Quand je vous aimerai

 

Trabalho para a disciplina Expressão Artística e Comunicação Humana, 2o. período, Belas Artes (Artes Visuais, 2011.2).

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Carmen (opera)

Ária: L’amour est un oiseau rebelle

Georges Bizet (1838-1875)

Maestro: Seiji Ozawa

Orchestre National de France

Soprano: Jessye Norman

Este é um trabalho acadêmico, sem fins lucrativos.

Ahon

A pessoa que adquiriu conhecimento de uma língua interiorizou um sistema de regras que relaciona o som e o significado de um modo particular. O lingüista ao construir a gramática de uma língua está efetivamente propondo uma hipótese com relação a esse sistema interiorizado. A hipótese do lingüista, se for apresentada com suficiente explicitação e precisão, terá certas conseqüências empíricas referentes à forma das expressões orais e suas interpretações pelo locutor narrativo. Evidentemente, o conhecimento da língua – o sistema interiorizado de regras – é apenas um dos muitos fatores que determinam o modo como uma expressão oral será usada ou entendida em uma situação particular. O lingüista que se esforça por determinar o que constitui o conhecimento de uma língua – construir uma gramática correta – está estudando um fator fundamental iplicado na utilização da linguagem (performance), mas não o único. Esta idealização deve ser tida em mente quando se considera o problema da confirmação das gramáticas, tendo por base os dados empíricos. Não há razão para que não se deva também estudar a interação de muitos fatores envolvidos nos atos mentais complexos e subjacentes à utilização real, mas este estudo não tem probabilidade de ir muito longe a não ser que os fatores separados sejam por si mesmos muito bem compreendidos.” [CHOMSKY]

Tudo isso para contar para vocês que o Yorubá falado na Nigéria é o mesmo Yorubá falado na Bahia.

(sim, eu estou fazendo o meu trabalho de antropologia da Belas Artes)

CHOMSKY, Noam. Linguagem e pensamento. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1973.

O Testamento Literário de Mário de Andrade

“Não tenho a mínima reserva em afirmar que toda a minha obra representa uma dedicação feliz a problemas do meu tempo e minha terra. Ajudei coisas, maquinei coisas, fiz coisas, muitas coisas! E no entanto me sobra agora a sentença de que fiz muito pouco, porque todos os meus feitos derivaram duma ilusão vasta. E eu que sempre me pensei, me senti mesmo, sadiamente banhado de amor humano, chego no declínio da vida à convicção de que faltou humanidade em mim. Meu aristocracismo me puniu. Minhas intenções me enganaram.

Vítima do meu individualismo, procuro em vão nas minhas obras, e também nas de meus companheiros, uma paixão mais temporânea, uma dor mais viril da vida. Não tem. Tem mais é uma antiquada ausência de realidade em muitos de nós. Estou repisando o que já disse a um moço… E outra coisa senão o respeito que tenho pelo destino dos mais novos se fazendo, não me levaria a essa confissão bastante cruel, de perceber em quase toda a minha obra a insuficiência do abstencionismo. Francos, dirigidos, muitos de nós demos às nossas obras uma caducidade de combate. Estava certo, em princípio. O engano é que nos pusemos combatendo lençois superficiais de fantasmas. Devíamos ter inundado a caducidade utilitária do nosso discurso, de maior angústia do tempo, de maior revolta contra a vida como está. Em vez: fomos quebrar vidros de janelas, discutir modas de passeio, ou cutucar os valores eternos, ou saciar nossa curiosidade na cultura. E se agora percorro a minha obra já numerosa e que representa uma vida trabalhada, não me vejo uma vez só pegar a máscara do tempo e esbofeteá-la como ela merece. Quando muito, fiz de longe umas caretas. Mas isto, a mim, não me satisfaz.

Não me imagino político de ação. Mas nós estamos vivendo uma idade política do homem, e a isso eu tinha que servir. Mas em síntese, eu só me percebo, feito um Amador Bueno qualquer, falando “não quero” e me isentando da atualidade por detrás das portas contemplativas de um convento. Também não me desejaria escrevendo páginas explosivas, brigando a pau por ideologias e ganhando os louros fáceis de um xilindró. Tudo isso não sou eu nem é pra mim. Mas estou convencido de que deveríamos ter nos transformado de especulativos em especuladores. Há sempre jeito de escorregar num ângulo de visão, numa escolha de valores, no embaçado duma lágrima que avolumem ainda mais o insuportável das condições atuais do mundo. Não. Viramos abstencionistas abstêmio e transcendentes. Mas por isso mesmo que fui sinceríssimo, que desejei ser fecundo e joguei lealmente com todas as minhas cartas à vista, alcanço agora esta consciência de que fomos bastante inatuais. Vaidade, tudo vaidade…

