27 June 2008, em: artigos

Mube & Von Uhlendorff

A arte começa onde a imitação acaba.” – Oscar Wilde

O Mube – Museu Brasileiro de Escultura mantém um atelier com aproximadamente 70 alunos por semestre. O Museu conta ainda com cursos regulares de história da arte, somando quase 400 alunos para 14 professores. No atelier, aulas de pintura, escultura, cerâmica, desenho e arte-inclusão para portadores de deficiências físicas. Em escultura usam argila, papier mâché, cimento, gesso e pedra sabão.

Clarissa Von Uhlendorff - fotografia de Elvira VignaFui ao Mube com firme propósito de ver tudo, não apenas as peças no atelier mas o fato inegável é que os alunos, de uma forma geral, me interessam sempre mais que os artistas consagrados. Uma aluna estava expondo na lojinha, inclusive. A lojinha do Mube, aliás, é um caso interessante: é administrada pela ONG Ação, Ética e Cidadania e promove novos artistas.

Nos recebeu a gentil coordenadora do atelier, Eneida Fausto. Soube depois que ela é responsável pelas aulas para as crianças também.

Mantendo a minha já declarada opção por escrever apenas sobre aquilo que gosto, quero lhes falar sobre Clarissa Von Uhlendorff, aluna.

Von Uhlendorff cria grandes esculturas em papier mâché que parecem ferro. E a dimensão usa o ar, o vazio e então enche de leveza o seu ferro de papel, em quase uma brincadeira do papel-ferro com o leve-pesado, com o vazio-objeto. E aí nessa dança ela ainda coloca mais um elemento, esse estrutural, bem-humorado: ela faz bonecos soltos e juntos ao mesmo tempo, brincando dessa vez com a noção de indivíduo e conjunto.

Clarissa Von Uhlendorff - fotografia de Elvira VignaExiste um aspecto básico, que todo mundo conhece, de que a escultura, o urbanismo e a arquitetura tratam do e existem no espaço público. E são, necessariamente, influenciados pela política (de pólis, lembra?), servindo à política vigente ou a questionando. As grandes peças robustas, colossais, monumentais, que tocam o céu, fazem apologia ao status quo. Refiro-me a esculturas como o Monumento às Bandeiras, em São Paulo ou ao Monumento aos Pracinhas, no Rio de Janeiro. São obras feitas para demonstrar grandeza, magnitude e, por serem públicas, demonstram a grandeza do público, ou seja, do Estado. Existe ainda a opção religiosa que, na verdade, se formos pensar bem, segue a mesma lógica e serve ao mesmo status quo.

Quando a escultura moderna consegue transcender essa fácil tentação da austeridade e robustez e torna-se orgânica e leve, como em Von Uhlendorff, e consegue finalmente, com sua mostra do vazio e na liberdade de formas, uma salutar rebeldia. Em 2008, qualquer coisa diferente de transcendente e moderno é cópia (de Rodin, de Michelangelo, etc). E inovar em escultura quer dizer se libertar, quer dizer se soltar, quer dizer entender e assimilar o vazio. O vazio é rebelde por natureza. Os europeus só foram entender o zero com Fibonacci, em 1228. Vazio não é um conceito simples. O livre não é simples (só parece).

Von Uhlendorff é livre. E isso talvez assuste os curadores menos ousados. Perda deles. Von Uhlendorff deveria estar povoando os jardins do Mube e não contida dentro de um atelier.

Tenho certeza de que em breve estará.

publicado no Aguarrás, ano 3, edição 13.

5 June 2008, em: ficção

O cheiro da poeira

O cheiro da poeira, no começo, era a única coisa que me lembrava onde eu estava. É assim, o cansaço é tanto que você primeiro só senta. Depois encosta. As pernas estão pesadas e o corpo não obedece mais. O playboy babaca olha com desprezo. Foda-se ele. Quem não vive minha dor não pode falar da minha vida. Os braços se acomodam, encontram o lugar. Ali, perto da porta fechada. Portas fechadas, história da minha vida. Uma vez me perguntaram sobre o chão. O chão não é ruim. As pedras portuguesas guardam calor durante o dia e esquentam à noite. É delas também que vem o cheiro da poeira. É um cheiro que não desgruda, uma catinga que banho não tira, é um tipo de tatuagem. É um tipo de acalento. Chico Buarque, aquele puto, deve ter morado na rua. Ah, eu dava para aquele homem. Então é assim: para dormir na rua você primeiro precisa deitar e, para deitar, primeiro precisa sentar. É uma coisa do cansaço, sabe? Eu não desisti. Quem desiste não vem trabalhar, não levanta no dia seguinte e se entrega à marvada. Estou aqui porque preciso. Ninguém dorme na rua porque quer.

publicado no 20 Linhas

2 June 2008, em: artigos

Webdesign nº 54 - Networking

Matéria sobre Networking, revista Webdesign de junho de 2008, número 54.

Matéria sobre Networking, revista Webdesign de junho de 2008, número 54. Matéria sobre Networking, revista Webdesign de junho de 2008, número 54.

14 May 2008, em: artigos

Yuba na Pinacoteca

A fotografia documental existe há mais de cem anos e talvez por isso eu tenha saído da exposição de Lucille Kanzawa na Pinacoteca com a sensação de dejá vu que sempre tenho com imagens muito datadas.

Kanzawa conta uma fatia da história da comunidade japonesa Yuba, em Mirandópolis no interior de São Paulo. A história é comovente: ela é filha do médico que atendeu gratuitamente por décadas a comunidade. O cartaz explicativo nos conta que a cultura japonesa considera como irmão aquele do mesmo signo e aquele que está próximo.

Yuba na Pinacoteca As fotografias são corretas, como manda o fotojornalismo, mas esta correção deixa também transparecer uma certa estagnação, inclusive estética.

O Japão me fascina. De um lado, Ukiyo-e (que eu tanto amo), de outro tecnologia de ponta e uma modernidade mais veloz do que sou capaz de dar conta. Amo este sincretismo de tempos tão diferentes. Acredito, honestamente, que nenhuma outra cultura expressa, cria e convive com isso tão bem.

Infelizmente, entretanto, não encontrei esta ambivalência na (ótima) cafeteria da Pinacoteca. Encontrei fotografias que não conseguiram vencer o seu próprio veículo e ficaram presas em ser fotografias stricto sensu.

