, inclusive peixes e pássaros são representados com a cabeça em perfil e com o corpo de forma a mostrar os traços mais importantes para a sua identificação, como o tipo de asa em um pássaro ou as escamas de um peixe. Hoje, as figuras humanas nesta posição tornaram-se um ícone da cultura egípcia.
Foi só com a Revolução Francesa de 1789 que estes pressupostos foram rompidos. Era, finalmente, a época em que ser rebelde era sinônimo de ser inteligente, rebeldia tinha status. “De repente, os artistas sentiram-se livres para escolher qualquer coisa como tema, desde uma cena de Shakespeare a um acontecimento do dia, o que quer que, de fato, apelasse para a imaginação e despertasse interesse. Esse descaso pelos temas objetos tradicionais da arte pode ter sido a única característica que os artistas bem-sucedidos do período e os rebeldes solitários tinham em comum.” [GOMBRICH, E. H.; História da Arte; pág. 481; tradução Álvaro Cabral, Rio de Janeiro: LTC, 2008.]. Apesar de, depois de 1789, estas alegorias e símbolos não serem mais imprescindíveis na arte, os seus significados permaneceram até hoje.
Com tudo isso não estou dizendo que você precisa criar um ícone para o site do seu cliente que dure 5 mil anos, mas talvez seja bom buscar referências que já fazem parte do nosso inconsciente coletivo para conseguir uma comunicação mais rápida e imediata. E, por falar em bons símbolos, pegue o seu cachimbo e sua lupa e assuma todo o seu lado Sherlock na próxima vez que olhar para uma obra de arte.
PDFs on-line
25 de Setembro de 2009
publicado no portal da Revista Webdesign em 25/09/2009
obs: coloco a data aqui igual à de publicação mas sempre respeito o prazo de reprodução
No artigo do mês passado, apresentei as características de um programa open source de diagramação, o Scribus. Neste novo texto, o assunto em destaque são os “PDFs on-line” e vamos dividir sua análise em duas partes: na primeira, vou falar sobre uma aplicação possível sem ser como e-books e afins. E, na segunda, sobre e-books, e-zines, e-editoras e-etc.
PDFs diagramação
Os PDFs podem ser embed (inseridos em um post de blog, por exemplo) assim como os vídeos do YouTube ou as músicas do Blip. Um dos mecanismos mais simpáticos de fazer isso é usando o Scribd, que tem até mesmo a opção do seu PDF ser aberto com as páginas no estilo pageflip.
Um uso meio óbvio é o de organizar um portfólio. Podemos criar “books” como os fotógrafos fazem e publicá-los em um blog sem muita dificuldade, ainda com a vantagem de já estar pronto para impressão se for necessário.
Outra utilização que pode ser interessante é a publicação de documentos que exigem uma determinada formatação rígida, como atas de uma associação ou pareceres jurídicos. Ou ainda, criar uma seção de downloads no seu site com agendas para o ano seguinte, marcadores de página, ou o que mais a sua imaginação criar.
Existem muitos sites que permitem o upload e embed de PDFs, como o Issuu ou o Scribd. Antes de começar a fazer upload para todos, vale passear um pouco pelas publicações disponíveis para ver como cada um lida com os PDFs:

O Scribd, assim como muitos outros, está tentando criar uma comunidade on-line, com presença no Twitter e uma página inicial que lembra muito o Facebook, mostrando as últimas atualizações de pessoas na sua lista.

O Issuu, por sua vez, foca mais em periódicos, tanto que, em sua home, o destaque é para “Featured magazines”. Se o seu plano é uma revista em PDF gratuita on-line, certamente este é um bom lugar para se estar. Existem verdadeiras pérolas por lá. Uma das minhas favoritas é a Illustration:
PDFs e-publicação
Que o futuro é e-book, e-zine, e-qualquer-coisa, ninguém duvida. A grande questão é como ganhar dinheiro com isso. Afinal, o escritor precisa pagar suas contas, o ilustrador precisa comer etc. Algumas soluções começam a aparecer, como a portuguesa Bubok (disponível para o Brasil), mas existe ainda a questão do trabalho editorial.

Antes de tudo, publicações são necessariamente fruto de um trabalho em equipe. O escritor está preocupado (ou deveria, pelo menos) com a qualidade do que escreve. O ilustrador/fotógrafo/etc. se preocupa em dialogar com o texto esteticamente. O diagramador se preocupa em fazer com que estes elementos funcionem juntos. O revisor se preocupa com nossa língua pátria.
E quem se preocupa com o conjunto da obra, com posicionamento de mercado, com marca, com tudo isso? O editor! Ele não é fabricante de papel, mas sim um fabricante de ideais. E essa função não morre nunca. Acredito pessoalmente que os e-etc. ainda não são o padrão justamente porque os autores acham que se podem colocar os seus livros em um blog da vida, não precisam do editor. Estão errados. O resultado é um livro sem unidade, sem posicionamento, sem todo um trabalho de raciocinar o produto final como algo interessante, palatável e vendável. O que acontece, no final das contas, é uma publicação eletrônica perdida no espaço.
