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Antes de começar, preciso deixar claro que existem excelentes autores que publicam no esquema da auto-publicação. O livro ser integralmente ou parcialmente pago pelo autor não tem nenhuma relação com o seu conteúdo. Este artigo é apenas um alerta de que não basta escrever e pagar a impressão. Há muito mais entre o Word e a gráfica do que crê a vã filosofia.

A publicação via editor é melhor não porque o editor seja essa maravilha, não, mas porque submete o texto a inúmeras leituras, revisões e a todo um trabalho editorial que na esmagadora maioria dos casos não existe na auto-publicação. O problema é que a auto-publicação é uma prestação de serviços e, como em qualquer lugar, o cliente tem sempre razão. Na hora em que o autor se coloca como cliente e não como uma parte do conjunto necessário para fazer um livro (a parte mais importante, sem dúvida alguma, mas uma parte – carro não é só motor e outras analogias) o autor perde completamente o discernimento do texto.

Dando um exemplo (existem muitos durante toda a linha de produção de um livro): leitores-beta são leitores profissionais (às vezes até mesmo especializados em análise literária) e não aquele seu amigo super legal e inteligente que jurou de pés juntos que faria uma leitura não-tendenciosa do seu livro. A não ser, claro, que você seja amigo de um leitor profissional do porte de um Eric Novello da vida, mas aí ele mesmo com certeza já te falou isso tudo. É melhor inclusive que seja alguém que não te conhece pessoalmente. A separação entre o texto e o que o leitor conhece do autor é uma tarefa que exige muito tempo de estrada e não é para qualquer um. E isso estou falando só da parte da primeira leitura especializada, não estou nem falando de adequação de discurso, de colocação no mercado, de nada disso…

Outro problema sério é a distribuição. Se você só tem um livro – por melhor que seja – para comercializar, os distribuidores sequer te atendem. A editora, por outro lado, liga para o distribuidor e, depois do ok do produtor gráfico da editora, requisita que o caminhão busque os exemplares direto na gráfica. Caminhão, não aquele carro com um enorme porta-malas da sua prima.

O trabalho de design também não é simples. Não, não serve aquele arquivo seu do Word tão lindo já no formato de livro, com até números de páginas. E não, aquela sua amiga artista plástica que tem um clima assim tão legal, tão próximo do livro, que entendeu tudo, não, ela não pode fazer a sua capa. Quer dizer, nada contra ela fornecer uma imagem para a capa, mas capa não é só uma imagem bonita e chamativa com o título grande.

Repare que nem estou falando de copy-desk e revisão. Copy-desk, aliás, é outra questão. O copy-desk está trabalhando a favor do seu texto, não contra. Não mande um peixe enrolado no jornal para a casa do sujeito só porque ele sugeriu cortar 2 parágrafos do seu texto. É claro que copy-desk erra, assim como revisor, assim como o designer, assim como o editor e, pasme, assim como o autor. Não precisa se angustiar, basta conversar e explicar o seu ponto de vista. E, igualmente importante, ouvir o ponto de vista do outro.

O problema da auto-publicação é que, na maioria das vezes, não há troca. É apenas o autor pagando para uma gráfica imprimir o texto. E o produto final sempre reflete o cuidado que se teve com ele. O leitor não é burro. Não o trate como tal.

publicado em 28 de outubro de 2009
no portal Carreira Solo

Em uma observação absolutamente pessoal e sem qualquer valor estatístico, tenho anotado as editoras infanto-juvenis que aparecem com melhor destaque ou posicionamento nas grandes livrarias. Excluí de propósito as livrarias de livreiro, que são as melhores mas que contam com uma seleção que vai muito além do percentual de venda ou práticas marketeiras similares. O meu propósito não é nem um pouco nobre e eu queria justamente saber quais eram as editoras mais agressivas nos pontos de venda.

