publicado no Aguarrás, ano 5, número 25, maio & junho de 2010, ISSN 1980-7767
Pegar algo para ler na exaustão de um final de dia pode ser uma injustiça com qualquer autor, mas por outro lado pode ser um bom medidor também. Li Sobrescritos, de Sérgio Rodrigues, numa tacada só, com a leveza que o livro se propõe.
As “40 histórias de escritores, excretores e outros insensatos” passam rápido, com algum sarcasmo e boa dose de ceticismo sobre a profissão de escritor. Algumas passagens, de tão verdadeiras, dão uma vontade tremenda de largar tudo e abrir uma quitanda. Outras nos lavam a alma. Em As razões:
“Ele perguntou a ela por que ela escrevia e ela respondeu que escrevia porque tinha vontade, e ele falou, muita gente tem vontade, vontade não basta, e ela disse mas então você está me perguntando como eu consigo escrever, é isso?, (…).”
Gosto deste conto por várias razões. A primeira é que “porque deu vontade” é a minha resposta para muita coisa e conheço de perto, intimamente, a reação de pânico e surpresa que isto pode causar nas pessoas. A segunda é que o conto inteiro é escrito de uma maneira extremamente moderna, com a pontuação a serviço do clima, da cena, da narrativa de uma forma geral. Gosto muito.
O livro todo, aliás, merece grande destaque no uso moderno da linguagem. Sem se prender a formalismos idiotas e, ao mesmo tempo, sem nem chegar perto – graças a Deus – do hermético, Sérgio Rodrigues consegue conduzir o leitor no ritmo que cada conto pede, como um maestro conduzindo músicas diferentes. A batuta não se perde, o conjunto fica harmônico e quem ganha é o leitor.
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