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publicado em 1 de março de 2010 no Aguarrás,
ISSN 1980-7767, ano 5, número 24, março & abril de 2010

Recebi para análise três livros de Arlindo Gonçalves, Desonrados e outros contos, Desacelerada mecânica cotidiana e o Carinhas(os) Urbanas(os). Este último, escrito e fotografado a quatro mãos com Luciana Fátima. Preciso confessar que tinha firme intenção de escrever três resenhas separadas, uma para cada livro. Depois de ler os livros, percebo que esta tarefa tornou-se impossível para mim.

Os contos, assim como as fotos, possuem uma estrutura narrativa interessantíssima, de reflexo. Um conto é complementar e reflexo do outro, todos os personagens se entrelaçam, todas as estórias se tocam e todos os livros tocam profundamente o leitor.

São muitos níveis diferentes de espelhamento. Começa, claro, com o Eu da estória sendo contada. Não existe um narrador, existem muitos e nenhum ao mesmo tempo. O narrador é o personagem, o autor e o leitor simultaneamente. Depois, as estórias em si, incluindo seus cenários e personagens, que parecem ser a prova viva de que a teoria das cordas é muito mais palpável do que supõe a Física. O autor brinca com os muitos níveis da cidade de São Paulo, cenário escolhido para os livros. Poderia ser qualquer centro urbano e continuaria funcionando igual. São realidades absolutamente distantes, paralelas, tangentes e próximas ao mesmo tempo. Sim, eu sei que isso não faz qualquer sentido. Leia os livros, fará. O ponto de vista do observador destes muitos mundos é também parte dele e, ao mudar o Eu narrativo, o autor insere o leitor em uma observação ativa, como parte integrante deste cenário multidimensional. E, o último e mais importante espelhamento, é a humanização destes diferentes mundos. Não há qualquer julgamento de valor, não existe uma única moral adotada. Para cada ponto de vista, ou seja, para cada Eu narrador, o autor adota a escala de valores daquele personagem e com isso tece um conjunto – que ultrapassa os limites físicos de um único livro – cromático heterogêneo, rico e por isso mesmo interessantíssimo.

E tem as fotos. As fotos repetem o mesmo diálogo. São rostos olhando para você e você para os rostos. Há uma generosidade de olhar e de se permitir ser olhado que é incomum, tanto para fotógrafos quanto para escritores. As duas profissões, por natureza, são voyeurs, gostam de observar mas preferem manter-se fora do olhar do outro. Estes autores abraçam e acolhem o olhar que volta.

É necessário um olhar maduro para perceber o Outro e enxergá-lo como similar e humano. Não existem grandes diferenças entre você, um marciano, uma prostituta portadora de HIV, um comerciante ou um autor de livros. Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves não apenas sabem disso como aceitam o espelho. E isso é mais do que generoso, é lindo.

A grande dificuldade na fotografia não é técnica, é de discurso. É claro que existem questões de controle da luz, profundidade de campo, etc. O discurso é mais importante. De nada adianta você ter um microfone se não tem nada a dizer. Luciana Fátima tem muito a dizer. E fala junto com outro brilhante orador, Arlindo Gonçalves.

“Há poesia em fachadas de prédios históricos. Ornatos, capitéis, pedestais, cornijas, molduras, abóbadas, cúpulas, motivos vegetais, rostos de pessoas ou de criaturas – ora doces, ora sisudas.

(…) Para quem observa as construções mais detalhadamente, não passa despercebido um certo sentimento carinhoso que partia do responsável pelo projeto para com a cidade. Mesmo as feições mais rabugentas tinham por objetivo afugentar os seres indesejáveis.

Estão lá, resistindo ao descaso, ao vandalismo; verdadeiras gentilezas urbanas que os mestres das fachadas nos legaram.”

Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves, vocês estão errados. A delicadeza, a generosidade, a poesia e a beleza pertencem a vocês.