Naturalmente, existem exceções de profissionais que são, ao mesmo tempo, autores ou ilustradores e editores, mas não são a maioria e, muito menos, o padrão. A diferença é que agora você não precisa mais de uma sala comercial para fazer isso. Você pode reunir profissionais de sua confiança e criar você mesmo, a um custo muito baixo, uma minieditora funcional. Ainda não sabemos ao certo o caminho a tomar, mas afinal de contas é justamente por causa do leque de possibilidades que você gosta de trabalhar com internet, né?
Segundo o IBGE, 24,5 milhões dos internautas brasileiros não ficam um único dia sem internet. Já estudos da Intel Brasil apontam que 64% dos usuários brasileiros têm o hábito de comprar on-line. É uma fatia de mercado muito significante. E esse povo todo é alfabetizado. Esse povo todo lê.
O Scribd lançou nos Estados Unidos um sisteminha de cobrar pelos PDFs. Por enquanto ainda não está disponível no Brasil. A portuguesa Bubok tem um trabalho bastante interessante, inclusive registrando ISBN* se assim o autor desejar. Ainda percebo alguns problemas práticos nesta solução, além dos conceituais citados acima, como, por exemplo, tamanhos rígidos ou a venda dos livros impressos sob demanda ser necessariamente em euros.
A grande questão, novamente, não é a solução técnica, mas sim a questão editorial. O leitor também sente falta de uma linha editorial definida, um selo sob o qual ele sabe o que encontrar. Por outro lado o “fetiche do papel” realmente está com os dias contados. Alguma solução há de ter. Enquanto o mercado não se define, você pode ir se preparando para não ser pego de surpresa, como aconteceu com a indústria fonográfica.
* Vale lembrar que o registro do ISBN no Brasil é extremamente simples e fácil.
Scribus, diagramando em software livre
27 de Agosto de 2009
O Scribus é um programa open source de diagramação. Existem muitos tutoriais em inglês disponíveis on-line, inclusive em vídeo. Como esta é uma revista voltada para a web, vou considerar a meta de produção como e-books e afins e não vou me preocupar aqui com questões como resolução mínima de impressão ou geração de marcas de registro, por exemplo.
Se esta for uma questão importante para você, no site de documentação do Scribus, você encontrará bons pontos de partida: docs.scribus.net. Recomendo também a leitura do ótimo blog Imagem, Papel e Fúria, e do livro “O Design do Livro”, de Richard Hendel.
Antes de entrar na parte prática do programa, é importante pensarmos em alguns conceitos que talvez não sejam uma preocupação para quem é muito “webcentrado”. Diferentemente de sites, publicações em PDF e afins pressupõem certa linearidade. Ou seja, não usamos extensivamente hipertexto e lógicas similares. Toda a diagramação é pensada como um plano fechado, não-fluido ou muito menos elástico.
Além disso, o conteúdo também é pensado de forma a não utilizar referências externas, como um link para uma definição na Wikipédia, por exemplo. A publicação neste formato precisa ter certa unidade e independência, mesmo se parte de uma série ou se é um periódico. Pegue a Revista Webdesign como exemplo: cada edição tem uma identidade comum a todas e, ao mesmo tempo, encerra os assuntos ali propostos com artigos completos e que se sustentam sozinhos.
Podemos usar esta mesma lógica, da publicação linear, em outras aplicações. Não é incomum, por exemplo, que um artista queira sua obra dividida em anos ou em fases. Podemos criar um PDF para cada segmento ou seção e colocá-lo de forma a fazer sentido no todo, com ou sem textos explicativos. Ou, ainda, é possível que um cliente seu queira uma área de downloads de documentos que necessitam ser impressos em uma formatação específica (como atas, pareceres jurídicos etc.). Ou seja, nem só de CSS vive o homem.
O Scribus é um programa bastante complexo. Existem inúmeros bons tutoriais e uma vasta documentação a seu respeito na web e, portanto, o propósito deste artigo é apenas de apresentá-lo como uma solução possível de diagramação. Para começar, como mandam os bons costumes, abrimos um novo documento.
A caixa de diálogo exibe algumas opções interessantes, como a possibilidade de dobras duplas ou triplas e a mudança da unidade de medida para cada documento.
Na hora da criação, pedi um “Automatic Text Frame”, então é só colar o texto a ser diagramado.
Uma das principais características do Scribus é que ele trata cada elemento individualmente, inclusive com a possibilidade de mudarmos o nome para uma identificação mais rápida. No caso de uma publicação maior será muito mais fácil de identificar “Tabacaria” do que “Text1”, por exemplo.
Se você precisar criar novas caixas de texto, a passagem automática de uma para outra pode ser ligada/desligada no “Link Text Frames”.
Todos os ajustes de texto são encontrados na caixa de diálogo “Text”, os de imagem na caixa “Image” e assim por diante.
Assim como os melhores programas de Desktop Publishing, o Scribus também tem estilos de parágrafo. Clique em “New” para criar os seus estilos. Depois, para aplicá-lo é só selecionar o texto e clicar em “Style” na caixa de texto.