Tomei nota de:

Aleph

Ática

Biruta

Brinque-book

Ciranda Cultural

Companhia das Letrinhas

Conrad (HQs)

Cosac Naify

Ediouro (Desiderata e Agir)

FTD

Fundamento

Girassol

JBC (mangás)

L&PM

LGE

Martins Fontes

Melhoramentos

Moderna

Objetiva

Opera Graphica

Panda Books

Panini (HQs)

Penguin Young Readers

Projeto

Record (selos Galera e Galerinha, José Olympio, Bertrand)

Rocco

Salamandra

Saraiva (Atual)

Scholastic

Scipione

O que eu acho mais curioso é que em todas – todas - as livrarias onde tomei notas fui implacavelmente seguida, monitorada e vigiada por seguranças. Essa gente que escreve é mesmo capaz de tudo. Um perigo!


ps: não, eu não estava usando uma caneta Bic.

Tenho brincado com a idéia de escrever a respeito da reforma ortográfica mas a verdade é que tenho pouco a dizer.

Assim como qualquer resolução imposta verticalmente, ou seja, uma decisão política/comercial, a reforma também beneficia um grupo específico. Não vou entrar aqui nas teorias de conspiração que se tornam rapidamente populares na internet: eu não sei se a intenção original era beneficiar este grupo ou se isto foi apenas uma conseqüência (sim, eu ainda uso trema), mas o fato é que os grandes grupos editoriais saíram ganhando.

Explico: é claro que em um projeto editorial existe muito mais do que ortografia mas esta unificação já permite, por exemplo, que uma grande editora rode em gráfica um miolo único para todos os países e rode apenas as capas separadamente.

Poucas pessoas – para a minha surpresa – tem a noção de que rodar em gráfica uma quantidade enorme sai mais barato do que uma pequena, considerando o preço unitário. Isso sem nem falar dos custos da produção do texto propriamente dito (copy-desk, revisão, etc).

Considerando este fator, é natural supor que viveremos uma invasão das grandes casas editoriais européias aqui no Brasil. A literatura brasileira, já tão pisoteada, coitada, ficará ainda mais massacrada por projetos enlatados, unificados e pasteurizados.

A solução, me parece, é usar a força do oponente contra ele próprio, ao melhor estilo Aikido: a reforma serve tanto aqui como lá e os autores brasileiros podem lutar por seu lugar ao sol na terra de Camões.

O lado negro do mercado editorial

Não que eu seja autoridade no assunto, longe disso. Não sou advogada ou jurista e sempre estive do outro lado do balcão, mas ainda assim achei que seria legal colocar aqui as armadilhas mais comuns, que os autores precisam ficar atentos.

- O encalhe: Às vezes a editora tenta empurrar para cima do autor a resposabilidade de lidar com o encalhe. As formas mais comuns de fazer isso é colocar uma cláusula em que aquele título é da editora até que a edição se esgote ou que o autor pague por ela. Cartão vermelho aqui! É claro que a editora precisa de um tempo para trabalhar o livro e como esse é um mercado lento, esse tempo costuma ser grande (7, às vezes 10 anos), mas se depois desse prazo a editora ainda tiver exemplares lá no estoque, problema dela.

- Sem garantia: O contrato deve conter algum tipo de cláusula dizendo que a editora se compromete a publicar o trabalho em X tempo (freqüentemente algo em torno de 6 meses a 1 ano).

- Sem tiragem: A tiragem (quantos exemplares serão impressos) é algo que consta de contrato. É muito comum, entretanto, a possibilidade de adendos ao contrato, modificando este número (em função de um edital que abriu, por exemplo).

Coisas que são assim mesmo

Portanto relaxe e vá pensar em seu novo livro.

- Novas edições*: Durante o período em que o livro está com a editora, ela pode sim fazer quantas edições precisar para atender o mercado.

- Autenticidade: Quem responde por plágio e afins é o autor.