Agora, vá à Pinacoteca. Veja os Ukiyo-e e aproveite para tomar um café no andar debaixo e ver as fotografias. A exposição da Kanzawa é gratuita e a de Utagawa Hiroshige só custa 4 reais (2, meia). A Pinacoteca é no metrô da Luz e mesmo que você só vá tomar água olhando árvore já é bom.

(parte integrante de um texto maior, escrito a 4 mãos com Elvira Vigna e publicado no Aguarrás)

7 May 2008, em: artigos

Concursos de fotografia

publicado no Carreira Solo

Sou fotógrafo mas (ainda) não sou conhecido

Concursos fotográficos podem ser um bom início. Em um mundo ideal, assessoria de imprensa seria bom, mas nem sempre isso é po$$ível. Então, encarne você mesmo seu lado divulgador e se inscreva em concursos para fazer seu nome aparecer.

Existem alguns concursos tradicionais, como o da National Geographic, da Nikon ou o Pilsner Urquell.

Nestes casos, ficar entre os 3 primeiros colocados é garantia de boas matérias na mídia especializada e de bons clientes no futuro.

Outros concursos que merecem sua atenção

Muitos destes concursos estão com inscrições abertas, é bom ficar atento!

Dicas rápidas

Mesmo com tantas “janelas” possíveis, existem boas práticas para se sair bem em concursos de fotografia. Separei algumas delas e se alguém tiver mais, é só comentar.

  • Leia com atenção as regras
  • Pesquise sobre vencedores de anos anteriores
  • Envie o máximo de fotografias permitido
  • Quando for enviar um resumo biográfico seu em outro idioma, peça para um professor ou tradutor revisar para você. Os idiomas são vivos e, mesmo você se considerando fluente no idioma, um profissional da área saberá melhor adequar e modernizar o seu texto.
  • Se você tiver cartão de visitas, é de bom tom enviá-lo junto com o material, mesmo que em português e com um telefone que a organização do concurso jamais utilizará.

Boa sorte!

1 May 2008, em: artigos

Fotografias na feira

publicado no Aguarrás

Passear no Ibirapuera já é bom, (re)ver fotografia de qualidade é melhor ainda. A SP Arte foi um grande feirão comercial. Esse negócio de vender arte é sempre uma incógnita para mim. É um mercado tão simples e fácil de entender quanto física nuclear quântica. Por este motivo, resolvi abstrair o lado comercial e focar apenas no que era bom, no que eu gostei. Vamos a estes, então.

No Instituto Moreira Salles tinha José Medeiros, Hans Günter Flieg, Thomas Farkas, Maureen Bisilliat, Marcel Gautherot e Carlos Moskovics. Em miúdos, nenhuma grande novidade, mas grandes qualidades. Farkas (e seu fotoclubismo), o modernismo comercial de Günter Flieg e o húngaro Moskovics tem pouco mais que a época em comum. Estas organizações por data, apesar de extremamente comuns, sempre deixam a sensação de uma certa simplificação. Por outro lado, as ampliações eram todas boas, grandes, feitas para vender.

A Baró Cruz levou Alberto Simon, Cláudia Jaguaribe, Michael Wesely e Lina Kim, em uma curadoria que me agrada mais. A Lina Kim, sem dúvida alguma a minha preferida desta galeria, tira fotos de ambientes usados, marcando a presença humana sem mostrá-la diretamente. Eu já conhecia o trabalho de Kim e sempre tenho esta mesma melancolia ao vê-lo.

Rodrigo Braga, na Amparo 60

A galeria Amparo 60 (PE), tinha muitas obras interessantes mas eu fiquei hipnotizada pelo Rodrigo Braga. Ele tem uma preocupação (que compartilho) de que a idéia deve ser uma escolha anterior à técnica, então o resultado final é um discurso absolutamente coerente e sólido. A idéia define a técnica, não o contrário. Braga faz isso com maestria e usa todos os recursos à mão para que o conceito não se perca. Ao mesmo tempo, a sua fotografia é impecável e mostra que, mesmo posterior, a técnica não pode ser esquecida ou desvalorizada. Bravo, Braga!

Marcelo Cidade, na galeria Vermelho

A Vermelho tinha muita coisa misturada, mas de fotografia me chamou a atenção o Marcelo Cidade, com o suporte da fotografia dialogando com a fotografia, que dialoga com o fruidor, que dialoga com o espaço, que… Enfim, muito bom.

Mauro Piva, na Fortes Vilaça

A Fortes Vilaça (SP) tinha muitas obras interessantes e aqui tiro uma licença para comentar o trabalho de Mauro Piva, que não é fotografia e sim aquarela sobre papel. O trabalho dele é um conjunto de homens sem rosto, em pequenos quadros coloridos. As posições são bem-humoradas, quase que um convite ao lazer, ao prazer.

Deixei, de propósito, a Tempo por último. Para quem não sabe, a galeria Tempo (RJ) tem tradição em fotografia e era lá, justamente, que eu esperava encontrar a maior quantidade de obras fotográficas. Dito e feito. A maioria já era velha conhecida, como a Pat Kurs e suas polaroids ou o German Lorca e seus pratos voadores, ou mesmo como a Isabel Löfgren e o Felix Richter, um dos meus fotógrafos prediletos. Até Sebastião Salgado tinha por lá. O que eu sempre gosto na Tempo é a curadoria. É difícil preparar obras para exposição, especialmente dentro de um determinado foco, como venda ou crítica. A Tempo sempre surpreende com o bom gosto e o bom humor de suas organizações. Colocar os pingüins e a Serra Pelada, ambos do Sebastião Salgado, como um espelho um do outro e, ainda por cima, colocá-los vizinhos a Antonio Saggese necessita de um olhar muito bem-humorado.

As fotografias na SP Arte provaram é possível unir qualidade e o cuidado de uma boa curadoria com o comércio e, espero, boas vendas.

25 April 2008, em: artigos

Devo mandar o registro autoral junto com os originais?

Devo mandar o registro autoral junto com os originais?

publicado no Carreira Solo

Pedro Cruz trouxe a dúvida, eu comentei lá no post, mas como aquilo que serve a um, muito mais intensamente serve a muitos, transformei o comentário em post.

Ele nos pergunta se, ao enviar nossos originais para análise é aconselhável enviar o registro autoral da obra em questão.