Tudo o que fizemos… Tudo o que eu fiz foi especialmente uma cilada da minha felicidade pessoal e da festa em que vivemos. É aliás o que, com decepção açucarada, explica historicamente. Nós éramos os filhos de uma civilização que se acabou, e é sabido que o cultivo delirante do prazer individual represa as forças dos homens sempre que uma idade morre. E já mostrei que o movimento modernista foi destruidor. Muitos porém ultrapassamos essa fase destruidora, não nos deixamos ficar no seu espírito e igualamos nosso passo, embora um bocado turtuveante, ao das gerações mais novas. Mas apesar das sinceras inteções boas que dirigiram a minha obra e a deformaram muito, na verdade, será que não terei passeado apenas, me iludindo de existir?… É certo que eu me sentia responsabilizado pelas fraquezas e as desgraças dos homens. É certo que pretendi regar a minha obra de orvalhos mais generosos, suja-la nas impurezas da dor, sair do limbo “ne trista ne lieta” da minha felicidade pessoal. Mas pelo próprio exercício da felicidade, mas pela própria altivez sensualíssima do individualismo, não me era possível renegá-los como um erro, embora eu chegue um pouco tarde à convicção de sua mesquinhez.

A única observação que pode trazer alguma complacência para o que eu fui, é que eu estava enganado. Julgava sinceramente cuidar mais da vida que de mim. Deformei, ninguém não imagina o quanto, a minha obra – o que não quer dizer que se não fizesse isso, ela seria melhor… Abandonei, traição consciente, a ficção, em favor de um homem-de-estudo que fundamentalmente não sou. Mas é que eu decidira impregnar tudo quanto fazia de um valor utilitário, um valor prático de vida, que fosse alguma coisa mais terrestre que ficção, prazer estético, beleza divina.

Mas eis que chego a este paradoxo irrespirável: Tendo deformado toda a minha obra por um anti-individualismo dirigido e voluntarioso, toda a minha obra não é mais que um hiperindividualismo implacável! E é melancólico chegar assim no crepúsculo, sem contar com a solidariedade de si mesmo. Eu não posso estar satisfeito de mim. O meu passado não é mais meu companheiro. Eu desconfio do meu passado.

Mudar? Acrescentar? Mas como esquecer que estou na rampa dos cinquenta anos e que os meus gestos agora já são todos… memórias musculares?… Ex omnibus bonis quae homini tribuit natura, nullum melius esse tempestiva morte… O terrível é que talvez ainda nos seja mais acertada a discreção, a virarmos por aí cacoeteiros de atualidade, macaqueando as atuais aparências do mundo. Aparências que levarão o homem por certo a maior perfeição de sua vida. Me recuso a imaginar na inutilidade das tragédias contemporâneas. O Homo Imbecilis acabará entregando os pontos à grandeza do seu destino.

Eu creio que os modernistas da Semana de Arte Moderna não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição. O homem atravessa uma fase integralmente política da humanidade. Nunca jamais ele foi tão “momentâneo” como agora. Os abstencionismos e os valores eternos podem ficar para depois. E apesar da nossa atualidade, da nossa nacionalidade, da nossa universalidade, uma coisa não ajudamos verdadeiramente, duma coisa não participamos: o amelhoramento político-social do homem. E esta é a essência mesma da nossa idade.

Se de alguma coisa pode valer o meu desgosto, a insatisfação que eu me causo, que os outros não sentem assim na beira do caminho, espiando a multidão passar. Façam ou se recusem a fazer arte, ciências, ofícios. Mas não fiquem apenas nisto, espiões da vida, camuflados em técnicos da vida, espiando a multidão passar. Marchem com as multidões.

Aos espiões nunca foi necessária essa “liberdade” pela qual tanto se grita. Nos períodos de maior escravização do indivíduo, Grécia, Egito, artes e ciências não deixaram de florescer. Será que a liberdade é uma bobagem?… Será que o direito é uma bobagem?… A vida humana é que é alguma coisa a mais que as ciências, artes e profissões. E é nessa vida que a liberdade tem um sentido, e o direito dos homens. A liberdade não é um prêmio, é uma sanção. Que ha-de vir.”

- Mário de Andrade

 

publicar este texto aqui só foi possível graças
a generosidade e a gentileza do Alex Castro,
que o digitou e disponibilizou na internet.

originalidade

“Hoje em dia usamos mais – e ao mesmo tempo menos – a nossa capacidade mental que no passado. E não se trata precisamente do mesmo tipo de capacidade mental em ambos os casos. Por exemplo, utilizamos consideravelmente menos as nossas percepções sensoriais. Quando estava a escrever a primeira versão de Mithologiques, deparou-se-me um problema na aparência extremamente misterioso. Parece que havia uma determinada tribo que conseguia ver o planeta Vénus à luz do dia, coisa que para mim era impossível e inacreditável. Pus o problema a astrónomos profissionais; eles disseram-me que efectivamente nós não o conseguimos, mas que, atendendo à quantidade de luz emitida pelo planeta Vénus durante o dia, não é realmente inconcebível que algumas pessoas o possam detectar. Mais tarde consultei velhos tratados sobre navegação pertencentes à nossa própria civilização, e tudo indica que os marinheiros desse tempo eram perfeitamente capazes de ver o planeta à luz do dia. Provavelmente, também nós seríamos capazes de o ver se tivéssemos a vista treinada.