- Impedimento de outras mídias: O autor compromete-se a não fazer nada que possa prejudicar a venda da obra.

Conclusão

Agora, pessoal, pelamordedeus, consultem um advogado antes de assinar qualquer documento. Estas são apenas alguns pontos a prestar atenção, ok?

* “novas edições” aqui é usado no sentido de uma nova reimpressão.

publicado no Carreira Solo em 20/01/2009

Nota do editor: mais um post nascido comentário. As coisas são assim, às vezes a gente tem que dar uma alteradinha para dar vida nova. Opa, esse é o tema do post. Vamos ler?

Quando fui editora da Next, mudava muito textos, que eram artigos que precisavam estar completamente em sintonia com a revista e com os demais artigos. Por outro lado, não mudava quase nada de livros ou textos de ficção.

Eu entendo que um artigo técnico precisa estar de acordo com a publicação e com os objetivos a que se destina mas que uma obra ficcional é uma criação que se sustenta sozinha e portanto deve ser respeitada como uma unidade.

Claro que já recusei textos que poderiam até ser trabalhados e publicados mas, justamente por considerar que o autor apresenta aquilo que considera pronto, achei que não devia nem propor alterações.

Agora, alguns bons editores tem o hábito de mudar sim. Na minha experiência e no que vi acontecer com autores amigos, a maior área de conflito é na diagramação do livro, não no conteúdo. Coisas como ilustrações feitas para fundo branco e o diagramador “decide” que “precisa de uma corzinha” e taca um tenebroso tom pastel por trás, coisas assim.

E aí a gente não tem muito o que fazer além de engolir em seco e esperar por uma segunda edição melhor.

publicado no Carreira Solo em 14/01/2009

Nota do editor: Este é mais um post que nasceu de uma resposta a um comentário neste outro post aqui. Fiz uma ligeira adaptação para iniciarmos aqui uma nova conversa sobre este tema.

Cá entre nós, a verdade nua e crua é que a maioria dos autores infantis, por melhor que desenhe, não conhece bem gráfica. O que a gente recebe de ilustração com especificações inadequadas, nem te conto. Isso sem nem falar em formato. Às vezes (ok, na maioria das vezes, ok, quase sempre) as editoras trabalham com determinados formatos e sair deles é uma dor de cabeça sem tamanho.

Sair de um formato habitual, para a editora, muitas vezes significa reposicionamento no PDV, perda de papel e às vezes até troca de gráfica. Olha, dá tanto, mas tanto trabalho, que por isso eu sempre recomendo os autores de mandar os textos sem nada, para não ter mais um “quesito atrapalhador” na aprovação do texto.

Mandando as ilustrações separadas

Ao optar por esse caminho, você tem a vantagem de deixar o editor mais livre para adequar o seu original dentro da linha dele mas tem a desvantagem de que o resultado pode não sair exatamente o que você considera mais adequado para aquele texto/imagem.

Entregando a boneca pronta

Optar pelo caminho 2 tem a vantagem de que você sabe o que vai sair dali mas a desvantagem de que você “engessa” o editor. Aí, se você for neurótico com TOC como eu, monta uma boneca para cada editor, de forma a não atrapalhar a vida do cara e ao mesmo tempo manter o que você quer.

Ilustrando para outros escritores

Pode ocorrer de você querer também ilustrar para outros escritores, uma vez que tenha seu trabalho aceito pela editora. Isso é, ao mesmo tempo, muito legal e difícil. Mas é isso mesmo: só mandando o seu trabalho é que o editor vai saber.

Se você tiver isso em mente, é melhor enviar o texto e ilustrações separadas, com o argumento de “é esta ilustração que eu gostaria de apresentar para o texto e este estilo que eu gostaria de oferecer para outros títulos, como freelancer.”

Acho mais simpático do que “ó, taí o livro como deve ser”, que, cá entre nós, é meio arrogante.

:)

publicado no Carreira Solo em 13/01/2009

Você tem talento, disciplina e até mesmo uma editora querendo publicar seu original. Mas aí, pinta a dúvida: afinal, quanto eu vou ganhar com isso? As respostas que se seguem são os casos mais comuns, a partir da minha experiência, mas na verdade as editoras estão livres para outras negociações. Então vamos lá entender quanto ganha um escritor:

  • Critério: na maioria dos casos é percentual de direito autoral, que costuma ser entre 8 e 10% do preço de capa do exemplar vendido.
  • Vendagem: cada livraria fecha de um jeito e em uma data. As editoras normalmente disponibilizam as planilhas de contabilidade para os autores só uma vez no semestre ou no máximo no trimestre, justamente porque tem livrarias que fecham trimestralmente, por exemplo, então para não ficar incompreensível, muitas editoras optam por mostrar o balancete para o autor também com uma periodicidade baixa.
  • Tempo de repasse: novamente, na maioria das vezes, ok? Normalmente as editoras adiantam uma quantia a combinar para o autor, antes das vendas e vão descontando desta quantia os livros vendidos. O autor só torna a receber quando e se ultrapassar aquela quantia já recebida em direitos autorais (ítem 1). Algumas editoras muito pequenas e sem fluxo de caixa para isso, pagam o autor nas suas datas de fechamento, normalmente de 3 em 3 meses.
  • Exemplares de autor: isso varia muito, principalmente do tipo de livro que vc escreveu. Livros didáticos normalmente recebem 10 exemplares, ficção costuma receber um pouco mais, em torno de 30, mas isso você pode conversar com o seu editor. Se a quantia que você precisa for maior do que a editora pode lhe dar, vc pode sempre comprar os seus livros com o preço de autor (com um desconto em torno de 30% do preço de capa).
  • Tiragem: sim, as edições sempre tem uma quantidade de exemplares determinada e isto é sempre colocado muito claramente e muitas vezes consta até mesmo do seu contrato. Você fica sabendo exatamente quantos exemplares rodaram em gráfica, quantos foram para imprensa, quantos foram para livraria, etc. Isto tudo é feito de forma muito transparente e às vezes o editor pede para você assinar junto com ele os exemplares de cortesia do editor (jornalistas, etc).

Vale lembrar que…

Esses são detalhes técnicos que em nada devem impedir sua vontade de publicar ou doutrinar seu talento e disposição para compartilhar suas idéias, certo? E por falar em idéias, depois dá uma lida nos posts que temos sobre o Mercado Editorial!

publicado no Carreira Solo em 27 de dezembro de 2008

Nota rápida do Editor: a Carol responde seus e-mails com posts. É um hábito que, para o leitor que mandou o email é uma surpresa e tanto e para o editor aqui um presente sempre bem-vindo: um post prontinho! Então aí vai mais uma resposta fundamental para uma dúvida bastante especial da comunidade dos freelancers brasileiros. Capítulo de hoje: montar a própria editora!

O mercado editorial está em transformação e, muito sinceramente, ninguém sabe direito para onde vai. Não tem fórmula mágica, acredite. Vou tentar te passar aqui algumas linhas gerais mas é extremamente importante que você siga a sua intuição e não leve isso aqui a ferro e fogo, ok?

0. Linha editorial

Botei “zero” de propósito, por ser o ponto mais crucial de uma editora. Tenha uma linha editorial definida e seja fiel a ela. De nada adianta você receber, por exemplo, o novo original do Harry Potter se você não publica livros infanto-juvenis. Você não vai conseguir trabalhar o livro direito, até pela falta dos canais certos e vai acabar matando o original. Com o crescimento natural da editora, nada te impede de, depois, abrir novas linhas, ou até mesmo novos selos editoriais, mas mantenha-se sempre fiel às suas escolhas, por mais tentador que seja algo diferente. É melhor recusar um livro ótimo do que matar um livro ótimo.

1. Tiragens pequenas É muito comum que a gente, por entusiasmo, dimensione as vendas de um determinado projeto com um otimismo além da conta. É fácil cair nessa armadilha porque os projetos editoriais são feitos com tanto carinho que é muito difícil acreditar que o resultado final não vá revolucionar o mundo e vender feito água no deserto. O mercado editorial é um mercado de paciência. Você pode mudar o mundo sim, mas não vai ser com uma única publicação. É tudo muito devagar e tudo muito aos poucos. Então, pelo menos no começo, limite suas tiragens a mil exemplares (o mínimo de gráficas). Não tem nada de errado – muito pelo contrário – em rodar uma segunda edição se precisar depois. Tem uma piada velha no meio: “Como o editor se suicida? Pula do alto do seu estoque.” Então lembre-se: pense muito, crie muito, imprima pouco.

2. Use tudo que puder Eu estou absolutamente convencida de que a solução para o mercado editorial vai vir dos novos. Use twitter, plurk, orkut, qualquer coisa. Desenvolva aplicativos (joguinho, coisas pro facebook, etc), crie sites colaborativos (e gerencie-os bem!), coloque vídeos no youtube. Enfim, use as ferramentas que as editoras grandes não estão usando ainda (juro que não sei se por ignorância ou arrogância). Não ignore os pequenos. Tente conseguir que autores e/ou ilustradores seus visitem escolas ou universidades, dando palestras sobre o trabalho deles e monte uma banquinha na porta. Mesmo que a venda nestes lugares seja efetivamente pequena, vá onde está o seu público leitor, dê atenção a ele, valorize a sua opinião, escute o que tem a dizer. Se você conseguir ganhar o respeito do seu leitor, você está feito na vida. E para isso você precisa ir onde ele está. Converse com o seu autor sobre destinar alguns exemplares gratuitamente, dependendo do caso é claro, a professores, blogueiros ou outros “disseminadores”.

3. Cuidado com listas de discussão Especialmente na linha editorial que você pretende seguir, que aqui no Brasil ainda é bem restrita (e portanto uma oportunidade interessante editorial, boa escolha!), as listas de discussão tendem a ser panelinhas fechadas e qualquer iniciativa de divulgar o trabalho nelas será entendido como spam. Entre, participe, debata outros temas e, claro, quando couber na conversa, divulgue o seu trabalho. As listas são essenciais mas precisam sempre ser entendidas como um centro de debate, nunca como um grande mailing.

4. seleção de originais Quando você abrir para chamada de publicação, precisa deixar claro os seus termos. Deixe claro que é submeter original para análise e que você não responde por telefone, etc. O processo de ler e analisar um original é e deve ser lento para ser bem feito, mas é como em uma festa: quem está na festa se divertindo não sente o tempo passar mas, para quem está na porta esperando, cada minuto é uma tortura. Ou seja, não importa o quão rápido você seja nesta análise, o autor sempre estará ansioso do outro lado. É natural e você precisa respeitar o seu autor, mas não permita que ele o leve à loucura tampouco.

5. gráfica Gráfica boa, felizmente, é o que não falta no Brasil. Esta é a parte mais simples. Contrate um produtor gráfico e peça orçamento (*) em duas ou três gráficas diferentes. O produtor gráfico é o sujeito que vai ver o seu original e vai analisar que gráfica é melhor para o job, que papel é mais adequado, etc. Nem sempre a melhor gráfica é a mais indicada para aquele job. Existem autores e ilustradores geniais (Will Eisner, só para citar logo o rei) que criam suas obras em preto e branco. Dependendo da quantidade de preto, pode ser necessário um papel mais grosso, para não “vazar” do outro lado, mas por outro lado existem gráficas menores que fazem bons trabalhos em preto e branco, por exemplo. E você pode rodar o miolo em um lugar, a capa em outro e juntar tudo em um terceiro, coisa que pouca gente sabe.