Olha, regra geral, fazer isso é bobagem e dá um recado ao editor que você não confia nele, além de parecer um início ruim de relacionamento. Para ajudar a clarear a idéia dos demais leitores aqui do Carreirasolo.org separei alguma dicas bem iniciais que, espero, sejam complementadas por vocês, leitores.
Segurança, confiança e envelopes para todos

  • Para editoras grandes e conhecidas, como Cia das Letras, Rocco, etc, eu nem me daria ao trabalho de registrar a obra antes, a editora mesmo faz isso.
  • É muito comum que a versão a ser impressa fique muito diferente do que o autor considerou na hora de registrar a obra. E aí isso pode ser uma dificuldade para você e para a editora, na hora de registrar a obra como foi publicada (mesmo nome/autor com a mesma sinopse, a BN não vai aceitar).
  • O mais importante é que você se sinta seguro e confiante na hora de enviar o seu original e se registrar antes é importante, registre. Mas guarde com você o registro até o “ok” do editor, aí você apenas o informa. Eu não aconselho a fazer nem isso, entretanto. Existem outras soluções possíveis. Por este motivo, o das inúmeras revisões, edições, copy-desk, etc, normalmente a gente deixa para registrar o livro pouco antes de ir pra gráfica.
  • As editoras não tem nenhum interesse em roubar o seu original e muito menos estão dispostas a jogar a sua imagem no lixo por causa de um livro, mas eu entendo a insegurança de enviar o seu “filho” sem conhecer quem vai recebê-lo.
  • Então, para que você se sinta seguro em enviar o seu original para análise e, ao mesmo tempo, não caia nesse problema das revisões, te aconselho a fazer o que o Sid Field contou que faz em uma entrevista: envie para você mesmo, em um envelope lacrado, em carta registrada, o seu original. Não abra quando receber. Guarde este envelope. Se precisar, só o abra em frente a um juiz. A data dos Correios vale como prova jurídica. Desta forma, você se protege e ao mesmo tempo não entra em conflito com a editora e/ou com a Biblioteca Nacional.

Resumo da Ópera
Você é um autor seguro, sabe o valor de sua obra e, em uma editora decente, não será roubado. Mas como o seguro morreu de velho, e com alguma poupança na Suíça, custa nada se auto presentear com uma carta semi-anônima, certo?

14 April 2008, em: artigos

Como montar meu portfólio online?

Como montar meu portfólio online?
publicado no Carreira Solo

Depois de muito trabalho você conseguiu juntar um bom material e está na hora de montar um portfólio online . E agora? Junta tudo e manda? Usa flash, faz na unha ou em um CMS? Domínio próprio ou Flickr? Nem sempre começar é fácil.

Escolhas e mais escolhas. Algumas delas, no entanto precisam ser tomadas antes do processo de criação do seu porfólio para que você não caia em erros comuns de quem está começando. Outras têm a ver com o processo de criação do material em si. E tem até aquelas que só lembra quem está pensando em divulgar seu trabalho em escala planetária, o que é o mínimo em tratando-se do mundo de hoje.
Primeiro passo: selecione só o que há de melhor.
Normalmente eu recomendo a todos que escutem outras pessoas, que peçam opiniões, até por um vício da profissão. Mas esta é a hora de ser egoísta, egocêntrico, arrogante e fechado. E meter a mão na massa!

O seu portfólio precisa conter apenas o que você acha que tem de melhor . Dane-se o que o cliente achou. Compre um bom livro para a sua (seu) namorada(o) ficar ocupada(o) enquanto você escolhe as suas fotos ou ilustrações. Tranque a porta do seu escritório/quarto. Feche-se ao mundo. Essa é e precisa ser uma escolha absolutamente pessoal. Escolher o nosso melhor material exige um esforço, tempo, distanciamento e desprendimento que a gente só consegue com muita paz. Não faça isso correndo. Coloque suas músicas favoritas. Faça tudo com calma e privacidade.

Tenha critério . Não tenha dó de descartar aquela ilustração que você sabe que poderia ter ficado melhor mas que custou dias de trabalho. Jogue para escanteio sem piedade aquela foto que todos gostam menos você. Um portfólio pequeno e bem selecionado é infinitamente melhor que um portfólio enorme onde qualquer coisa vale.
Segundo passo: hora de organizar o trigo
Depois dessa etapa “ostra”, vem a hora de organizar o material. É aí que a maioria dos profissionais se perde.

O nosso editor Mauro Amaral fez um post ótimo sobre o tema, e ensina uma regra ótima para ajudar nessa etapa. Não deixe de ler.

Lembre-se que o seu futuro cliente não está nem um pouco interessado em saber com quem a Maria se casou ou como é o nome do cachorro do vizinho. Ele quer saber se você sabe fazer portraits bem, por exemplo. Ele quer saber se a sua ilustração vetorial tem qualidade ou o estilo que ele precisa. Então, organize o seu portfólio de forma que faça sentido para quem está comprando. Pode ser por técnica (ilustração vetorial x lápis), por cor (fotografia PB x cor), por tema (natureza, portraits, natureza morta), linha narrativa (ex: fotógrafo português Bruno Espadana ), etc. Qualquer coisa menos “viagem a Itaboraí” .

O estilo do portfólio também é muito pessoal e qualquer um vale. Pessoalmente, não gosto de flash porque dificulta a mídia espontânea gerada pelos FFFound da vida. E, bem, mídia espontânea é algo que nós sempre queremos.
Terceiro passo: Domínio próprio ou plataforma livre?
Os dois! Se você puder ter um domínio só seu, ótimo! Mesmo com um endereço só seu, não é bom desprezar os mais conhecidos.

Sites como o Flickr , o CarbonMade e o Picasaweb são instrumentos de divulgação importantes e não podem ser desprezados. Use-os a seu favor. Eles tem ferramentas de busca interessantes, mais acessos do que você e eu juntos jamais teremos, e são referência para quem não sabe onde começar a procurar.

Hoje em dia o editor não vai mais ao Google procurar fotógrafos ou ilustradores, vai direto a catálogos, sites especializados, Flickr , FFFound . Ninguém tem mais paciência nem tempo para ficar garimpando nos sei-lá-quantos milhões de resultados dos buscadores. Seu cliente vai direto em sites com rankings, comentários, etc. E, uma vez vendo algo que agrade, entra no site pessoal do artista para ver e saber mais, entrar em contato, etc.