Passa-se precisamente o mesmo com os nossos conhecimentos acerca das plantas e dos animais. Os povos sem escrita têm um conhecimento espantosamente exacto do seu meio e de todos os seus recursos. Nós perdemos todas estas coisas, mas não as perdemos em troca de nada; estamos agora aptos a guiar um automóvel sem correr o risco de sermos esmagados a qualquer momento, e ao fim do dia podemos ligar o rádio ou o televisor. Isto implica um treino de capacidades mentais que os povos «primitivos» não possuem porque não precisam delas. Pressinto que, com o potencial que têm, poderiam ter modificado a qualidade das suas mentes, mas tal modificação não seria adequada ao tipo de vida que levam e ao tipo de relações que mantêm com a Natureza. Não se podem desenvolver imediatamente e ao mesmo tempo todas as capacidades mentais humanas. Apenas se pode usar um sector diminuto, e esse sector nunca e o mesmo, já que varia em função das culturas. E isto é tudo.

Provavelmente, uma das muitas conclusões que se podem extrair da investigação antropológica é que a mente humana, apesar das diferenças culturais entre as diversas fracções da Humanidade, é em toda a parte uma e a mesma coisa, com as mesmas capacidades. Creio que esta afirmação é aceite por todos.

Não julgo que as culturas tenham tentado, sistemática ou metodicamente, diferenciar-se umas das outras. A verdade é que durante centenas de milhares de anos a Humanidade não era numerosa na Terra e os pequenos grupos existentes viviam isolados, de modo que nada espanta que cada um tenha desenvolvido as suas próprias características, tornando-se diferentes uns dos outros. Mas isso não era uma finalidade sentida pelos grupos. Foi apenas o mero resultado das condições que prevaleceram durante um período bastante dilatado.

Chegados a este ponto, não queria que pensassem que isto é um perigo ou que estas diferenças deveriam ser eliminadas. Na realidade, as diferenças são extremamente fecundas. O progresso só se verificou a partir das diferenças. Actualmente, o desafio reside naquilo que poderíamos chamar a supercomunicação – ou seja a tendência para saber exactamente, num determinado ponto do mundo, o que se passa nas restantes partes do Globo. Para que uma cultura seja realmente ela mesma e esteja apta a produzir algo de original, a cultura e os seus membros têm de estar convencidos da sua originalidade e, em certa medida, mesmo da sua superioridade sobre os outros; é somente em condições de subcomunicação que ela pode produzir algo. Hoje em dia estamos ameaçados pela perspectiva de sermos apenas consumidores, indivíduos capazes de consumir seja o que for que venha de qualquer ponto do mundo e de qualquer cultura, mas desprovidos de qualquer grau de originalidade.”

LÉVI-STRAUSS, C., 1989, Mito e significado, Lisboa, Editorial Presença

A arte de escrever

Schopenhauer, Arthur. A arte de escrever. Tradução, organização, prefácio e notas de Pedro Süssekind. Porto Alegre: L&PM, 2009.

(os grifos são meus)

 

 

Sobre a erudição e os eruditos

§3.

Assim como as atividades de ler e aprender, quando em excesso, são prejudiciais ao pensamento próprio, as de escrever e ensinar em demasia também desacostumam os homens da clareza e profundidade do saber e da compreensão, uma vez que não lhes sobra tempo para obtê-los. Com isso, quando expõe alguma ideia, a pessoa precisa preencher com palavras e frases as lacunas de clareza em seu conhecimento. É isso, e não a aridez do assunto, que torna a maioria dos livros tão incrivelmente entediante. Pois, como podemos supor, um bom cozinheiro pode dar gosto até a uma velha sola de sapato; da mesma maneira, um bom escritor pode tornar interessante mesmo o assunto mais árido.

§4.

Para a imensa maioria dos eruditos, sua ciência é um meio e não um fim. Desse modo, nunca chegarão a realizar nada de grandioso, porque para tanto seria preciso que tivessem o saber como meta, e que todo o resto, mesmo sua própria existência, fosse apenas um meio. Pois tudo o que se realiza em função de outra coisa é feito apenas de maneira parcial, e a verdadeira excelência só pode ser alcançada, em obras de todos os gêneros, quando elas foram produzidas em função de si mesmas e não como meios para fins ulteriores. Da mesma maneira, só chegará a elaborar novas e grandes concepções fundamentais aquele que tenha suas próprias ideias como objetivo direto de seus estudos, sem se importar com as ideias dos outros. Entretanto os eruditos, em sua maioria, estudam exclusivamente com o objetivo de um dia poderem ensinar e escrever. Assim, sua cabeça é semelhante a um estômago e a um intestino dos quais a comida sai sem ser digerida. Justamente por isso, seu ensino e seus escritos têm pouca utilidade. Não é possível alimentar os outros com restos não digeridos, mas só com o leite que se formou a partir do próprio sangue.