Enfim, é uma área com muitos detalhes e, a menos que você tenha gosto pela coisa, contrate um produtor gráfico. A boa notícia é que existem muitos e bons. O custo do profissional se paga com a economia que você faz em adequar o seu job certinho.

(*) Não estranhe se depois de um certo tempo, a gráfica X sempre vier com o melhor preço. As gráficas dão descontos para clientes fiéis e como o seu produtor gráfico sabe disso, vai tentar rodar o seu job sempre nos mesmos lugares (além do fato dele já conhecer a gráfica, com quem falar, onde ir, essas coisas). Depois de umas quatro ou cinco “concorrências” é natural que você escolha algumas gráficas de sua preferência e fique com elas.

6. Distribuição

A distribuição é o calcanhar de Aquiles de todo editor. É o ponto mais dfícil. E é enlouquecedor. A maneira mais simples de não ter vontade e matar um ser humano todo dia no café da manhã é contratar um distribuidor.

O problema é que eles não aceitam poucos títulos no primeiro contrato e cobram uma fortuna. Muita gente, por falta de opção, acaba erguendo as mangas e fazendo a distribuição in house. É nesse momento que você enlouquece.

Cada livraria fecha de um jeito, em uma data, em determinadas condições. Os livros e revistas são sempre deixados em consignação nos pontos de venda e, na data de fechamento, você vai lá e recebe o que foi vendido. Nesta hora tanto você quanto o ponto de venda podem decidir renovar o estoque, manter como está ou não continuar mais (e neste caso você retira, é sempre o editor que paga a retirada, o restante do estoque).

O percentual de venda, que as livrarias chamam de “o meu desconto”, gira em torno de 50% do preço de capa. Se você for muito bom negociador, pode conseguir 40%. Se você for muito bom negociador e tiver muitos títulos, pode conseguir até 35, 30%, nunca menos que isso. Quem está começando paga 50% normalmente.

Os seus maiores custos são distribuição e papel. Sobre a distribuição, temos muito pouco a fazer. Sobre o papel, entra a figura do produtor gráfica que falei lá em cima. Ele vai saber como economizar no papel. E isso significa até mesmo mudar o tamanho da publicação para ter um aproveitamento melhor no corte da folha de papel. Portanto, contrate o produtor gráfico antes de começar a produção do livro.

7. Autores e ilustradores

Este é um contato pessoal e que a gente desenvolve com o passar dos anos. Respeite sempre o seu autor e o seu ilustrador mas se faça respeitar também. Proponha contratos corretos para ambos os lados (sim, isso é possível). Lembre sempre de colocar uma cláusula no contrato que te permita usar uma parte do trabalho para divulgação.

Se for de ilustração, deixe claro que você não vai usar a imagem para outro trabalho mas que precisa usá-la para divulgar o livro. Se for o de autor, deixe claro que você não vai republicar o texto dele sem a sua autorização mas que precisa de trechos para divulgação.

Outra coisa muito importante é cultivar o seu autor. Seja transparente. Mostre a contabilidade a ele (apesar de que eu acho que isso pode ser entendido como uma forma de tortura). Tenha uma contabilidade certinha, aliás. Atenda-o quando possível, tirando suas dúvidas ou simplesmente batendo um papo.

A atividade autoral é uma atividade muito solitária, o autor escreve absolutamente sozinho e sem certeza alguma de retorno e/ou publicação. O editor precisa se colocar como um parceiro do autor e nunca como um negociante. Acredite, tanto você quanto o autor só tem a lucrar com isso.

8. Organização

Você precisa ser muito, muito, muito (eu já disse muito?) organizado. Crie arquivos fup (follow up) para cada pessoa com quem você falar, escrevendo data, horário e conteúdo de telefonema ou email (ou pombo correio, ou sinal de fumaça, ah você entendeu!). Crie cronogramas realistas. Tenha cronogramas, aliás. Planilhas são suas amigas.