Não cometa o erro que eu fiz com toooodo o meu portfólio: coloque seu nome e/ou url em cada jpg que publicar. Vocês não acreditariam se eu contasse em quantos lugares já vi meu trabalho reproduzido sem qualquer tipo de crédito ou link. Uma boa forma de diminuir esse problema é “assinando” as imagens.

Dependendo to tipo de trabalho que você desenvolve, as galerias de arte online podem ser uma boa opção também, mas a maioria depende da aprovação de um curador, não são registrar-login-upload.
Quarto passo: se colocou o ovo é hora de cantar!
Saia por aí divulgando o seu trabalho! Comece com blogs de amigos, essas coisas. É bom fazer um test-drive do seu material antes de enviá-lo a possíveis clientes para evitar constrangimento como uma url quebrada ou outra besteira do gênero.

Um bom início é enviar o link do portfólio com uma minúscula apresentação (coisa de 2 frases, sério) para agências de publicidade. Na Fenapro (Federação Nacional das Agências de Propaganda) tem listas e mais listas das agências, organizadas por sindicatos estaduais e por cidade.

Como você vai fazer o fup depois, comece pela sua cidade, para evitar os horríveis interurbanos. Não se esqueça de fornecer uma forma de contato viável e ativa.

Boa sorte!

10 April 2008, em: artigos

Como faço para trabalhar de fotógrafo freelancer numa revista internacional?

Meu editor no Carreira Solo, Mauro Amaral, gentil como sempre, sugeriu que um comentário-resposta que escrevi fosse transformado em um post inteiro . Como se não bastasse o apoio dele (e bastaria!), o Mauro ainda fez uma super revisão e copy-desk que até me fazem soar inteligente. Fiquei muito feliz. Obrigada, Mauro!


Como faço para trabalhar de fotógrafo freelancer numa revista internacional?

Você tem uma câmera. Você tem um estúdio. Você tem até talento e um belo portfólio. Mas isso não é tudo quando se trata da vida de fotógrafos freelancers e mercado editorial.

Sempre dá para chegar melhor e mais rápido onde se quer acumulando conhecimento e experiência de outros trabalhos e desafios parecidos.

Reuni aqui algumas dicas baseadas em minha experiência que, claro, estão abertas a sugestões e adendos. Este post começou como um comentário na minha primeira participação aqui no Carreirasolo.org e, portanto, é um “work in progress” .
Regra Geral
Para começar, revistas como a National Geographic , acredito, costumam trabalhar de duas maneiras:

1 - convite (eles entram em contato com o fotógrafo para um determinado projeto) ou,
2 - projeto (você envia um projeto, normalmente já meio encaminhado, e eles aprovam).

Até onde eu saiba os fotógrafos do staff deste tipo de publicação são headhunted , ou seja, escolhidos por eles e não selecionados por contato direto.

A maioria das publicações possui regras muito definidas e claras sobre colaborações e possíveis contratações. A National Geographic , só para citar nosso exemplo, não é exceção e tem até um Faq sobre o assunto .

E de nada adianta você tentar vender algo para alguém que não quer comprar. Sempre haverá alguma publicação procurando o material que você tem, é só uma questão de procurar e se adequar.
Dicas
Você tem portfolio online? Pode ser uma boa forma - mesmo que em um Flickr ou um Carbonmade da vida - de ser visto, conhecido e chamado para os assignments.

Outra forma bastante eficaz de ser contratado é pertencer a uma agência de imagens. A própria Corbis , por exemplo, avalia portfolios para inclusão em seu banco de dados de fotógrafos. Isso vale para qualquer tipo de publicação.

Vale a pena, mesmo que talvez não financeiramente no início, entrar para organizações grandes como essa por que são eles que os editores procuram quando querem alguém novo.

Outro caminho, mas isso é apenas para poucos felizardos, é conseguir um agente , ou um “art dealer ” para continuar nos jargões (e facilitar a sua busca no Google). Conselho: quando você conseguir um agente lembre-se sempre de enviar o contrato para algum advogado da sua confiança. Não assine nada antes de entender completamente as consequências do que você está assinando, ok? A grande maioria dos agentes de fotografia é correta e profissional mas infelizmente ética não é uma lei da física.
Enquando isso…na terra dos papagaios…
Isso tudo que falei acima é em termos de mundo. Quando falamos de Brasil isso é verdadeiro também mas o poder do boca-a-boca ainda é muito grande e um contato com editores diretamente pode ser um bom caminho.

É legal também acompanhar algumas revistas do meio , para começar a saber quem é quem na indústria. Recomento da Editor & Publisher , a Publishing News inglês e o Publish News brasileiro (tem até uma newsletter).

Estas revistas falam muito do mainstream , e muitas excelentes publicações e/ou editoras ficam de fora, mas ainda assim vale acompanhar como termômetro do que está em moda e, conseqüentemente, de que tipo de trabalho estão “comprando”. Por falar em “comprar”, é bom sempre dar uma espiada na Media Job Market também.

Importante: lá fora existe a distinção entre o “editor” e o “publisher” . Normalmente quem bate o martelo final sobre imagens é o publisher, não o editor. São poucos os lugares como o Brasil, onde o editor e o publisher são uma pessoa só.

Ah sim: aconselho a primeiro fazer um portfolio online e depois enviar cartas curtas e simpáticas - (curtas, já falei curtas? curtas é importante!) - para os editores se apresentando e dando o endereço do seu portfolio.

Não esqueça de fazer o famoso fup (follow-up) , ou seja, ligue e pergunte se recebeu, se viu, se gostou, essas coisas. E claro, não esqueça de fornecer formas diferentes de contato (email, tel, celular, sinal de fumaça, qualquer coisa que você atenda sempre).

Os periódicos de natureza documental e/ou científica costumam funcionar muito mais por projeto. Vamos documentar as antas no cerrado! Aí você vai, escreve o projeto, apresenta e manda. Depois de você já ter feito um projeto desses, passa a ser conhecido e considerado por aquele periódico no quadro fixo.
Para fechar
Eu estou preparando um artigo com o perfil das editoras brasileiras, o que cada uma prefere publicar, endereço de contato, etc. Tá dando um trabalhão mas vai valer a pena. Será uma fonte de consulta valiosa para todos que quiserem enveredar por esta aventura que é publicar e…enfim…ser lido.