Se quiser quebrar uma página antes do automático, é só arrastar a linha final para a quebra ou então inserir um “Frame Break” na posição certa.
Inserimos, então, um Image Frame e, com dois cliques em cima dele, importamos uma imagem. Neste caso, estou usando uma fotografia da tabacaria Seattle Rainier Cigar Co, de 1900, encontrada no Wikimedia Commons.
As imagens podem ser tratadas de várias maneiras. Uma das mais comuns é com o texto contornando os limites da imagem. Para isso, basta clicar em “Shape” e em “Text Flows Around Frame”.
Outra coisa importante de mostrar é que o Scribus trabalha com layers e podemos, por exemplo, inserir a imagem por baixo do texto.
Em “Document Setup”, em “Sections”, você pode manipular e adicionar seções do seu documento e, depois pode gerar um índice automático em “Page of Contents”. Funciona mais ou menos como o book do InDesign. É nesta caixa de diálogo também que você encontrará a exportação para PDF.
Inserir número de páginas também é bem similar ao programa da Adobe. Basta inseri-lo como um caracter especial dentro de um frame de texto.
Acredito que, com estes poucos dados, já seja possível fazer algo com o Scribus. Assim como qualquer software open source, este também muda um pouco a lógica das coisas para quem está acostumado a similares comerciais. É necessário um período de adaptação, mas acredito que a maioria das necessidades de diagramação sejam supridas por ele. Pode ser uma boa solução gratuita para você ou para a sua empresa, inclusive para impressos.
publicado em 27/08/09 no portal da revista Webdesign
obs: coloco a data aqui igual à de publicação mas sempre respeito o prazo de reprodução
Pensando fora da schemata
1 de Agosto de 2009
publicado na Revista Webdesign de agosto de 2009, ano 6, nº 68, ISSN 1806-0099.
obs: coloco a data aqui igual à de publicação mas sempre respeito o prazo de reprodução
Esse negócio de pensar diferente não tem nada de novo. De vez em quando a civilização cansa e resolve inovar. Os gregos inovaram quando resolveram fazer algo diferente dos egípcios; os romanos inovaram quando construíram seus templos; os cristãos inovaram quando criaram a arte bizantina; os renascentistas inovaram quando decidiram resgatar a grandiosidade da cultura Greco-romana; os franceses inovaram quando criaram o concreto armado… Enfim, exemplos não faltam. Inovação é fruto da necessidade e do desejo humanos e, acredite, quem vier depois de nós também será “moderno”.
Nas artes plásticas existe uma coisa muito, muito antiga, chamada schemata. E desde que o mundo é mundo, ou seja, desde que o mundo tem Michelangelo, que os artistas se esforçam para ultrapassar, para vencer a schemata, para superá-la.
Schemata quer dizer esquemas. Ou seja, todos aqueles tutoriais que você certamente já viu de onde colocar a orelha na cabeça ou quantas medidas-cabeça tem um corpo ou ainda como desenhar uma galinha a partir de uma oval. Em artes plásticas, consideramos como um “esquema” todo conjunto que fornece um guia para criação e/ou identificação de significados gráficos. Em psicologia este termo é bem mais abrangente e complexo, mas eu sou ilustradora e não psicóloga.
A schemata varia de acordo com a cultura e período da história.
Os famosos ícones bizantinos, por exemplo, tinham sempre figuras alongadas e biplanares, porque representavam o divino e era considerado heresia representá-lo em um suporte menor e inferior (humano). Dentre as três principais religiões monoteístas (cristianismo, judaísmo e islamismo), inclusive, o cristianismo é até hoje a única a representar o divino com figuras humanas. Isto é um esquema, um conjunto de “regras” aceitas pela cultura vigente no período como o padrão correto e, portanto, rapidamente reconhecido em seu significado.
Toda arquitetura gótica tem em seu ponto mais alto “pontas” porque é uma metáfora da alma: quanto mais próximo do céu (do divino), menos matéria (corpo) tem. Os esquemas são, antes de tudo, filosóficos.
Em ilustração, o primeiro livro de esquemas de que se tem conhecimento é de 1608 e é intitulado Il vero modo et ordine per dissegnar tutte le parti et membra del corpo humano (O verdadeiro modo e ordem para desenhar todas as partes e membros do corpo humano, em tradução livre). Foi publicado em Veneza e é de autoria de Odoardo Fialetti (pintor italiano, 1573-1638), com a colaboração de Giacomo Franco (gravurista italiano, 1550-1620). Como você pode notar, publicações do tipo “como desenhar pessoas (protozoários, paquidermes, casas ou árvores…)” não são exatamente novidade.
Assim como também não é novidade o conceito de moderno ou de ruptura.
Uma ruptura acontece quando conseguimos romper com o esquema, com a schemata.
Os renascentistas assim o fizeram e neste momento criaram técnicas usadas até hoje, o chiaroscuro e o sfumato. Eles introduziram volume onde antes as figuras eram quase planas. Outra ruptura famosa foi a dos cubistas, que mostravam na mesma figura vários planos diferentes, incluindo os ocultos pela perspectiva natural.