Carinha(os) Urbanas(os) – Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves – Editora Horizonte

Desonrados e outros contos – Arlindo Gonçalves – Editora Marco Zero

Desacelerada mecânica cotidiana – Arlindo Gonçalves – Editora Horizonte

praia de Copacabana © Carolina Vigna-Marú Ladeira dos Tabajaras © Carolina Vigna-Marú Pão de Açúcar © Carolina Vigna-Marú

Na década de 30 (e por reflexo, na de 40 também), o mundo estava de cabeça para baixo. Sangue para todo lado, Hitler, Segunda Guerra, crise de 1929, enfim, aquele bom e velho caos que todos conhecemos. Não por acaso as pin-ups surgem no país com maiores problemas financeiros naquele momento, os Estados Unidos. As pin-ups tentavam resgatar algum tipo de identidade a um povo massacrado, através da sexualidade e do humor. Naquele contexto já era uma objetificação, já era ruim. Hoje é apenas ridículo.

Existe uma corrente errr.. cof, cof filosófica de endeusamento da mulher que nada mais é que uma objetificação. Explico. Ao retirar aquele determinado grupo de indivíduos (mulher, gay, negro, astigmático, não importa) do ambiente humano, ou seja, ao desumanizar alguém, você o objetifica, mesmo quando sob o pretexto da divinização. Acontece que este tipo de ação, em pleno 2009, não apenas perdeu o sentido como perdeu também qualquer possibilidade de justificativa ou embasamento. Não é mais aceito fora do universo pornô assim tão facilmente.

Diz um amigo meu que as pin-ups não vão além do alcance da mão, referindo-se, justamente, às tentativas de parecer fazer mais do que esta mera objetificação de que falei anteriormente.

O cenário fotográfico geral da SP-Arte é que as pin-ups voltaram. E voltaram em preto e branco, em uma tentativa de posicionar o estilo em um tempo cronológico em que isso era possível, usando a técnica como uma bengala, como uma pseudo-justificativa artística. Além de ridículo fica datado.

Alguns se salvam.

Só na galeria Babel gostei de três:

hoepker iata gui mohallem

Thomas Hoepker com uma print de 1936. Hoepker foi historiador da arte e arqueólogo mas acabou sendo mais conhecido como repórter fotográfico. Hoepker sempre tem um olhar poético, tanto na composição quanto no assunto sem aquele distanciamento estereotipado que se espera de um arqueólogo alemão. É um fotógrafo sem clichês.

Iatã Cannabrava, com uma color de 2008 intitulada Capão. A figura dialoga dentro de si, com o quadro dentro do quadro e com o fruidor que entra no cenário e na biografia da imagem. Elvira imediatamente apontou a estrutura de Velásquez, onde uma parte da estória anterior permanece dentro da contada, como um roteiro que cria passados não-vistos das personagens.

E, ainda na Babel, gUi Mohallem, com o seu Ensaio para loucura, pinholes de 1979. Ele se/nos aproxima em camadas, em etapas, devagarzinho para ficar mais gostoso. A primeira é a própria técnica, que retira a lente entre o fotógrafo e o fotografado. Outra aproximação é a da interação, onde o visitante é convidado a usar carimbos. A idéia do carimbo é gostosa, funciona como uma lembrança. E mais uma, as pessoas fotografadas estão em movimento, são reais, fazem parte do seu-nosso cotidiano. Poderia ser você, daí a loucura, uma loucura não ensaiada mas de todos nós, você, eu, fotógrafo e fotografados. E aí tem os carimbos em si, que trazem textos íntimos dos fotografados. São seis, selecionei um: Eu sou tão normal, tudo que eu faço é normal, eu penso tanto antes de fazer as coisas… mesmo quando eu me drogo ou trepo com um desconhecido é muito normal, sabe, dentro dos limites da normalidade.

Fernando Arias Fernando Arias

A galeria Eduardo H Fernandes mostra o Tríptico umbilical do colombiano Fernando Arias. É um mesmo homem, nu, em posição fetal, visto em três planos diferentes e sim, são três fotos. Fazem parte de uma exposição intitulada Humanos Derechos, uma antiga bandeira do artista.

Miguel Rio Branco

Na Silvia Cintra encontrei um tríptico de Miguel Rio Branco, de quem eu sempre gosto. Ele retrata a tragédia urbana e cotidiana sem recorrer a excessos de texturas ou outros modismos.

Helena Almeida

A galeria Mário Sequeira trouxe duas fotos de Helena Almeida que brincam com o tempo e com a seqüência narrativa. Estão em um corredor e portanto você pode vê-las sem uma intenção de ordem, de sentido. As fotos são da mesma cena em dois momentos e em um destes o retratado olha para você. É sempre bom encontrar novas linguagens em velhas técnicas.

Vaqueiros, de Andreas Heiniger Vaqueiros, de Andreas Heiniger

A Amarelonegro Bei mostra Vaqueiros, de Andreas Heiniger. Vaqueiros merece um duplo elogio. Obviamente pela qualidade fotográfica e narrativa mas também pela montagem. A Amarelonegro Bei colocou as fotos, portraits dos nossos peões, em colunas enviesadas em relação ao visitante, fazendo com que o olhar fosse imediatamente impactado pela força das pessoas retratadas mas ao mesmo tempo permitindo uma aproximação gentil.

Claudia Jaguaribe

Na H.A.P. encontrei outra sempre ótima, a Claudia Jaguaribe. Ela é artista plástica e historiadora da arte mas poderia perfeitamente ser designer também. As suas duas fotos fazem uma brincadeira cromática, em que ela pega o tom dominante/emocional da fotografia e o (re)aplica sobre a foto em uma faixa, uma foto se contrapondo à outra inclusive em termos de diagramação e com esta delicada interferência ela mostra (e educa) um olhar.

Odires Mlaszho

E na Vermelho, vi Odires Mlaszho, com seus seis portraits mixados entre estátuas/figuras notórias e fragmentos de pessoas, em um encaixe perfeito entre as duas imagens. Ao humanizar a estátua, mostrando o carne-e-osso, ele desumaniza a noção de realidade. Odires, aliás, não é nome próprio, é um acrônimo de Objetos Derivados Intrínsecos Restos Emulsionados ou Saqueados.

cafezinho

A SP-Arte sempre vale uma visita. Só fique longe do café, que além de custar inacreditáveis R$4,50 é ruim e veio frio. E ainda vem acompanhado do olhar de desprezo do atendente que está naquele fantástico lugar superior e é o guardião da única fonte de cafeína da feira. Na próxima eu levo uma garrafa térmica. Juro que levo.

 

ERRATA – Tatiane Lopes escreveu: Apenas uma correção: as fotos da exposição “Vaqueiros” é do estande da Bei Editora, no qual ele está lançando um livro.


publicado no Aguarrás em 15/05/2009
ISSN 1980-7767, ano 4 n° 19, maio & junho de 2009

Coloquei mais umas fotos lá na galeria de fotografias pouca luz do Lagartixa.

poucaluz

Olha lá.

Cena 1

Não basta aguentar a atendente do mini-lab sugerindo uma “camera digital baratinha minha senhora” toda vez que mando revelar meus filmes. Agora a Infraero também está pressionando para o fim da fotografia em filme.