28 March 2008, em: artigos

entrevista

Entrevista publicada no Carreira Solo.

Carolina Vigna-Maru debate quantro pontos cruciais para o mercado editorial.

Acompanho o trabalho de Carolina Vigna-Maru há algum tempo e sempre o vi como uma mistura exponencial de disciplinas várias como música, literatura, fotografia e ilustração. É o tipo de profissional que você olha, olha, não entende direito o que faz, só sabe que faz muito bem. O convite para ser uma das colaboradoras do Carreirasolo.org em sua nova fase veio naturalmente, em rápida troca de e-mails: Topa? Claro. Deixa eu explicar como vai ser…Não precisa, eu topo. Coisa de quem trabalhar o bem, sabe?

E foi ao trabalhar para o bem, mantendo este e outros sites, que acabei por descobrir e realizar que Carolina tem mais de 20 anos de mercado editorial tendo trabalhado com tanta gente de peso, dentre eles o Domenico Demasi, e que em posts que já publicou e continuará a publicar, os integrantes desta comunidade aqui terão tanto a ganhar quando a investir em si mesmos.

A entrevista que se segue teria por função, basicamente, apresentá-la aos leitores que ainda não leram o “Como enviar meu original para análise“, sua primeira colaboração por aqui; só que acabou se transformando numa fonte de idéias bem interessantes para quem ousa, ousará ou já ousou, levar sua obra ao público naquele formato retangular que cheira tão bem (não, não é bolo de tabuleiro), que convencionamos chamar de Livro.

1. Livro X Blogs

(explicando: fala-se muito do surgimento de uma nova geração que publicará somente na web, principalmente através de blogs. É isso mesmo, ou é só falácia para atrair leitores e depois você lançar seu livro pela Companhia das Letras?)

Mauro, estamos vivendo uma transformação e como não poderia deixar de ser, temos mais perguntas do que respostas. Eu não tenho dúvidas de que a internet é o grande publisher da nova geração, assim como eram os jornais e revistas na época do Machado de Assis.

Assim como já naquele tempo a publicação nas mídias de maior circulação era um grande filtro onde só os melhores se tornavam autores de livros publicados, a internet hoje cumpre esse papel, de um grande mostruário, um grande sarau literário. E é aqui (aqui, internet) de onde estão e continuarão surgindo os melhores novos talentos.

Então, não é falácia mas tampouco é o objetivo máximo do autor. É parte do processo. Você gosta de escrever? Tenha um blog! Não temos atualmente um exercício melhor ou uma vitrine maior.

Ainda é preciso resolver uma série de questões como direito autoral, proteção ao autor, cópias ilegais e, principalmente, de onde vem o dinheiro. Quando falamos de um livro impresso tradicional, todos sabem mais ou menos como se dá o processo: o editor paga ao autor um percentual na venda do livro, simples assim.

E na internet? Quem paga o autor? Somos privilegiados em não apenas presenciarmos esta revolução mas em fazermos parte dela. Digo revolução porque desde Gutenberg o mercado editorial não muda tanto. Ando curiosa para saber quem serão os padres copistas de agora.

Não sei te responder se a internet será a única forma de publicação. Acredito que não. Surgirão outras, talvez híbridas, mas é impossível prever os caminhos que a tecnologia nos abrirá.

Agora, a internet não deve e não pode ser desprezada ou entendida apenas como um mero suporte. É um ambiente rico, vivo, orgânico e volátil. Por isso mesmo, os editores tradicionais, acostumados ao “rodou na gráfica já era”, tem muita dificuldade de compreender essa nova relação com o texto, com o autor e com o leitor.

2. Internet X Papel

(explicando: A velha questão dos formatos que se anulam ou não. Procurarei ser imparcial, mas claro, Internet não têm cheiro de papel velho. Mas por outro lado, papel derruba árvores para acontecer)

Já ouvimos isso antes, com a televisão e o rádio ou com o video e o cinema. É uma grande bobagem. O ser humano é multifacetado por natureza e nós somos capazes de absorver e lidar com diversos estímulos diferentes. Os meios se complementam. A internet ressucitou o rádio. O dvd ajuda o cinema.

É claro que quem não souber o que está fazendo vai dançar. Um meio não é uma adaptação do outro, é um meio único, independente e singular e deve ser respeitado como tal. Não envie para um jornal impresso de grande circulação um post de blog achando que será publicado como matéria e não publique no seu blog uma tese de mestrado. Acredite, ninguém vai ler. Respeite as características de cada meio que estes lhe serão gentis.

3. Autor X Editora

(explicando: Quem manda em quem, quem veio antes…até que ponto precisamos de editora para lançar nossos livros etc etc Será que cabe um parelelo com a indústria fonográfica? No lo sé…)

Ninguém manda em ninguém. Um não vive sem o outro. A questão da indústria fonográfica, me parece (não sou dessa área e a minha relação com a música termina no play), passa muito pela distribuição e pelo marketing. Livros também precisam de distribuição e de marketing mas precisam ainda mais de um critério, de uma análise maior. A música pode ser absorvida em conjunto, em público e involuntariamente.

Quantas músicas você já não ouviu em um filme, uma novela, no táxi, na rua ou em outros lugares em que a decisão do que ouvir não fosse sua? Quantos livros você já leu sem querer, por acaso, na rua, no táxi? A relação é outra, o sentido é outro, a percepção é outra, o mercado também precisa ser. O papel da editora pode ser dividido em 3 etapas de igual importância:

  • A análise do original, quando o livro ainda não entrou em produção.
  • A produção do livro
  • A comercialização do livro

Durante a etapa de análise, o editor nada mais é que um leitor muito, muito, muito treinado. Depois, na produção do livro, o editor precisa de um olhar bifurcado, com um olho focado no conteúdo e outro na forma. Um livro fantástico com o formato errado pode morrer por falta de espaço na estante, por mais ridículo que isso pareça. E, claro, o inverso é verdadeiro. A comercialização do livro não inclui apenas lidar com as livrarias (que já seria suficiente para enlouquecer um ser humano – cada um fecha em um dia e de um jeito, é coisa de doido) mas também toda a questão do marketing, da disposição, da possível relação com escolas/universidades, envio para jornalistas, etc. Dá muito trabalho fazer um livro. Comme il faut, pelo menos.