Podemos, sem errar muito, aplicar o mesmo conceito à internet. Não seria a web colaborativa uma ruptura com a “anterior”? Ou seja, não pensa diferente? Romper com o esquema é pensar diferente.
“Quando me sento para fazer um desenho da Natureza, a primeira coisa que faço é esquecer que alguma vez já tenha visto um quadro.” – John Constable (pintor inglês, 1776-1837).
Precisamos entender de tecnologia antes de nos tornarmos o próximo Steve Jobs. Precisamos entender de mecânica antes de nos tornarmos o próximo Henry Ford. Precisamos estudar arquitetura antes de nos tornamos o próximo Oscar Niemeyer. Precisamos conhecer o esquema para poder superá-lo.
Falar em inovação nas artes hoje em dia, em um tempo em que somos pós-tudo, até mesmo pós-modernos, chega a ser engraçado mas é real. Faça exercícios consigo mesmo: troque de técnica ou de tema; permita-se experimentar, brincar, divertir-se.
E lembre-se que você já tem uma natureza inovadora: a arte em 3D é absolutamente inovadora, vetores rompem com tudo que conhecíamos antes, pixel art é uma renovação do mosaico mas com uma filosofia completamente diferente e até mesmo a criação de ícones para web é algo que a história da arte não conhecia antes.
Links:
http://www.nlm.nih.gov/dreamanatomy/
http://openlibrary.org/a/OL1778599A/Odoardo-Fialetti
http://pt.wikipedia.org/wiki/Chiaroscuro
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sfumato
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cubismo
http://www.artcyclopedia.com/artists/constable_john.html
http://www.metmuseum.org/toah/hi/hi_francgia.htm
http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Madonna_bizantina_Rico_de_Candia.jpg
Pintura digital com Artweaver
15 de Julho de 2009
publicado no portal da Revista Webdesign em 15 de julho de 2009
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Pintura digital com Artweaver
Talvez uma das coisas que os artistas mais gostem nos programas digitais de pintura seja o undo. Quando a gente está lá com um pincel real na mão e comete alguma besteira, o CTRL-Z faz uma enorme falta.
A pintura digital é uma técnica como qualquer outra (óleo, aquarela, digital etc). É bastante claro, creio, para todos que cada técnica tem sua aplicação, mas o que talvez não seja tão óbvio é que algumas se prestam melhor à experimentação do que outras. E aí, quando falamos de experimentação, poucas ganham da digital.
O sketch (rascunho) nos ajuda a formular o pensamento, nos ensina a olhar e pensar grafica/visualmente. A pintura digital, além de um ótimo instrumento de sketch, é também uma ótima oportunidade de experimentação técnica. A possibilidade de testar a sua ideia em aquarela, óleo, carvão etc., antes de finalizá-la (não importa se digitalmente ou não), é valiosíssima: tanto em termos de produtividade quanto de raciocínio e aprendizado. Depois você pode escolher finalizar a sua obra no mesmo programa de pintura digital ou, depois de “resolvida”, levá-la ao mundo analógico.
Isso sem esquecer, claro, das já conhecidas vantagens de velocidade e limpeza: não precisamos esperar a tinta a óleo secar e o ambiente não fica fedendo a aguarrás por dias a fio. É importante ressaltar, entretanto, que o seu trabalho vai se enriquecer muito se você conhecer o material com que está trabalhando. Os melhores resultados serão extraídos destas ferramentas digitais justamente por quem conhece o material real, físico.
Existem muitos programas de pintura digital. O mais conhecido é o Corel Painter®, mas a minha coluna aqui no site da Webdesign sempre mostrará soluções gratuitas. Destas, a que mais gosto é o Artweaver, um programa gratuito de pintura alemão. Existem vários outros também muito bons, como o ArtRage e até mesmo o Gimp que, apesar de ser mais de edição do que de pintura, também se presta a esta atividade. O ArtRage é muito similar ao Artweaver e do Gimp tratarei em futuros artigos.
O Artweaver também possui algumas ferramentas básicas de edição, mas o seu foco principal é, sem dúvida alguma, a pintura digital. Ele fornece algumas funções básicas de manipulação de camadas (layers) similares aos seus concorrentes comerciais, tais como: efeitos de camadas como drop shadow, transparência e todas as formas de sobreposição normalmente oferecidas (normal, darken, multiply, lighten, screen, difference, exclusion, color burn, linear burn, color dodge, hard light, soft light, color, hue, saturation, luminosity e average).
Ele tem também histórico, ajustes como o prático auto levels e toda uma variedade de funções básicas que você espera de um software minimamente eficaz. Não irei listar todas aqui, mas é importante você saber que a maioria das funções mais comuns está presente.
Assim como muitas outras soluções gratuitas, o Artweaver também tem problemas com CMYK. E, ao contrário do Gimp, ainda não existe sequer um plugin para melhorar isso. A partir da versão 0.5.7, incluíram a paleta CMYK no seletor de cores, porém não tenho certeza se podemos considerar isto um sinal de que irão implementar suporte a CMYK. Da parte de arquivos, ele é bem versátil e não abre apenas arquivos “.PSD” como também salva para este – e vários outros – formatos, inclusive “.PDF”.