Pensar por si mesmo

§1.

A mais rica biblioteca, quando desorganizada, não é tão proveitosa quanto uma bastante modesta, mas bem ordenada. Da mesma maneira, uma grande quantidade de conhecimentos, quando não foi elaborada por um pensamento próprio, tem muito menos valor do que uma quantidade bem mais limitada, que, no entanto, foi devidamente assimilada. Pois é apenas por meio da combinação ampla do que se sabe, por meio da comparação de cada verdade com todas as outras, que uma pessoa se apropria de seu próprio saber e o domina. Só é possível pensar com profundidade sobre o que se sabe, por isso se deve aprender algo; mas também só se sabe aquilo sobre o que se pensou com profundidade. No entanto, podemos nos dedicar de modo arbitrário à leitura e ao aprendizado; ao pensamento, por outro lado, não é possível se dedicar arbitrariamente. Ele precisa ser atiçado, como é o fogo por uma corrente de ar, precisa ser ocupado por algum interesse nos assuntos para os quais se volta; mas esse interesse pode ser puramente objetivo ou puramente subjetivo. Este último se refere apenas às coisas que nos concernem pessoalmente, enquanto o interesse objetivo só existe nas cabeças que pensam por natureza, nas mentes para as quais o pensamento é algo tão natural quanto a respiração. Mas mentes assim são muito raras, por isso não se encontram muitas delas em meio aos eruditos.

§2.

O efeito que o pensamento próprio tem sobre o espírito é incrivelmente diferente do efeito que caracteriza a leitura, e com isso há um aumento progressivo da diversidade original dos cérebros, graças à qual as pessoas são impelidas para uma coisa ou para outra. A leitura impõe ao espírito pensamentos que, em relação ao direcionamento e à disposição dele naquele momento, são tão estranhos e heterogêneos quanto é o selo em relação ao lacre sobre o qual imprime sua marca. Desse modo, o espírito sofre uma imposição completa do exterior para pensar, naquele instante, uma coisa ou outra, isto é, para pensar determinados assuntos aos quais ele não tinha na verdade nenhuma propensão ou disposição. Em contrapartida, quando alguém pensa por si mesmo, segue seu mais próprio impulso, tal como está determinado no momento, seja pelo ambiente que o cerca, seja por alguma lembrança próxima. No caso das circunstâncias perceptíveis, não há uma imposição ao espírito de um determinado pensamento, como ocorre na leitura, mas elas lhe dão apenas a matéria e a oportunidade para pensar o que está de acordo com sua natureza e com sua disposição presente.

Sobre a escrita e o estilo

§9.

Em quase todos os tempos, tanto na arte quanto na literatura, entra em voga e é admirada alguma noção fundamental falsa, ou um modo falso de se expressar, ou um maneirismo qualquer. As cabeças triviais se esforçam ardentemente para se apropriar de tal noção e exercitar tal modo. O homem inteligente reconhece e despreza essas coisas, permanecendo fora de moda. Contudo, após alguns anos, o público o segue e reconhece a farsa como o que ela era, ridicularizando a moda, e dessa maneira cai por terra a maquiagem, antes admirada, de todas aquelas obras amaneiradas, como um reboco malfeito cai de uma parede com ele revestida. As obras passam a ficar expostas da mesma maneira que esse muro. Assim, as pessoas não devem se irritar, mas se alegrar quando uma noção fundamental falsa, que durante muito tempo operou em silêncio, é exposta de modo claro, em voz alta. Pois só então sua falsidade será logo sentida, reconhecida e, finalmente, proclamada. É como um abscesso que se rompe.

Sobre a leitura e os livros

§6.
Segundo Heródoto, Xerxes chorou ao contemplar seu exército inumerável, pensando que em cem anos nenhum daqueles homens ainda estaria vivo. Quem não sentiria vontade de chorar, à vista dos grossos catálogos editoriais, se pensasse que, de todos aqueles livros, já em dez anos não haverá nenhum vivo.

O Infante D. Henrique e a arte de navegar dos portuguezes

Quando, em 1415, o Infante D. Henrique regressou da conquista de Ceuta, o theatro do mundo physico certamente apresentava ao seu espirito uma scena de grande confusão: por um lado o que se suppunha ser a sciencia positiva geographica do tempo; por outro as lendas que quasi tinham fóros de verdades; por outro ainda os absurdos que a um espirito esclarecido se patenteavam, resultantes do combate entre essas lendas e as probabilidades de certeza.