Textos precisam de várias leituras, de muitas e muitas revisões, de ajustes. Escrever é difícil. Publicar é difícil.
Há também uma outra coisa, que é uma regra não-dita e injusta, de que o livro publicado sem uma editora é o livro que não conseguiu “nada melhor” e portanto tratado como carne de segunda pelo mercado e pelos jornalistas e críticos literários. É injusto e eu não concordo com isso mas é assim.

O meu conselho é: não conseguiu um editor? Transforme o seu texto em outra coisa, um ebook, uma história em quadrinhos, entregue para aquele seu amigo roteirista, faça uma animação, um espetáculo mambembe na praça, enfim, evite com todas as suas forças essa publicação independente que só vai fazer você perder dinheiro, prestígio e tempo.
Tem uma piada velha: “como um editor se suicida?” / “pula do alto do seu estoque”. Isso o editor, com toda uma equipe e uma máquina comercial trabalhando para ele. Agora imagine o autor independente. O coitado não tem a menor chance.

4. Mercado X Qualidade

(explicando: escrever para o mercado ou escrever aquilo que você acha muito bom)

Posso te dizer que conheço 2 tipos de autores. Os que escrevem por necessidade, uma necessidade quase física, que se não escreverem adoecem. A estes, digo: escrevam o que acha bom. Conheço alguns poucos que escrevem com o mesmo distanciamento emocional com que um programador resolve um problema em PHP. Estes escrevem para o mercado.

A questão é que o editor, que vai analisar o texto, tem uma visão (na maioria das vezes) radicalmente diferente do autor do que seja o tal “mercado”. Além de entrarem na equação questões como o foco que o editor precisa naquele momento (como um edital do governo para escolas públicas versus uma feira altamente comercial no exterior, por exemplo) ou mesmo que tipo de verba a editora tem para que tipo de linha editorial.

Falando de literatura, existem editoras maravilhosas (como a 7Letras, só para citar uma) que vivem com títulos não-comerciais, que não foram escritos para o mercado.

Quando o assunto é livro técnico, a realidade é outra, aí quem manda é mercado. Muitos títulos são inclusive encomendados. Em literatura / ficção não é assim.

Seja fiel àquilo que você quer. Na vida, não só nos livros. O resto se resolve. Como diz meu pai, se não teve solução é porque ainda não acabou.


Página inicial do mesmo site, na seção de indicações, a chamada para esta entrevista:
inspiração @ Carreira Solo

12 March 2008, em: artigos

Como enviar meu original para análise?

publicado no Carreira Solo


Como enviar meu original para análise?
Depois de todas aquelas intermináveis horas de trabalho, finalmente você terminou o seu livro. E agora? Uma das principais questões que surgem logo de cara é como enviar o livro para uma editora.

Esta coluna se propõe a sanar algumas dúvidas mais comuns do mercado editorial e, sem dúvida alguma, as etapas envolvidas no envio de um original para análise são uma parte importante do processo.

Como preparar o meu original para análise?
Antes de mais nada, certifique-se de que o seu texto está pronto para ser analisado. Ou seja, ao relê-lo, a sua mão não coça por mudanças estruturais. Claro que um ou outro polimento vai sempre existir. Tenho certeza de que se perguntássemos ao Camões hoje, 500 anos depois, ele teria alguma vírgula a alterar em Lusíadas. É importante, entretanto, que a sua estória esteja toda lá e contada como você quer.

Formatação
A parte de formatação é simples. A menos que o editor peça diferente, mande impresso, pelo Correio, em times ou fonte similar, corpo 12, espaço duplo, páginas A4 ou Carta numeradas, com cabeçalho ou rodapé que conste o título e o seu nome. Algumas editoras gostam de receber encadernado, outras não. Se você não sabe a priori, envie encadernado de forma simples, com espiral. Não fique inventando moda onde o que deve brilhar é o seu texto.

Ah, estamos no século 21, eu quero enviar por email!
Algumas editoras até aceitam originais por email, mas é raro. O motivo é que aceitar o texto por email significa provavelmente imprimí-lo. É que a versão impressa dá ao editor uma noção muito melhor do tamanho do texto e facilita anotações. Além disso, é muito comum os editores levarem trabalho para casa e vão lendo no caminho. Agora, imagine trabalhar 12, 14 horas por dia com leitura. Não há olho que aguente tanta tela de computador. Lembre-se que é um humano que lerá o seu texto.

Mando para um revisor antes?
Muitas pessoas me perguntam sobre revisão. Revise seu texto, é lógico. Cachorro com x dói na alma de qualquer um, ainda mais na de um leitor profissional como um editor. Não é tampouco para ficar neurótico com isso. As editoras tem revisores e, se o seu texto for aprovado para produção, passará com toda certeza por pelo menos uma revisão competente.

Eu tenho tudo pronto, capa, diagramação, tudo!
Outro aspecto importantíssimo é o acompanhamento de imagens. Não mande, simples assim. As editoras tem suas preferências e seus motivos para escolher a ou b fotógrafo/ilustrador/capista. Se você for ilustrador e escritor infantil ao mesmo, por exemplo, notifique o editor de que você gostaria de apresentar imagens para aquele texto e deixe que ele escolha. Você não está ajudando o editor ao enviar o seu maravilhoso livro ilustrado e diagramado “pronto” para publicação, você está enviando um recado alto e claro de que você é um desses escritores chatos que debatem cada escolha do editor, esquecendo que ele não ganha tanto assim para te aguentar. É lógico que existem exceções. Conheço textos que foram escritos a partir de imagens, mas são casos muito específicos e merecem uma cartinha explanatória ao editor.

Você é o famoso quem?
O que me leva a outro ponto. A famosa cartinha de apresentação. “Prezado conselho editorial…”. A coisa funciona como uma carta a outra pessoa qualquer. Não finja uma intimidade que você não tem e nem use um formalismo excessivo como se estivesse se dirigindo ao Papa. Conheço autores premiados que gelam frente à cartinha de apresentação, mas não entendo o mistério. Se você conhece o editor, envie diretamente. Se você não conhece ou não tem uma apresentação (“prezado Editor Fulano de Tal, sou primo do Zezinho de Mogi, seu vizinho…”), envie direto ao conselho editorial. A carta deve conter 2 parágrafos: no primeiro você escreve um resumo do livro e no segundo um sobre você, coisa não mais que 6, 7 linhas em cada. Assine com uma forma de contato, de preferência dando opção entre telefone, celular e email. Lembre-se de colocar endereço de correspondência também.