Aproveitando que este artigo é para a Webdesign on-line, vou fazer uso de vídeo, algo impossível na revista impressa. É importante ressaltar que o vídeo se propõe a ser uma demonstração do programa e não de arte, técnica ou estética. Então, vejamos o programa em ação:
Este vídeo foi feito usando o CamStudio e a trilha sonora é a música Sonnet 116, de Maggie Doucet, encontrada no site Podsafe Audio, especializado em conteúdo com licenças livres.
Deixei o melhor para o final. Sabe aquela sua coleção de brushes fantásticas que você levou anos selecionando? O Artweaver importa “.ABR”:
E, então, o que você está esperando? Download e mãos ao tablet!
Coleções de brushes .ABR:
http://www.brusheezy.com/,
http://myphotoshopbrushes.com/,
http://www.psbrushes.net/,
http://getbrushes.com/.
Rascunhos
1 de Junho de 2009
publicado na Revista Webdesign de junho de 2009, ano 6, nº 66, ISSN 1806-0099.
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O desenho inacabado existe desde que o mundo é humano e as cavernas habitadas, mas o sketch como forma representativa dotada de algum valor – e não mais como apenas uma etapa descartável de um outro produto, como a pintura ou a escultura – só começou a existir no início da Renascença, durante o Quattrocento.
Até a Idade Média o artista era considerado não como um autor mas como um artesão servil ou, no melhor dos casos, como um canal entre o divino e a matéria, que por sua vez representava este divino. Era extremamente comum, por exemplo, o artista não assinar suas obras.
A idéia do gênio nasce junto com a propriedade intelectual, bem como o desejo pela originalidade e a individualidade do artista.
Gênio era aquele capaz de transformar um conceito (etéreo) em algo realizado com sucesso (matéria).
O conceito da arte como tradução entre mundos considerados distintos, o plano da alma e o plano do palpável, acompanhou a humanidade até bem recentemente quando, em meados do século XIX, surgiu o conceito de ars gratia artis (a arte pela arte) ou seja, uma arte autônoma e que pode ser apreciada por seu prazer estético puramente e não mais apenas e/ou necessariamente por seu valor representativo ou de tradução entre a idéia e a matéria.
A relação com o sagrado continuou na Renascença, tanto que Michelangelo acreditava que a criatividade era uma inspiração divina. O que mudou foi a noção do papel do artista. Ainda que inspirado pelo(s) deus(es), o artista passa a ser um intérprete único e seu dom é entendido como determinante para que a obra evolua daquela determinada forma. Ou seja, nasce o conceito de traço.
O passo mais importante na distinção entre os gênios foi a noção da realização, aquilo que une o desejo ou a idéia e o sucesso em criar aquilo imaginado. Esta capacidade é o que os torna únicos e, portanto, autores de suas obras.
É natural compreender, portanto, que o rascunho ou o sketch – então chamado de bozzetto – assuma um papel fundamental pois é ele que comprova esta ligação entre a idéia e o ato realizado. Tornaram-se registros inquestionáveis do processo artístico e eram considerados e apreciados como uma forma única de arte, mesmo sabendo-se inacabada, porque demonstravam o subjetivo, o plano das idéias dos gênios.
Observar um sketch de um destes gênios era o mesmo que abrir uma janela para os seus processos criativos.
Isto não significa que antes do Renascimento não faziam sketches, significa apenas que, por não serem apreciados, não foram conservados.
Os desenhos mais famosos deste período (na verdade um século depois, já no Cinquecento) são sem dúvida alguma os de Leonardo Da Vinci (1452-1519). Prometo que resistirei à tentação de escrever mais uma das incontáveis odes à genialidade e versatilidade de Leonardo, já que seus fãs e estudiosos são em maior número e competência e que as referências podem ser facilmente encontradas online.
Algo que talvez não seja tão conhecimento comum assim é que Leonardo jamais saía de casa sem o seu sketchbook.
Hoje, 500 anos depois, o sketch é uma forma de arte reconhecida, independente se parte de um processo ainda inacabado ou como resultado final do traço pretendido. Existem inclusive bons workshops e até mesmo eventos mundiais organizados em torno do sketch, como o Sketchcrawl.
Você não precisa de material caro ou nada complicado para começar. Bastam poucas folhas de papel sem pauta e algo que escreva (lápis, caneta, tinta e pincel, tanto faz). O desenho de observação mais rápido, como de alguém passando na rua, precisa de um pouco mais de prática mas você pode começar com modelos mais pacientes. As estátuas, por exemplo. Se até o Leonardo desenhou o David, de Michelangelo, você também pode.
Apenas dê preferência a estátuas do que a fotografias de estátuas. É impossível dar a volta na fotografia para observar melhor um detalhe.
Outros bons e pacientes modelos são árvores, que apesar de esperarem você terminar o desenho com bastante calma, têm formas orgânicas e complexas e podem resultar em desenhos ricos e interessantes. E, claro, quando você estiver um pouco mais afiado, transforme o tempo perdido na condução em tempo ganho de desenho ou então aquele almoço solitário em uma boa oportunidade artística.