Organize a sua agenda por segmento (fornecedores, autores, ilustradores, etc), vai chegar uma hora em que você não vai lembrar se o Fulano da Silva é designer ou ilustrador, por exemplo.

No começo pode parecer que o tempo que você vai gastar para criar estas ferramentas de organização é precioso demais para ser gasto com isso, mas isso vai ser tão útil para você em um futuro breve que vale a pena, juro.

9. Revisores

Português é um idioma que só não é mais difícil que aramaico arcaico. Passe seus textos por revisão, de preferência mais que uma. O meu método pessoal de trabalho é assim (ênfase em pessoal, ok?):

  • Rev1 – sempre do editor
  • Rev2 – um redator, que muitas vezes pode sugerir alguma melhoria em estrutura
  • Rev3 – revisor, para resolver todos os buracos que deixamos na língua pátria.

E, claro, no final volta ao autor. Com o tempo você vai perceber que existem autores que aceitam este trabalho bem e até te agradecem eventualmente e existem aqueles que não aceitam mudança alguma.

É óbvio que você precisa ouvir o autor e muitas vezes existe uma intenção por trás de um erro ou de uma determinada estrutura lingüística, mas você precisa ter muito cuidado (e fugir destes!) com autores intransigentes. O respeito precisa ser bilateral.

Lembre sempre que um original que não se adéqua à sua linha editorial não significa, em absoluto, que o autor não se adéqüe à sua linha editorial e é importante tratá-lo com respeito, respondê-lo quando possível, etc, até porque amanhã ele pode te apresentar um texto fantástico que você vai querer publicar.

Esta relação é sempre muito delicada porque trata-se da criação do autor, mas valorize os autores que entendem que publicação é um processo e que cada etapa é importante para o produto final.

De nada adianta um original bem trabalhado e um serviço porco em gráfica, por exemplo, ou ainda uma ilustração magnífica impressa em um papel tão vagabundo que se vê a frente e o verso juntos. Editar algo, não importa o quê (livro, revista, vídeo, cinema, áudio, etc) é necessariamente um processo onde cada etapa tem a sua importância e o seu valor.

E se o seu autor não entender isso, passe-o adiante, na boa.

Agora, isso também não significa que você é o dono do texto. Você não é. O dono do texto é o autor. E se ele te justificar algo, escute e respeite.

10. Lucro

Pois é… Aqui é o grande X da questão. Editores experientes debatem a questão todo dia. Editores de todos os lugares do mundo não pensam em outra coisa. O mercado está mudando, e muito. A fórmula preço de capa – distribuição, direito autoral, custos de produção, gráfica, etc = lucro ainda funciona mas eu tenho certeza de que por pouco tempo.

Precisamos nos reinventar e, sem saber para onde o mercado vai, é bem difícil acertar. Comece devagar, sem medo mas sem pressa. Edite três, quatro títulos e trabalhe-os bem. Tiragens pequenas. Pense em formas de divulgar os livros que saia do ordinário. Sei lá, é caso a caso, uma história em quadrinho adulta de repente pode ter uma aceitação incrível no circuito da noite, de barzinhos e etc.

Vai dar trabalho mas vale muito a pena. Quem começa agora precisa não apenas ser bom no que faz mas precisa ser melhor do que os que já estão estabelecidos. Se você pensar “ah, a editora grande XPTO faz assim, então isso é bom pra mim também” vai fracassar. Você precisa pensar “ah, a editora grande XPTO faz assim, então eu vou fazer isso e mais aquilo”. Faça sempre mais, pense muito, reflita muito e gaste pouco.

Uma dica final?

Existem editais de governo que você precisa ficar atento, porque são uma venda enorme e valem muito a pena. Acompanhe sempre o site da CBL – http://www.cbl.org.br/ – para ficar informado.

E, claro, boa sorte!

publicado no Carreira Solo em 01 de dezembro de 2008