Eram conhecidas ao tempo com mais ou menos exactidão, e com bastante imperfeição desenhadas nos portulanos: todas as terras da Europa com as ilhas proximas e os mares que as banham; a costa septentrional da África a começar no Cabo Não sobre o Atlantico e d’ahi até ás bôcas do Nilo: para o interior d’essa costa um tanto de terras até aos desertos; a Palestina, a Syria, a Asia Menor, alguma cousa a um e outro lado do Caucaso e pouco mais. No resto da Asia sabia-se da existencia de varias terras, mas só vagamente se lhes marcavam as situações. Da Africa, para o sul do Cabo Não, diziam-se cousas contradictorias. A America sonhava-se porventura na lenda da Antilia. A Australia nem se sonhava. Ainda havia vagas indicações, ligadas a lendas, ácerca de diversas ilhas espalhadas pelo Atlantico. E tudo isto se figurava, para o vulgo pelo menos, em uma terra plana, porque a esphericidade do planeta teria como consequencia a existencia dos antipodas, o que se reputava absurdo.

E as lendas pullulavam, avultando entre ellas a do Mar Tenebroso, a do Equador inhabitavel e a do Preste João. Dizia-se por um lado: não se póde navegar muito para longe das costas que o Atlantico banha, porque a breve trecho se encontra a região das trevas perpetuas, onde o sol se apaga no occaso, povoada de ferozes monstros marinhos, agitada por medonhos e constantes temporaes, promptos a desfazer o fragil baixel que ousasse lá chegar; essa lenda vinha da antiguidade, e foi porventura preconisada pelos Arabes, que assim se desculpariam de não terem continuado nas suas navegações para o occidente. Por outro lado affirmava-se: é certo haver gentes para alem da linha equinoxional; mas n’esta e nas regiões que se lhe avizinham, os raios do sol incidem com tal força que tornam impossivel ali a vida humana, e impossivel, portanto, a communicação dos povos da Europa com os que habitam alem do Equador. E, contava-se ainda, ha bem longe da Europa, e d’ella separado por terras de infieis, o reino de um principe christão–o Preste João das Indias;–e anceiava-se por travar relações com esse irmão em crenças.

EÇA, Vicente Almeida d’. O infante d. Henrique e a arte de navegar dos portuguezes. Lisboa. Livraria Ferin. 1894.

Os grifos são meus.

Uber Gewissheit

Ludwig Wittgenstein

On Certainty (Uber Gewissheit)

ed. G.E.M.Anscombe and G.H.von Wright
Translated by Denis Paul and G.E.M.Anscombe
Basil Blackwell, Oxford 1969–1975

2. From its seeming to me – or to everyone – to be so, it doesn’t follow that it is so.
What we can ask is whether it can make sense to doubt it.

7. My life shows that I know or am certain that there is a chair over there, or a door, and so on. – I tell a friend e.g. “Take that chair over there”, “Shut the door”, etc. etc.

8. The difference between the concept of ‘knowing’ and the concept of ‘being certain’ isn’t of any great importance at all, except where “I know” is meant to mean: I can’t be wrong. In a law–court, for example, “I am certain” could replace “I know” in every piece of testimony. We might even imagine its being forbidden to say “I know” there. [A passage in “Wilhelm Meister”, where “You know” or “You knew” is used in the sense “You were certain”, the facts being different from what he knew.]

11. We just do not see how very specialized the use of “I know” is.

12. – For “I know” seems to describe a state of affairs which guarantees what is known, guarantees it as a fact. One always forgets the expression “I thought I knew”.

22. It would surely be remarkable if we had to believe the reliable person who says “I can’t be wrong”; or who says “I am not wrong”.

29. Practice in the use of the rule also shows what is a mistake in its employment.

30. When someone has made sure of something, he says: “Yes, the calculation is right”, but he did not infer that from his condition of certainty. One does not infer how things are from one’s own certainty.

Certainty is as it were a tone of voice in which one declares how things are, but one does not infer from the tone of voice that one is justified.

31. The propositions which one comes back to again and again as if bewitched – these I should like to expunge from philosophical language.

38. Knowledge in mathematics: Here one has to keep on reminding oneself of the unimportance of the ‘inner process’ or ‘state’ and ask “Why should it be important? What does it matter to me?” What is interesting is how we use mathematical propositions.

43. What sort of proposition is this: “We cannot have miscalculated in 12×12=144”? It must surely be a proposition of logic. – But now, is it not the same, or doesn’t it come to the same, as the statement 12×12=144?

44. If you demand a rule from which it follows that there can’t have been a miscalculation here, the answer is that we did not learn this through a rule, but by learning to calculate.

45. We got to know the nature of calculating by learning to calculate.

97. The mythology may change back into a state of flux, the river–bed of thoughts may shift. But I distinguish between the movement of the waters on the river–bed and the shift of the bed itself; though there is not a sharp division of the one from the other.

