O problema da auto-publicação

Antes de começar, preciso deixar claro que existem excelentes autores que publicam no esquema da auto-publicação. O livro ser integralmente ou parcialmente pago pelo autor não tem nenhuma relação com o seu conteúdo. Este artigo é apenas um alerta de que não basta escrever e pagar a impressão. Há muito mais entre o Word e a gráfica do que crê a vã filosofia.

A publicação via editor é melhor não porque o editor seja essa maravilha, não, mas porque submete o texto a inúmeras leituras, revisões e a todo um trabalho editorial que na esmagadora maioria dos casos não existe na auto-publicação. O problema é que a auto-publicação é uma prestação de serviços e, como em qualquer lugar, o cliente tem sempre razão. Na hora em que o autor se coloca como cliente e não como uma parte do conjunto necessário para fazer um livro (a parte mais importante, sem dúvida alguma, mas uma parte – carro não é só motor e outras analogias) o autor perde completamente o discernimento do texto.

Dando um exemplo (existem muitos durante toda a linha de produção de um livro): leitores-beta são leitores profissionais (às vezes até mesmo especializados em análise literária) e não aquele seu amigo super legal e inteligente que jurou de pés juntos que faria uma leitura não-tendenciosa do seu livro. A não ser, claro, que você seja amigo de um leitor profissional do porte de um Eric Novello da vida, mas aí ele mesmo com certeza já te falou isso tudo. É melhor inclusive que seja alguém que não te conhece pessoalmente. A separação entre o texto e o que o leitor conhece do autor é uma tarefa que exige muito tempo de estrada e não é para qualquer um. E isso estou falando só da parte da primeira leitura especializada, não estou nem falando de adequação de discurso, de colocação no mercado, de nada disso…

Outro problema sério é a distribuição. Se você só tem um livro – por melhor que seja – para comercializar, os distribuidores sequer te atendem. A editora, por outro lado, liga para o distribuidor e, depois do ok do produtor gráfico da editora, requisita que o caminhão busque os exemplares direto na gráfica. Caminhão, não aquele carro com um enorme porta-malas da sua prima.

O trabalho de design também não é simples. Não, não serve aquele arquivo seu do Word tão lindo já no formato de livro, com até números de páginas. E não, aquela sua amiga artista plástica que tem um clima assim tão legal, tão próximo do livro, que entendeu tudo, não, ela não pode fazer a sua capa. Quer dizer, nada contra ela fornecer uma imagem para a capa, mas capa não é só uma imagem bonita e chamativa com o título grande.

Repare que nem estou falando de copy-desk e revisão. Copy-desk, aliás, é outra questão. O copy-desk está trabalhando a favor do seu texto, não contra. Não mande um peixe enrolado no jornal para a casa do sujeito só porque ele sugeriu cortar 2 parágrafos do seu texto. É claro que copy-desk erra, assim como revisor, assim como o designer, assim como o editor e, pasme, assim como o autor. Não precisa se angustiar, basta conversar e explicar o seu ponto de vista. E, igualmente importante, ouvir o ponto de vista do outro.

O problema da auto-publicação é que, na maioria das vezes, não há troca. É apenas o autor pagando para uma gráfica imprimir o texto. E o produto final sempre reflete o cuidado que se teve com ele. O leitor não é burro. Não o trate como tal.

publicado em 28 de outubro de 2009
no portal Carreira Solo

9 comentários

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Luis Rocha and aguarras, Marcelo Macedo. Marcelo Macedo said: recomendo: RT @aguarras O problema da auto-publicação http://migre.me/a783 [...]

  2. Ju disse:

    Gostei muitao, visse? hehe Cansei de fazer revisao, muito por causa do senhor-autor-dono-da-verdade… So tenho feito leitura tecnica e pareceres, justamente porque ai lido direto com a editora, nada de autores! hehe Oh ego!
    Beijoca,
    Ju

  3. Ju,

    Puxa, obrigada!

    Eu até entendo o autor, é tanto trabalho escrever, é tão visceral que é difícil aceitar alterações. É como um filho, mas assim como com filhos, precisamos muitas vezes ouvir o pediatra (e saber quando ignorá-lo).

    O que mata é quando o autor – e é para este tipo de autor que este post se destina – acha que só o trabalho dele é difícil, que só o trabalho dele importa. Aí é foda e na maioria das vezes eu faço como você: apenas me afasto, não vale o aborrecimento.

    Bjins!!!

  4. comentário mais que merecido, viu?
    :*

  5. Ju disse:

    Pois é bem isso mesmo… Até porque o bom autor é como o bom pai, ou mãe, tem orgulho do seu trabalho-filhote sim, mas não é esnobe, besta, achando que só ele(a) sabe das coisas… Bons pais e mães também sabem que suas crias têm defeitos e que cabem correções, sim, no processo prá um melhor resultado. Bons autores, pais e mães, dialogam, não exigem ou impõe suas opiniões ou vontades… De qquer modo, realmente prefiro fazer as leituras técnicas da minha área. Gostaria só é de poder fazer mais vezes isso! hehe
    É um privilégio poder ganhar a vida lendo, não?
    Beijinho,
    Ju

  6. É, querida, é sim. Por outro lado, basta andar pelos shoppings da vida para ver como tem criança mal-educada, mal-criada, mal-cuidada e mal-amada. E se fazem isso com crianças, imagina o que não fazem com textos!

    Também acho um privilégio ganhar a vida assim (tanto lendo quanto desenhando).

    Milhões de beijos!