Saber esperar
A demora das editoras em responder depende muito mais da quantidade de originais a serem avaliados do que de quem você é ou deixa de ser. Então, editoras menores tendem a ter uma resposta mais rápida do que as maiores, mas isso não é regra. Depende da época do ano (editoras com linhas didáticas estão naturalmente atoladas em janeiro, por exemplo), da quantidade de leitores disponíveis e de mais um monte de outras variáveis que muitas vezes nem o editor sabe, que dirá o autor. Eu sei que é horrível essa espera, mas não tem como ser diferente, afinal, você quer que o seu texto seja lido, não quer?

Outra dúvida que surge muito é sobre enviar simultaneamente para várias editoras. Brigas por originais acontecem nas feiras literárias mas é briga de cachorro grande. Aqui tem uma “regra de boa etiqueta” não-dita, não-escrita, não-declarada mas que todo mundo sabe que diz que para livros infanto-juvenis você pode enviar para um monte de editoras ao mesmo tempo e que literatura ficcional adulta não. Os livros técnicos tem tão pouca opção que aconselho a esperar a resposta de um antes de enviar para outro. Esse povo todo se conhece e a última coisa que você quer é ter dois editores aceitando o seu livro e você tendo de, necessariamente, se queimar com um. O seu relacionamento com o mercado não é determinante de publicação mas conta.

Envie email, comente, pergunte, o seu contato é muito bem-vindo!

14 February 2008, em: artigos

Brasil Selvagem

publicado no Aguarrás

Existe uma diferença básica entre a música e o livro eletrônicos. A música, uma vez que é executada, não causa em seu ouvinte um prazer diferente dependendo de sua origem. O livro depende não apenas de seu conteúdo mas também de seu suporte para que a experiência do leitor seja plena. É este o motivo fundamental pelo qual a indústria fonográfica caiu antes da mídia impressa. Hoje em dia só lê jornal impresso, por exemplo, que suja dedos e não tem ?busca?, quem tem em seu gestual algum tipo de prazer.

Dentre os impressos, existem aqueles que nos proporciam uma melhor ou pior experiência e os motivos de cada gradação gera incontáveis teorias, papers, teses, artigos. É, aliás, algo que me intriga e uma questão que me persegue. Isso, claro, sem sequer entrar na obscura física quântica do que vende ou não vende.

Tenho eu cá meus prazeres. A fotografia é um deles. Livros é outro. Um livro com fotografias de Felix Richter, então, é sempre uma felicidade.

Lições de um Brasil Selvagem, de Felix Richter, ed. Céu Azul de Copacabana

Lições de um Brasil Selvagem não é lição nem de Brasil, nem de selvagem. É lição de fotografia.

Entretanto, o simples fato de ser um livro com as fotografias de Richter não é (e nem deveria ser) suficiente para uma resenha. A questão é que ele se superou. E isso não é pouca coisa.

O trabalho anterior de Richter era uma pintura. Ele agora se permite pintar sem forçar o pincel contra o papel. Explico: é necessário um amadurecimento muito grande do fotógrafo para conseguir se manter expressivo sem se tornar caricato. A exposição que eu vi na Casa do Saber, no Rio, era excelente e foi quando conheci (ao vivo e a cores) o trabalho de Richter que até então só tinha visto pela internet mas, mostrava um trabalho que, sem cuidado, poderia ficar estigmatizado facilmente, justamente por ser tão expressivo.

Não deixo de me impressionar como ele lida com cores. Mal posso esperar a próxima safra.

Lições de um Brasil Selvagem, de Felix Richter, ed. Céu Azul de Copacabana

As fotografias atuais de Richter continuam expressivas e ele continua usando e abusando de cores. As cores lhe servem, não o contrário. Tudo, agora, com uma pitada diferente: a captação da luz aceita o que lá está, mostrando muito mais o olho do que as mãos do fotógrafo-pintor.

Felix Richter é, antes de tudo, um profissional que evolui. Vocês não fazem idéia de como esta é uma espécie em extinção (por falar em Brasil selvagem).

A Editora Céu Azul de Copacabana conseguiu fazer um livro facilmente identificável como ?livro de fotografia? sem cair na mesmice de livro de centro. É um livro para manusear, para curtir. É um livro para aproveitar.

E aí, me desculpe, mas não tem ebook que dê conta.

Lições de um Brasil Selvagem, de Felix Richter, ed. Céu Azul de Copacabana Lições de um Brasil Selvagem, de Felix Richter, ed. Céu Azul de Copacabana Lições de um Brasil Selvagem, de Felix Richter, ed. Céu Azul de Copacabana

27 November 2007, em: artigos

Havana Café

publicado no Aguarrás

Nós, filhos da era da mercadoria lidamos com as coisas na condição de produtor ou na de consumidor, e em geral somos irresistivelmente mais propensos ao processo de consumo. - Bertolt Brecht

Foi uma ousadia do Marcelo de Alvarenga me convidar para Havana Café, considerando que ele sabia de antemão que detestei todas as montagens brasileiras de musicais que vi até hoje. Mentira, não queria parecer chata, mas a verdade é que detesto musicais. Ponto. Mesmo sabendo disso, o confiante pianista insistiu. Fui. Vi. Amei.

Havana CaféO texto, brechtiano, permite o riso e a reflexão em iguais proporções. Por algum motivo obscuro, as pessoas tendem a associar Bertolt Brecht apenas com engajamento político, esquecendo que é o humor que alinhava o espetáculo. O texto é reflexivo sim, como em reflexo, como em espelho. Vemos no teatro aquilo que nos retrata. Eu ri feito uma hiena bêbada, como filha da era da mercadoria que sou.

O Havana Café é montado em clima de cabaré pela Companhia Ensaio Aberto, com direito a drinques servidos pelas atrizes. Logo na entrada, a simpatia do Luiz Fernando Lobo conquista e faz a ambientação da platéia. Luiz Fernando, aliás, é responsável pela costura do espetáculo e o faz com maestria. Ele está tão à vontade com o papel que parece ter frequentado cabarés a vida inteira. Sabe escolher a brincadeira certa na hora certa e este é um talento raro.

Tuca Moraes erra na impostação de voz com microfone e quase nos assusta com o grito inicial que rompe exageradamente o clima tão cuidadosamente criado. Felizmente tudo se salva quando entra a Stella Rabello. No decorrer do espetáculo Tuca parece ?esquentar? e se recupera.