98. But if someone were to say “So logic too is an empirical science” he would be wrong. Yet this is right: the same proposition may get treated at one time as something to test by experience, at another as a rule of testing.

478. Does a child believe that milk exists? Or does it know that milk exists? Does a cat know that a mouse exists?

479. Are we to say that the knowledge that there are physical objects comes very early or very late?

486. “Do you know or do you only believe that your name is L.W.?” Is that a meaningful question?

Do you know or do you only believe that what you are writing down now are German words? Do you only believe that “believe” has this meaning? What meaning?

487. What is the proof that I know something? Most certainly not my saying I know it.

488. And so, when writers enumerate all the things they know, that proves nothing whatever.

So the possibility of knowledge about physical objects cannot be proved by the protestations of those who believe that they have such knowledge.

Diferença e repetição

“A primeira síntese do tempo, embora seja originária, não deixa de ser intratemporal. Ela constitui o tempo como presente, mas como presente que passa. O tempo não sai do presente, mas o presente não pára de mover-se por saltos que se imbricam uns nos outros. É este o paradoxo do presente: constituir o tempo, mas passar neste tempo constituído. Não devemos recusar a conseqüência necessária: é preciso um outro tempo em que se opera a primeira síntese do tempo. Esta remete necessariamente a uma segunda síntese. Insistindo na finitude da contração, mostramos o efeito, mas não mostramos por que o presente passava, nem o que o impedia de ser co-extensivo ao tempo. A primeira síntese, a do hábito, é verdadeiramente a fundação do tempo; mas devemos distinguir a fundação e o fundamento. A fundação concentre ao solo e mostra como algo se estabelece sobre este solo, ocupa-o e o possui; mas o fundamento vem sobretudo do céu, vai do ápice às fundações, avalia o solo e o possuidor de acordo com um título de propriedade. O hábito é a fundação do tempo, o solo movente ocupado pelo presente que passa. Passar é precisamente a pretensão do presente. Mas o que faz com que o presente passe e que se apropria do presente e do hábito deve ser determinado como fundamento do tempo. O fundamento do tempo é a Memória. Foi visto que a memória, como síntese ativa derivada, repousa sobre o hábito: com efeito, tudo repousa sobre a fundação. Mas o que constitui a memória não é dado deste modo. No momento em que ela se funda sobre o hábito, a memória deve ser fundada por uma outra síntese passiva, distinta do hábito. E a síntese passiva do hábito remete a esta síntese passiva mais profunda que é da memória: Habitus e Mnemósina, ou a aliança do céu e da terra. O Hábito é a síntese originária do tempo que constitui a vida do presente que passa; a Memória é a síntese fundamental do tempo que constitui o ser do passado (o que faz passar o presente).”

DELEUZE. Diferença e repetição. Graal, 1988.

Bibliografia resumida

Bibliografia resumida para o curso A arte no Brasil entre os séculos XIX e XX: do fim da arte acadêmica até os modernistas, MASP 2010.

Almeida Júnior – um criador de imaginários. Catálogo de Exposição. Curadoria de Maria Cecília França Lourenço. Pinacoteca do Estado, 25 de janeiro a 15 de abril de 2007.

ALMEIDA, Paulo Mendes de. De Anita ao Museu. São Paulo, Perspectiva, 1976.

AMARAL, Aracy. Arte para quê?: a preocupação social na arte brasileira, 1930-1970 subsídios para uma história social da arte no Brasil. 3a ed., São Paulo: Studio Nobel, 2003.

AMARAL, Aracy. Artes plásticas na semana de 22. 5ª edição revista e ampliada, São Paulo: Ed. 34, 1998.

AMARAL, Aracy. Tarsila Sua Obra e seu Tempo, 3ª. Ed., São Paulo: Editora 34 / Edusp, 2004 (1975) .

BARATA, Mario. Eliseu Visconti e seu tempo. Rio de Janeiro, Zelio Valverde, 1944.

BATISTA, Marta Rossetti et Alli. Brasil: primeiro tempo modernista. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros, 1972.

BATISTA, Marta Rossetti: Anita Malfatti no Tempo e no Espaço –biografia e estudo da obra, catálogo e documentação. São Paulo: Editora 34 / Edusp, 2006, 2 v.

Bienal Brasil Século XX. Nelson Aguilar (organizador). 2a edição, São Paulo, Fundação Bienal de São Paulo, 1994.

BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo, Perspectiva, 1981

CAMARGOS, Marcia. Villa Kyrial: crônica da Belle Époque paulistana. São Paulo:SENAC, 2001.

CAVALCANTI, Lauro, Quando o Brasil era Moderno: Guia de Arquitetura 1928-1960, Rio de Janeiro, Aeroplano, 2001.