Leonardo da Vinci terminou 12 pinturas e milhares de desenhos. Esta informação, por si só, já deveria ser suficiente para explicar seu processo criativo. Os rascunhos – tanto os gráficos quanto os escritos – são a origem do pensamento e da criação. Ninguém projeta alguma coisa sem desenhá-la antes. O desenho é o princípio, a idéia, o conceito, é a “alma” da criação gráfica. As técnicas evoluem mas um bom desenho será sempre um bom desenho.
Os gregos consideravam como “clássico” tudo aquilo digno de ser copiado. Leonardo é um clássico. Pegue logo o seu sketchbook e comece a desenhar por aí! Está esperando o quê?
Bibliografia:
ZÖLLNER, Frank; Leonardo; Editora Taschen; 2000.
STRICKLAND, Carol; Arte Comentada: da Pré-História ao Pós-Moderno; Editora Ediouro; 1999.
HAUSER, Arnold. História Social da Literatura e da Arte; Mestre Jou, 1982.
OSTROWER, Fayga. Universos da Arte; Campus, 1991.
OSTROWER, Fayga. A sensibilidade do intelecto: visões paralelas de espaço e tempo na arte e na ciência; Campus, 1998.
GOMBRICH, Ernest; The Renaissance: theory of art and the rise of landscape; Phaidon, 1966.
GOMBRICH, Ernest; Arte e ilusão: um estudo da psicologia da representação pictórica; Martins Fontes, 1986.
Indo além do banco de imagens
20 de Abril de 2009
publicado na Revista Webdesign online em 20/04/2009
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Mais novidades para o site da Webdesign! Neste mês, iniciamos a publicação de artigos on-line, com o intuito de proporcionar conteúdo complementar aos assuntos abordados ao longo das edições impressas da revista, além de estimular a troca de conhecimentos entre os profissionais de nossa comunidade.
Na estreia deste novo espaço, convidamos a designer e ilustradora Carolina Vigna-Marú para apresentar um passo a passo sobre alternativas no uso de imagens a serem aplicadas em um projeto. Desejamos uma boa leitura e deixem seus comentários por aqui!
Indo além do banco de imagens
Muitas vezes, o designer precisa criar uma ilustração, um ícone ou algum outro tipo de comunicação gráfica. A questão é que nem todo designer é ilustrador e frequentemente é preciso recorrer a stock images.
Stock (de estoque mesmo) são imagens genéricas. Antigamente as chamávamos de imagens de arquivo. A ideia é pagar pelo direito de reprodução ou licenciamento daquela imagem, porém não por sua exclusividade. Os preços costumam ser baixos, mas por outro lado são imagens que encontramos em qualquer lugar, sem nenhuma personalização.
Uma saída é recorrer aos bancos de imagem gratuitos ou licenças Creative Commons, mas o problema do “lugar comum” é ainda mais evidente. Uma boa dica para contornar esta situação seja usar, como ponto de partida, uma imagem gratuita, como as encontradas na Wikicommons, e transformá-la em uma ilustração criativa.
Neste post, vamos fazer um passo a passo de um exemplo deste processo, usando apenas ferramentas gratuitas:
Passo 1: escolher uma boa imagem

A imagem precisa ser expressiva e o mais limpa possível, com pouco fundo e com um bom tamanho, para facilitar a vetorização. Certifique-se que a licença da imagem permite o uso derivado, ou seja, que você transforme a imagem original em outra. A oferta é grande e respeitar o trabalho dos outros significa ter o seu respeitado também. Site de pesquisa da imagem: Wikicommons.
Passo 2: vetorizar
Vamos utilizar uma ferramenta on-line para vetorizar a imagem escolhida anteriormente.
Passo 3: editar
Agora, é a hora de ser criativo! Uma dica: observe sempre se o seu layout precisa de algum tamanho específico. Começar o trabalho de edição já na proporção necessária adianta muito tempo e poupa dor de cabeça depois.
Lembre-se sempre de dar crédito da imagem original. O bom do Inkscape é que ele já exporta a imagem “.png” com fundo transparente.
O crédito não diminui em nada o seu trabalho, muito pelo contrário: mostra a todos que você é profissional, criativo e ético.
Viu como é simples gerar imagens personalizadas, que garantam um diferencial para você ou seu cliente? Então, o que está esperando? Não esqueça de colocar um link para o trabalho criado aqui nos comentários!
Revista Webdesign #64
1 de Abril de 2009
Para garantir uma boa apresentação, vou listar algumas questões que considero fundamentais de serem abordadas:
– Resumo: pode parecer óbvio, mas é bom colocar do que se trata. Desta forma, você pode usar esta apresentação também como um documento, onde o cliente está ciente do que foi pedido e acordado para este job.
– Briefing: no mesmo espírito do resumo, é prudente reproduzir o que foi conversado. Serve como um lembrete ao cliente e um guia para o designer.
– Problemas detectados: problemas no posicionamento do cliente, no job, no briefing ou até mesmo no orçamento disponível (não necessariamente o nosso, pode ser uma gráfica mal orçada, por exemplo). O nosso trabalho é tornar a comunicação do cliente o mais eficiente possível, não ficar dourando a pílula.
– Respostas: o que é possível resolver, mesmo que em um segundo momento. Ao apontarmos caminhos para o cliente, nos tornamos parceiros dele.
– Layout: os elementos do design variam muito. Em um trabalho impresso, a descrição da tipografia é fundamental, enquanto um site normalmente conta com quatro a cinco fontes diferentes que serão renderizadas de acordo com o navegador, por exemplo.
– Justificativas: nunca é demais explicar as nossas opções, assim como qualquer questão técnica (opção de impressão em 1/0 para caber no orçamento, por exemplo).
– Variações: variações previstas, como estudos de aplicação de uma identidade visual ou visualização de um site em palmtop.
– Principais erros: o designer não pode desrespeitar o seu cliente e nem ensiná-lo a fazer o trabalho dele. Outro crime grave é não fornecer todas as informações necessárias.
parte integrante de matéria sobre layouts, publicada na Revista Webdesign de abril de 2009, ano 6, nº 64, ISSN 1806-0099, editora Arteccom.
obs: eu coloco a data aqui no site igual à de publicação mas eu sempre respeito o prazo de reprodução da revista
Webdesign nº 54 – Networking
2 de Junho de 2008
tutorial de ilustração vetorial
7 de Novembro de 2007
Revista Webdesign, novembro de 2007, ano 4, número 47, www.revistawebdesign.com.br
página 11, seção Post-it, “Referências sobre ilustração vetorial” – pequeno parágrafo com dicas minhas sobre o assunto.
páginas 34, 35, 36 e 37 – artigo “Passo a Passo – Criando uma ilustração vetorial”
Como se preparar para escolher um gerenciador de conteúdo
1 de Setembro de 2006
Revista Webdesign
edição de setembro de 2006
Matéria sobre CMS (gerenciadores de conteúdo)
A Revista Webdesign é a única publicação impressa brasileira sobre design para web.
Matéria publicada na Revista Webdesign número 33, de setembro de 2006, sobre gerenciadores de conteúdo
obs: coloco a data aqui igual à de publicação mas sempre respeito o prazo de reprodução
Na edição de dezembro de 2005, quando abordamos quais conceitos e tecnologias continuaram em alta e quais caíram em desuso, o professor Carlos Bahiana, da PUC-Rio, anunciava que a popularização dos gerenciadores de conteúdo web (CMS – Content Management System) traria uma diminuição na produção de sites feitos de “maneira artesanal, página a página, com alimentação feita por FTP e necessidade de alterar dezenas de arquivos HTML a cada atualização de design”.
Quando analisamos os sistemas disponíveis no mercado, sejam eles comerciais ou de código-fonte aberto, a quantidade de novos sites ou que foram remodelados a partir da inclusão de um gerenciador e a opinião de especialistas neste mercado, o tiro de Bahiana parece ter sido certeiro.
“A era dos sites sem gerenciadores de conteúdo, de algum tipo, chegou ao fim. Cada vez menos veremos sites feitos ‘apenas’ em HTML, sem um sistema de retaguarda. Desde blogs até grandes sites de notícias, passando por sites institucionais de todos os tamanhos. Pode-se comparar esta transição ao começo da era industrial. Sites são produtos que saem do processo artesanal e se tornam cada vez mais industriais, sem perda de qualidade, é claro”, afirma Érico Andrei, diretor de Tecnologia e Parcerias da Simples Consultoria (www.simplesconsultoria.com.br).
O que avaliar na hora da escolha
Assim, na hora de definir que tipo de gerenciador será utilizado em seu projeto web, alguns fatores devem ser avaliados. “Acredito que os principais passam pela adequação às necessidades do projeto e, se for o caso, a compatibilidade com o sistema que já é utilizado (se é em PHP, ASP ou outra linguagem, por exemplo). Não é inteligente ter um CMS capaz de gerenciar um portal se você vai publicar um blog, e vice-versa”, afirma Walmar Andrade, gerente de criação da SX Brasil Comunicação Digital (www.sxbrasil.com.br).
Além disso, flexibilidade para adaptação da interface, segurança e facilidade no uso são outros aspectos a serem levados em conta. “Analise se a ferramenta se encaixa em seus recursos e necessidades de layout e de estrutura de conteúdo. Segurança é um fator que cresce muito com o porte da empresa. Muitas ferramentas bem conhecidas foram tachadas de inseguras e prejudicadas com isso”, explica Guilherme Capilé, diretor de operações da Tecnodesign (www.tcdesign.com.br). “É importante avaliar a facilidade de uso, principalmente para os produtores de conteúdo (que manterão o site) e também para os outros profissionais envolvidos (arte e tecnologia). Não adianta escolher um CMS que não se encaixe no perfil de sua equipe”, argumenta Érico.
Perfil do site influi na escolha?
Definitivamente, a resposta parece ser sim. Ainda mais quando pensamos nas novas tecnologias que apontam para a tendência do desenvolvimento de sites cada vez mais dinâmicos.
“Quanto mais dinamismo se quer em um website, maior é a necessidade de se automatizar a forma que as informações devem estar disponíveis. Estes são os principais candidatos a gerenciadores de conteúdo. Se um website não vai ter nenhuma alteração durante meses, o investimento pode não valer a pena. Além disso, muitas vezes se imagina que um website com um layout muito sofisticado não se encaixe no perfil para gerenciadores de conteúdo. Isso vale se você estiver olhando para as ferramentas que são mal-projetadas e limitam a flexibilidade do website”, diz Capilé.
Além desses perfis, a designer e ilustradora Carolina VignaMarú (www.vignamaru.com.br) acrescenta nesta lista os sites que vão apresentar massa crítica de conteúdo e aqueles em que o cliente quer uma certa independência. “Quando o seu site é muito grande, por mais que use a dupla dinâmica CSS e PHP, você pode ter muitas dores de cabeça na hora de fazer um grande redesign. Com um CMS, a coisa fica muito mais simples, o que significa também mais rapidez e, portanto, menos custo”.
Vantagens e desvantagens no uso de um gerenciador
Assim como toda tecnologia, é preciso estar consciente que os sistemas de gerenciamento de conteúdo vão apresentar diversas facilidades ou determinar alguns obstáculos na administração de projetos web.
Sobre as vantagens, o fato de o conteúdo ficar dissociado da estrutura parece ser a principal delas. “Na fase de produção, essa separação facilita muito o andamento dos processos. Para os designers possibilita, por exemplo, criar templates que servirão de modelos para cada seção, acabando com o trabalho de produzir dezenas de páginas”, aponta Christian Laurito, diretor de criação da E4W Solutions (www.e4w.com.br).
Outra vantagem, segundo Christian, é que assim que a arquitetura de informação estiver definida dentro do gerenciador, os webwriters podem começar a incluir o conteúdo do site, antes mesmo de o design estar pronto. “Na fase de manutenção, os benefícios são evidentes. Podemos citar, por exemplo, a possibilidade de atualizações remotas no caso dos publicadores web. Sabemos também que, em alguns projetos, o mesmo texto pode aparecer em lugares diferentes do site. Nestes casos, se ele for alterado através da ferramenta, todas as matérias são atualizadas automaticamente, podendo inclusive apresentar visuais diferentes”.
Mas, se por um lado a independência oferecida pelos gerenciadores na hora de se administrar o conteúdo de um site seja apontada como uma grande vantagem em seu uso, de outro ele se torna um desafio para garantir o controle de qualidade do projeto. “O conteúdo, incluindo normas ortográficas, fica por conta dos colaboradores. O mesmo vale para as imagens publicadas. Nestes casos, a estética do site passa a depender também do bom gosto dos profissionais que as publicam. E nós, designers, sabemos que são necessários um mínimo de sensibilidade e conhecimento para selecionar e preparar boas fotos antes de publicá-las, por exemplo”, ressalta Christian.
Em termos da identidade visual, os especialistas consultados nesta reportagem foram unânimes em afirmar que os gerenciadores de conteúdo não prejudicam a qualidade estética de um site. “Os CMS são extremamente versáteis. É claro que restrições existem, mas vamos encontrá-las em qualquer téc. nica, linguagem e ambiente. É função do designer saber lidar com elas e contorná-las”, afirma Carolina . “Se o gerenciador não tem uma flexibilidade para se adaptar ao design projetado, não deve ser escolhido. O CMS deve se adequar ao projeto, e não o contrário”, finaliza Walmar.
Opções disponíveis no mercado
“Para blogs, indicaria de olhos fechados o WordPress (www.wordpress.org), que tem uma flexibilidade tremenda e, por ser de código aberto, possui centenas de plugins e está sendo sempre aprimorado. Foi feito para gerenciar blogs, mas pode sem problemas ser usado em sites. Quem estiver a procura de gerenciadores para projetos menores, uma boa alternativa é visitar o OpenSourceCMS (www.opensourcecms.com), que permite testar gratuitamente, sem instalar nada, gerenciadores como Joomla, Mambo, Drupal e dezenas de outros.” (Walmar Andrade)
“No momento, as sugestões passam pelo Plone (www.plone.org) opção escolhida pelo governo federal e diversas organizações como IDG, Larousse, OAB-SP e Universidade Metodista), o WordPress e o MediaWiki (www.mediawiki.org).” (Érico Andrei)
“Sou fã do Mambo (www.mamboportal.com). É poderosíssimo e tem uma interface gostosa, fácil de usar e simples de aprender.” (Carolina Vigna-Marú)
“O Pindorama (http://pindorama.sf.net), ferramenta de código-fonte aberto, foi projetado tendo em vista a flexibilidade total para o website (layout e conteúdo) e segurança (como gera arquivos estáticos no website, pode não oferecer risco algum ao cliente).” (Guilherme Capilé)
“Vou citar três opções nas quais a E4W tem experiência: Publique (www.publique.com.br), Calandra (www.calandra.com.br) e Vignette (www.vignette.com).” (Christian Laurito)






















