Merece destaque também Helena Bittencourt, que faz a professora ucraniana, além de cantar de verdade, tem a veia cômica bem desenvolvida e me faz rir sozinha enquanto escrevo esta resenha, com a lembrança do seu solo.

Sanny Alves tem total controle não só do seu corpo e da sua voz ? o que já seria muito ? como de todo o espaço e da platéia. Preciso dizer que Sanny é, sem margem de dúvida, quem mais deixa lembrança (das mulheres). Ela é divina, do tipo que toda mulher quer ser e todo homem quer ter.

O contrabaixo mal se ouve e acaba desaparecendo no palco mas o piano e o sax estão na medida certa. Os músicos que tocam sax e piano estão integrados no espetáculo e se fazem notar, sem cair na armadilha de música de fundo.

Cláudio Basttos é absolutamente perfeito. É o barman caricato de nosso inconsciente coletivo durante a primeira metade do espetáculo e o ponto de encontro do cabaré na segunda.

O Havana Café está muito bem estruturado, montado e realizado. A direção é a melhor de todas: a que não se impõe à força mas se faz notar com naturalidade no decorrer do espetáculo. A cenografia de Cláudio Moura é meticulosa e faz com que o público compreenda tudo imediatamente. O figurino de Cláudio Tovar também está na medida, inserindo os atores com perfeição no ambiente.

O Havana Café transforma definitivamente Luiz Fernando Lobo em uma marca de qualidade. A sua direção será suficiente para me levar ao teatro novamente, mesmo que seja outro musical.

Brecht, assim como Shakespeare, é levado mais a sério do que deveria. Explico: ambos escreviam para a diversão. Com conteúdo, mas sem esquecer que o teatro devia divertir. São escritores do cotidiano, populares, para o povo. Havana Café diverte, sem com isso esquecer de nossas contradições naturais, sem esquecer que somos todos ? platéia e atores ? filhos da era da mercadoria. Tanto Shakespeare quanto Brecht criticavam o status quo sem perder o humor. A porção política do espetáculo não passa em branco e é, como quase tudo de Brecht, bastante didática mas nem por isso vá ao teatro Café Pequeno no Leblon (RJ) esperando uma palestra. Vá se divertir e leve os amigos.


Havana Café Havana Café Havana Café Havana Café Havana Café - cartaz

7 November 2007, em: artigos

tutorial de ilustração vetorial

Revista Webdesign, novembro de 2007, ano 4, número 47, www.revistawebdesign.com.br

página 11, seção Post-it, “Referências sobre ilustração vetorial” - pequeno parágrafo com dicas minhas sobre o assunto.

páginas 34, 35, 36 e 37 - artigo “Passo a Passo - Criando uma ilustração vetorial”

Revista Webdesign, novembro de 2007, ano 4, número 47 - artigo-tutorial de ilustração vetorial Revista Webdesign, novembro de 2007, ano 4, número 47 - artigo-tutorial de ilustração vetorial Revista Webdesign, novembro de 2007, ano 4, número 47 - artigo-tutorial de ilustração vetorial Revista Webdesign, novembro de 2007, ano 4, número 47 - artigo-tutorial de ilustração vetorial

9 October 2007, em: artigos

Captura da Luz 3

publicado no Aguarrás

O espaço foi pequeno para a grandeza dos artistas”, me disse Alexandre ao saírmos do espaço oPHicina, na Vila Madalena. Ele tem razão. O grupo captura da Luz organizou uma mostra de alta qualidade (e quantidade). Ótimas e muitas ampliações. Tantas que mal couberam na casa.

Os fotógrafos que mais me impressionaram:

Rodrigo Jazinski, com suas cores modernas e composições interessantes, é muito bom. As fotografias dele são depoimentos urbanos antes de se tornarem cor.

Eduardo Muylaert, com umas pbs cênicas de fazer inveja, leva o conceito de captura da luz ao pé da letra. Suas fotos mostram escolhas muito conscientes de luz e composição.

Matangra e sua arte moderna, colorida, urbana, adorei.
Célia Mello
Célia Mello me lebrou Doisneau com seus pbs. Ela tem duas linhas diferentes, e as suas sobreposições (no filme, “na unha”, não é manipulação digital) surpreendem com ritmo.

Bruno Sandini ainda não definiu muito bem seu estilo mas, não importa por qual caminho escolha seguir, vai ser bom. Ele se preocupa com o motivo de tudo na foto e isso, por si só, já é suficiente para definir um grande fotógrafo.

Tiago da Arcela
Tiago da Arcela é quase pop art, as cores são fortes e mesmo quando ele resolve brincar com monocromáticos consegue manter o ritmo pop.

Renato Soares mantém o seu já conhecido trabalho com índios mas a mostra traz vários formatos e até mesmo pequenas ampliações que devem ter o tamanho de mais ou menos metade de um cartão postal. O interessante em fotógrafos como o Renato é que as imagens não perdem a sua força, independente do tamanho da ampliação.

Alberto Oliveira é uma mistura entre fotógrafo e artista digital. O que gosto nele é que a manipulação é assumida e incorporada, não é uma muleta para o que não conseguiu fazer com a câmera, é uma opção consciente e parte de um projeto visual completo.

Carlos Fadon e seus reflexos. Fadon assina como fotógrafo mas deveria assinar como poeta. Concretismo puro, muito bom.

Hugo Curti
Hugo Curti, com seus horizontes baixos e plantas tranquilas.

Claudio Lunardelli é artista digital. Manipula objetos, não se limita a alterar contrastes ou a fazer sobreposições. Ele usa a ferramenta para criar novas imagens, completamente novas, que não existem no mundo real.

Outros lá estavam, todos bons.

Peter de Brito
Agora, o trabalho pelo qual eu me apaixonei foi o do Peter de Brito. Ele tem uma leveza e um carinho no olhar que há muito eu não encontrava. A série “Lápis de cor”, com fotos da Parada Gay de 2003, é de uma doçura difícil de descrever. A maioria dos fotógrafos que conheço (eu inclusive) se preocupam em conseguir a imagem exatamente como a imaginaram antes do clique. Peter consegue ver através da imagem e aceitar o outro, diferente ou não, como ele é. Isso não é apenas raro na fotografia, é raro na humanidade.

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