CHIARELLI, D.T. “De Almeida Jr. a Almeida Jr.: a crítica de arte de Mário de Andrade” 2 vols., Tese de Doutorado, ECA/USP, 1996.

COLI, Jorge. “Almeida Jr: o caipira e a violência”. In Como estudar a arte brasileira do século XIX. São Paulo: Editora Senac, 2005.

FABRIS, Annateresa. O futurismo paulista: hipóteses para o estudo da chegada da vanguarda ao Brasil. São Paulo: Perspectiva/ Edusp, 1994.

FABRIS, Annateresa. Portinari, Pintor social. SP: Edusp/ Perspectiva, 1990.

GOTLIB, Nadia Battella: Tarsila do Amaral: a modernista. 2a ed., São Paulo: Senac, 2000.

HERKENHOFF, Paulo; e Pedrosa, Adriano (Curadores): Catálogos da XXIV Bienal de São Paulo. Núcleo Histórico: Antropofagia e Histórias de Canibalismo. São Paulo, 1998.

MAGALHAES, A. G. Picasso e o Parque do Ibirapuera: o Brasil moderno? Revista Número, São Paulo, p. 6 – 7, 01 set. 2004.

MATTOS, Claudia Valadão de: Lasar Segall. São Paulo, 1997.

MICELI, Sergio. Imagens negociadas, retratos da elite brasileira (1920-40). São paulo: Cia das Letras, 1996.

PEDROSA, Mário. Acadêmicos e modernos: textos escolhidos III. Organização Otília Beatriz Fiori Arantes. São Paulo: Edusp, 1998. 429 p., il. p&b.

SCHWARTZ, Jorge (org) Da Antropofagia à Brasília: 1920-1950. Ed revista e ampliada, São Paulo: FAAP e Cosac & Naify, 2002.

SCHWARTZMAN, BOMENY, & COSTA. Tempos de Capanema. São Paulo: Paz e Terra; Fundação Getúlio Vargas, 2000.

SEGAWA. Arquiteturas no Brasil 1900-1990. São Paulo: Edusp, 1998.

SEVCENKO, Nicolau. Orfeu Extático na Metrópole: São Paulo sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Cia das Letras, 1992.

ZANINI, Walter (org.). História geral da arte no Brasil – II. São Paulo: Fundação Djalma Guimarães : Instituto Walther Moreira Salles, 1983.

ZANINI, Walter. Vicente do Rego Monteiro. Artista e poeta. São Paulo, Empresa das Artes/Marigo Editora, 1997.

ZILIO, Carlos. A querela do Brasil, a questão da identidade na arte brasileira: a obras de Tarsila, Di Cavalcanti e Portinari/1922-1945. Rio de Janeiro, Funarte, 1982.

Brasil séc XIX e XX

Toda animada recebo o email do MASP com o programa do curso que se inicia na quinta próxima, A arte no Brasil entre os séculos XIX e XX: do fim da arte acadêmica até os modernistas, com a Profa. Dra. Leticia Squeff.

Reproduzo aqui para vocês ficarem aí se mordendo de inveja.

Objetivos e metodologia

O objetivo do curso é discutir as peculiaridades do processo de modernização da pintura brasileira entre os anos de 1890 e 1930. Trata-se de focar um momento-chave da cultura brasileira – que transcorre, em sua maior parte, durante a chamada “República Velha” – e que, paradoxalmente, nem sempre tem sido estudado com o devido vagar pelos historiadores da arte.

Por muito tempo artistas como Eliseu Visconti ou Rodolfo Amoedo foram vistos como pintores acadêmicos ou como representantes de correntes tardiamente alinhadas ao impressionismo. Nessa história pontuada por etapas divididas entre acadêmico e moderno, tradição e vanguardas, a Semana de 1922 ganhou significado de marco divisor fundamental, que organizava a interpretação de artistas e obras. Contudo, estudos mais recentes vêm mostrando o quanto os valores artísticos foram fluidos no caso brasileiro.

Tendo essa questão como pano de fundo, esse curso será centrado na análise de obras e na discussão de estudos de caso.

Programa

11/03 – Aula 1 – A geração de 1880: modernidades possíveis

Leitura: MARQUES, Luiz (org). “Introdução” in 30 Mestres da pintura brasileira. Catálogo da Exposição no MASP. São Paulo, 2001.

18/03- Aula 2 – “Acadêmicos” e “precursores”

Leitura: SOUZA, Gilda de Mello e. “Pintura Brasileira: os precursores”. In Exercícios de Leitura. Campinas: Duas Cidades, 1980.

25/03 – Aula 3 – A “Exposição de Arte Moderna Anita Malfatti”

Leitura: CHIARELLI, “Tropical de Anita Malfatti: reorientando uma velha questão” In Novos Estudos, 80, março de 2008.