Aeroporto de Cuiabá: eu com os rolos de filme na mão para passar por fora do raio-x, como fiz, aliás, em Guarulhos. “Não pode não senhora, a regra diz que tudo passa no raio-x.” Sim, mas este é um filme sensível, veja. E eu abro a caixinha, mostro a ISO do filme, explico. Não adianta. “Aqui não está escrito que é filme sensível minha senhora.” É ISO alta, é sensível. “Não está escrito minha senhora.” E assim ficamos durante uns minutos até que, vencida e acabada, volto ao check-in para despachar os perigosíssimos rolos de filme da Kodak como objetos retidos. Viajaram no cofre do avião, junto com aquela pistola automática e a granada de mão, claro. Para minha total surpresa e felicidade, chegaram em São Paulo intactos.


pantanal


Cena 2

Passeio de barco no Rio Cuiabá, próximo a Poconé. O pantaneiro piloto do barco, acostumado que só com aquelas águas e aqueles bichos, acha um jacaré. Sim, estávamos procurando jacarés. Eu estava sentada na popa do barco e o jacaré encostado na proa. Percebendo minha frustação de estar a mais de 5 cm do jacaré, o pantaneiro manobra o barco melhor que eu o mouse até encostar o jacaré pertinho da minha lente. Ele lá, desentocando e cutucando o jacaré com o barco para o bichano não mergulhar. A esta altura, claro, eu já tinha perdido qualquer respeito pela lagartixa gigante. Até que ouvi “braços para dentro do barco, você não imagina como esse bicho é rápido”. Ok, ok, respect man.


pantanal2

 

Cena 3

Os mosquitos no Pantanal dão aula de vôo na FAB e consideram repelente um tipo de tempero estranho.

Vi uma cena linda, enquadramento perfeito, mas precisava esperar alguns nanossegundos para que o barco entrasse em quadro. Foi o suficiente para quatro mosquitos pousarem no dedo parado em cima do disparador. Sim, eu disse quatro; sim, eu disse em um dedo.

Acabo de receber dois exemplares do livro O candomblé e o lúdico, de Maria Alice Rezende Gonçalves, publicado pela Quartet e pelo Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que conta com uma fotografia minha na capa. Mó orgulho.

 

Gonçalves, Maria Alice Rezende

O candomblé e o lúdico

Quartet : NEAB-UERJ, 2007.

ISBN 978-85-7812-002-3

Sempre achei meio estranho esse hábito das pessoas de colocarem os seus portfolios no portfolio, mas como esse site vai funcionar mais ou menos como o meu site pessoal, ou seja, um playground mutante, achei legal registrar as versões.

A primeira (setembro de 2008):

Lagartixa.org


A segunda (janeiro de 2009):

Lagartixa.org versão 2

Eles já foram citados duas vezes nos podcasts do Carreirasolo.org e são figuras fundamentais se você é do tipo que não curte muito o mundo burocrático e mundano das contas a pagar, a receber, contratos, etc e tal.

Falamos, claro, dos agentes. Comum no mundo das celebridades e artistas em geral, pouco se fala da atuação destes profisisonais no ambiente freelancer. Quem sabe é algo que o Carreirasolo.org virá a instituir?

Carolina Vigna-Marú, nossa colaboradora aqui e no Fala Freela, listou alugns, dedicamos ao mercado de ilustração, com suas respectivas avaliações. É lista mais do que valiosa!

Aquent

Pronto positivo: São grandes
Ponto Negativo: muitas vezes acabam sendo mais uma agência de empregos do que de representação
Link: http://www.aquent.com/

The July Group

Pronto positivo: são respeitadíssimos
Ponto Negativo: são fechados, não é muito fácil ser representado por eles (mas
eu acho que vale tentar!)
Link: http://www.thejulygroup.com/

Whirledvisions

Sem avaliação, foi apenas um link recebido
Link: http://www.whirledvisions.com/

DeFreece Group

Pronto positivo: tem fama de dar resultado rápido
Ponto Negativo: é mais de fotografia, nem sei se aceitam design
Link: http://defreece-group.com/

Ripcord graphics

Sem avaliação, foi apenas um link recebido
Link: http://www.ripcordgraphics.com/

Giant Artists

De todos, foi o que eu mais gostei. Mas acho legal você entrar em todos e, claro, dar uma googlada por “artist representation” e entrar em contato
Link: http://www.giantartists.com/

publicado no Carreira Solo