De Jano aos blogs: a perpetuação da expressão humana

publicado na revista Webdesign, edição de janeiro de 2010, ano 7, número 73, ISSN 1806-0099
obs: coloco a data aqui igual à de publicação mas sempre respeito o prazo de reprodução

capa da revista Webdesign, edição de janeiro de 2010, ano 7, número 73, ISSN 1806-0099 imagem parcial do artigo "De Jano aos blogs: a perpetuação da expressão humana", de Carolina Vigna-Marú, revista Webdesign, edição de janeiro de 2010, ano 7, número 73, ISSN 1806-0099

Jano é um dos mais antigos deuses do panteão romano. Segundo a mitologia, não era filho de deuses e ganhou sua divindade após um bem-sucedido e longo reinado. É uma divindade exclusivamente romana, não aparece na mitologia grega. É considerado o deus dos portões, passagens, entradas, portas e similares. Normalmente Jano é representado com dois rostos. O que olha para frente é novo e imberbe e o que olha para trás é velho e barbudo. É aquele que percebe todos os ângulos de uma mesma questão, que vê o passado e o futuro simultaneamente. É também quem dá o nome ao mês de janeiro.

Este conceito, de que o passado é tão importante quanto o futuro na compreensão do todo, ficou esquecido durante séculos no Ocidente. Devemos à revolução dos blogs a retomada desta idéia. Passear pelos arquivos de um blog nos dá poderes de oráculo na visão do passado e uma noção mais clara daquele todo específico, ou seja, do “todo” que o blog pretende mostrar.

Jano possui uma chave dupla, é aquele que tem o tempo em suas mãos. A iconografia da chave de Jano é muito similar à das chaves de São Pedro. Quando o Cristianismo surgiu, a maioria das pessoas era analfabeta e a Igreja recorreu a símbolos que já pertenciam ao inconsciente coletivo para conseguir se comunicar. Existem vários exemplos de “cristianização” de elementos iconográficos que já eram utilizados, como por exemplo a luz na cabeça de Apolo (auréola) ou o 3 como número sagrado. O Cristianismo, por sua vez, também empresta seus ícones a outras culturas e outros tempos. Nossa história é orgânica e permeada por diálogos. Não somos frutos apenas de nosso tempo. Somos frutos de todos os tempos.

Acho no mínimo curioso que sejam os blogs os primeiros desta nova Era a falar de monetização. É atribuída também a Jano a invenção do dinheiro-moeda. As moedas romanas mais antigas (c. 225 a.C), inclusive, trazem Jano em uma face. No verso das moedas de prata, cobre e ouro, respectivamente, as moedas mostram: Júpiter em uma quadriga (biga tem dois cavalos, quadriga tem quatro), a proa de um barco e, uma cena de cobrança de tributos devidos a Cesar. Júpiter, só lembrando, é o deus romano do céu, dos trovões e do dia e é, portanto, outro símbolo da passagem de tempo.

Outra coincidência engraçada é o termo navegar/navegador para internet. Teria sido Jano também o inventor do barco, primeiro utilizado em sua travessia da Tessália a Roma. Jano emigrou para a Itália já casado com Carmise[1] (ou Camasena, uma outra grafia possível), com quem teve vários filhos. Seu filho mais famoso foi Tiber, que empresta seu nome ao rio mais importante daquele país, o rio Tibre (em latim Tiberis). Sempre fico na expectativa que surja um navegador chamado Jano com a feature de um histórico mais inteligente do que uma simples lista.

Essa idéia de Jano como aquele que observa os vários ângulos da questão é tão forte que em representações mais recentes, a partir do século II d.C, às vezes é representado com quatro faces e ocasionalmente com uma face feminina e outra masculina.

O reinado de Jano foi uma Idade de Ouro, com prosperidade, abundância de recursos naturais, liberdade e paz absoluta. Existe uma estátua de Jano com Belona[2] que mostra o deus delicadamente impedindo a passagem da moça. Belona é uma deusa da guerra. Jano é pacífico. Ele não é bruto, não derruba a guerreira a golpes de ignorância. Com sutileza, quase com ternura, faz com que ela não siga adiante. Assim foi todo o reinado de Jano: pacífico e gentil. Estamos muito longe desta realidade, infelizmente, mas online nos esforçamos muito para atingir esta utopia. Nos organizamos em comunidades, buscamos informações (o saber é o recurso mais valioso de nosso tempo), tentamos ganhar dinheiro e procuramos conviver de forma pacífica. Queremos todos, anacronicamente, um reinado de Jano.

Talvez a grande maioria de nós mantenha vivos os arquivos de seu blog sem refletir que isto pode ser uma expressão do desejo humano de perpetuar-se e de ser compreendido. Não mantemos nossos arquivos, como crêem alguns, (apenas) como prova do tempo de estrada ou para o Sr. Google ter o que buscar. Mantemos nossos arquivos como registros nas paredes das cavernas de que ali estivemos, de que pensamos, criamos, erramos, acertamos, vivemos. A vontade de expressão caminha junto com a vontade de registro desta mesma expressão e são, ambas, fundamentalmente humanas e é este fator, e não a facilidade de publicação, que torna o blog forte e, ao mesmo tempo, incompreensível para as grandes mídias habituadas a atender uma necessidade mercadológica e não uma necessidade atávica de poética pessoal.

A construção de nossa poética pessoal, aliás, é o que nos leva a usar ferramentas como o Twitter, Facebook e afins. A chave aqui é “pessoal” e é este o grande problema com o branding e outros jargões em inglês que o marketing adora inventar, mas isso é conversa para outro artigo.

E eis que então chega janeiro e, com ele, todos aqueles clichês de Ano Novo. Não seriam clichês, entretanto, se não tocassem em emoções próximas a nós. Fica aqui, portanto, o meu voto de que 2010 consigamos refletir sobre o passado e o futuro e que encontremos, de alguma maneira, o Jano em nossas vidas.

 



[1] PALAZZI, Fernando Piccolo, Dizionario di Mitologia e Antichità Classiche, Milão, Mondadori, 1925.

[2] http://commons.wikimedia.org/wiki/File:N29Janus-u-Bellona.jpg

comentários fechados