01/04 – Aula 4 – A semana de 22: alcance e impasses

Leitura: CAMARGOS, Márcia. “O festival modernista”. In Semana de 22: entre vaias e aplausos. São Paulo: Boitempo, 2003.

08/04 – Aula 5 – Arte moderna e a arte brasileira

Leitura: ZILIO, “A questão política no modernismo”. In Mestres do modernismo. Catálogo de Exposição. Pinacoteca do Estado: Imprensa Oficial, 2005.

15/04 – Aula 6 – Antropofagia e Surrealismo 

Leitura: “O manifesto Antropofágico” In Mestres do modernismo. Catálogo de Exposição. Pinacoteca do Estado: Imprensa Oficial, 2005.

22/04 – Aula 7 – Pintura e arquitetura nos anos 30 e 40

Leitura: FABRIS, A. . A Semana de Arte Moderna e seus desdobramentos. In: Gonçalves, Lisbeth Rebollo. (Org.). Arte brasileira no século XX. São Paulo, SP: ABCA-MAC/USP-Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007, v. , p. 67-87.

29/08 – Aula 8 – O Modernismo em questão: estudos de caso

Leitura: FABRIS, “Modernidade e vanguarda: o caso brasileiro”. In FABRIS, Annateresa (org.) Modernidade e modernismo no Brasil. Campinas, Mercado de Letras, 1994. (Col Arte: ensaios e Documentos)

O fim do social e o surgimento das massas

“Bombardeadas de estímulos, de mensagens e de testes, as massas não são mais do que um jazigo opaco, cego, como os amontoados de gases estelares que só são conhecidos através da análise do seu espectro luminoso – espectro de radiações equivalente às estatísticas e às sondagens. Mais exatamente: não é mais possível se tratar de expressão ou de representação, mas somente de simulação de um social para sempre inexprimível e inexprimido. Esse é o sentido do seu silêncio. Mas esse silêncio é paradoxal – não é um silêncio que fala, é um silêncio que proíbe que se fale em seu nome. E, nesse sentido, longe de ser uma forma de alienação, é uma arma absoluta.”

Jean Baudrillard, À sombra das maiorias silenciosas

O link com as redes sociais, obviamente, é meu.

Silêncio que proíbe que se fale em seu nome” me parece a origem (a humana, não a tecnológica) de toda a internet.

Pode ser só a minha mente poluída também.

A Sociedade do Espetáculo

“O tempo cíclico é já dominante na experiência dos povos nômades, porque são as mesmas condições que se reencontram perante eles a cada momento da sua passagem: Hegel nota que ‘a errância dos nômades é somente formal, porque está limitada a espaços uniformes’. A sociedade, que ao fixar-se localmente dá ao espaço um conteúdo pela ordenação dos lugares individualizados, encontra-se por isso mesmo encerrada no interior desta localização. O regresso temporal a lugares semelhantes é, agora, o puro regresso do tempo num mesmo lugar, a repetição de uma série de gestos. A passagem do nomadismo pastoril à agricultura sedentária é o fim da liberdade ociosa e sem conteúdo, o princípio do labor. O modo de produção agrário em geral, dominado pelo ritmo das estações, é a base do tempo cíclico plenamente constituído. A eternidade é-lhe interior: é aqui embaixo o regresso do mesmo. O mito é a construção unitária do pensamento, que garante toda a ordem cósmica em volta da ordem que esta sociedade já realizou, de fato, dentro das suas fronteiras.”

“A cultura é a esfera geral do conhecimento e das representações do vivido na sociedade histórica, dividida em classes; o que se resume em dizer que ela é esse poder de generalização existindo à parte, como divisão do trabalho intelectual e trabalho intelectual da divisão. A cultura desligou-se da unidade da sociedade do mito, ‘quando o poder de unificação desaparece da vida do homem, e os contrários perdem a sua relação e a sua interação vivas e adquirem autonomia…’ (Diferença entre os sistemas de Fichte e de Schelling). Ao ganhar a sua independência, a cultura começa um movimento imperialista de enriquecimento, que é, ao mesmo tempo, o declínio da sua independência. A história, que cria a autonomia relativa da cultura e as ilusões ideológicas quanto a esta autonomia, exprime-se também como história da cultura. E toda a história conquistadora da cultura pode ser compreendida como a história da revelação da sua insuficiência, como uma marcha para a sua auto-supressão. A cultura é o lugar da procura da unidade perdida. Nesta procura da unidade, a cultura como esfera separada é, ela própria, obrigada a negar-se.

A luta da tradição e da inovação, que é o princípio do desenvolvimento interno da cultura das sociedades históricas, não pode ser prosseguida senão através da vitória permanente da inovação. A inovação na cultura não é, porém, trazida por nada mais senão pelo movimento histórico total que, ao tomar consciência da sua totalidade, tende à superação dos seus próprios pressupostos culturais e caminha para a supressão de toda a separação.”

Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo.