Assisto compulsivamente a DWTV para tentar enganar o meu cérebro e fazê-lo acreditar de que um dia nós dois – meu cérebro e eu – falaremos alemão.
Ontem estava assistindo a uma matéria sobre uma cidadezinha minúscula nos confins da Alemanha. A repórter tentava (sem nenhum êxito deste lado do Atlântico) nos convencer de que a cidadezinha não era insignificante e que era digna de estar passando na DWTV internacional.
A matéria começou mostrando uma produção caseira de um pão cinza, de nome incompreensível sem auxílios gráficos ou legenda. Em seguida foi para algum tipo de forja. O sono e o idioma me impediram de saber mais detalhes.
Eu lá fazendo um esforço grande para entender o que a moça dizia. De repente começam a falar de Schokolade, assunto que sempre me interessa. Tudo ia bem até que o cachorro do câmera decide dar um close em pedaços de chocolate com amêndoas, servidos em lascas grossas do lado de uma xícara que eu não entendi muito bem se era café com leite muito encorpado ou chocolate quente.
Ainda bem que eu também não consegui entender o nome da cidadezinha porque sabe, milhas acumuladas são para isso mesmo. Que ódio que me deu.
Die Hölle
Inferno
Erster Gesang
Canto I
Auf halbem Weg des Menschenlebens fand
Nel mezzo del cammin di nostra vita
Quando eu me encontrava na metade do caminho de nossa vida,
ich mich in einen finstern Wald verschlagen,
mi ritrovai per una selva oscura
me vi perdido em uma selva escura,
Weil ich vom rechten Weg mich abgewandt.
ché la diritta via era smarrita.
e a minha vida não mais seguia o caminho certo.
Wie schwer ist’s doch, von diesem Wald zu sagen,
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
Ah, como é difícil descrevê-la!
Wie wild, rauh, dicht er war, voll Angst und Not;
esta selva selvaggia e aspra e forte
Aquela selva era tão selvagem, cruel, amarga,
Schon der Gedank’ erneuert noch mein Zagen.
che nel pensier rinova la paura!
que a sua simples lembrança me traz de volta o medo.
Nur wenig bitterer ist selbst der Tod;
Tant’è amara che poco è più morte;
Creio que nem mesmo a morte poderia ser tão terrível.
Doch um vom Heil, das ich drin fand, zu künden,
ma per trattar del ben ch’i’ vi trovai,
Mas, para que eu possa falar do bem que dali resultou,
Sag’ ich, was sonst sich dort den Blicken bot.
dirò de l’altre cose ch’i’ v’ho scorte.
terei antes que falar de outras coisas, que do bem, passam longe.
Mal e porcamente sei dar bom dia em alemão e já estou aqui tentando ler A Divina Comédia, do Dante Alighieri. Não sou metida, não, estou só pegando textos que sei de cor e salteado para treinar. Como conheço o que diz cada vírgula, não preciso parar em cada trema.
Números em alemão são sensacionais. Eles vão pegando uma palavra e juntando com outra, na maior tranquilidade.
0 = null
1 = eins
2 = zwei
3 = drei
4 = vier
5 = fünf
6 = sechs
7 = sieben
8 = acht
9 = neun
10 = zehn
Então, um ser humano normal assumiria que siebenhundertneunundreißig é 793, certo? Errado! Você começa com o 7 (sieben), multiplica por 100 (hundert), aí pega o 30 (dreißig) e soma com o 9 (neun) que está lá no meio, chegando a 39 e aí junta com o que você começou, chegando então a 739!
Não é lindo?
Caso você esteja aí se perguntando, ß se pronuncia ss. E ä tem som de é.
Aí, para facilitar, de vez em quando eles falam 2 como zwo, para não confundir com o drei. Porque, claro, é este o problema.
Dá pra entender perfeitamente porque a psicologia começou em alemão. Tudo doido.
Alemão tem 3 artigos. Masculino, feminino e neutro.
O idioma diz muito a respeito de seu povo.
Além disso, o plural é sempre o artigo feminino.
Ou seja, um grupo de médicos é as médicos, que, por sinal, é o nome de uma banda que eu gosto muito, Die Ärzte.
Divertidíssimo.
Ah, não se deixe enganar: ä se pronuncia é!
Pois é. Decidi (tentar) aprender alemão.
Lá estou eu, na primeira aula, página número oligofrênico1. Intervalo. Ou seja, tinha mal e porcamente acabado de aprender a dar bom dia. Ligo para o meu pai (que atualmente representa 25% de todas as pessoas no mundo que conheço que falam alemão, incluindo a professora), para gastar o meu guten Morgen, é claro. O que ele faz? RESPONDE!
Desaforo.