#quebrando #limites

capa da Revista Wide de novembro/dezembro de 2011 VIGNA-MARU, Carolina. #quebrando #limites. Revista Wide. Rio de Janeiro: Arteccom, vol. 8, n. 87, p.42, NOV-DEZ 2011. ISSN 2178-2407

VIGNA-MARU, Carolina. #quebrando #limites. Revista Wide. Rio de Janeiro: Arteccom, vol. 8, n. 87, p.42, NOV-DEZ 2011. ISSN 2178-2407

Desde que conheci o trabalho de Augusto Sampaio tenho vontade de escrever a respeito, mas como ele foi meu professor na Belas Artes e sei o quanto o meio acadêmico pode ser paranóico, achei melhor esperar não ser mais sua aluna para lhe dedicar uma coluna.

A obra de Sampaio poderia facilmente ser organizada em três hashtags se o seu meio fosse o digital. A primeira, como não poderia deixar de ser, é o questionamento, o pensar. A segunda é talvez a mais óbvia delas: a obra em si, ou seja, a sua produção artística, as gravuras. A terceira é o compartilhamento. Vou da terceira para a primeira.

3. Sampaio é professor com p maiúsculo e isso já deveria ser suficiente para terminar o artigo, mas insisto. Ele é artista-educador de uma das iniciativas mais legais da Pinacoteca do Estado de São Paulo, a oficina de desenho e gravura da Ação Educativa Extramuros, do PISC (Programa de Inclusão Sociocultural), que leva moradores de rua para dentro de um espaço tido como erudito e os instrumenta a ampliar seus repertórios.

2. As xilogravuras de Sampaio – ou, pelo menos, as que conheci – não são figurativas e trazem uma repetição proposital que se traduz em ritmo. Ele as instala em espaços urbanos, especialmente em muros, paredes, fachadas. Ou seja, ele as instala em limites. E, com a composição (cor, textura, ritmo, forma, etc), chama a atenção para este limite e nos leva a perceber uma linha separadora que muitas vezes simplesmente não nos importa mais. A gravura aponta esse limite, esse contorno e, ao apontá-lo, se apropria dele e o destrói. Uma vez que o limite nos “pertence”, deixa de ser um limite.

1. Que limites nos contém? Muros não definem um ambiente. Uma escola ou qualquer outro centro de convivência é uma experiência que vai muito além de seus muros. Conheço pessoas que definem suas casas como “onde meu computador está”. E aí vem o cloud computing e nem isso existe mais. Cadê o muro? Existe algo que separe o morador de rua do curador do Museu além deste limite absolutamente arbitrário? Na verdade não faço ideia se o questionamento de Sampaio é este mas é nisto que penso quando vejo o seu trabalho. É, portanto, o meu-dele questionamento. Outro muro que cai. Derrubar muros é sua-nossa especialidade. Ele compartilha o tempo todo. Por este motivo, inclusive, o escolhi para esta coluna. O que é a internet senão a quebra de fronteiras, de limites? Fazemos algo online que não seja, justamente, questionar e romper com estas arbitrariedades? Digo, além de ver vídeos de gatos, é claro.

Agora conto que Sampaio é arquiteto pós-graduado em Multimeios: cinema, vídeo e fotografia. Não que isso faça qualquer diferença. O melhor consultor em presença online que conheço, o Roney Belhassof, já foi piloto de navio. Meu irmão, tradutor, é formado em Economia. Aprendo filosofia com um historiador. Gosto de pessoas complexas, heterogêneas e com histórias complicadas. E nós, nesse backstage da internet, o que nos enriquece? Nem só de Php e Java vive o programador. Uma das minhas maiores queixas das atuais formações acadêmicas é a falta destas referências “externas”. O designer que decide estudar algo completamente fora da sua área (capoeira, finlandês, culinária, tanto faz) será necessariamente um designer melhor. Obviamente isso vale para todos, mas é na Wide onde escrevo.

Voltando ao Sampaio. Tenho a sensação de que sua meta é quebrar limites. Nas artes visuais, isso se traduz em um novo olhar, em ampliar o repertório visual e na experimentação. Não acho, entretanto, que se limite a isso. A arte visual é apenas a sua ferramenta para estimular a humanidade a refletir, a crescer. Somos capazes de evoluir apenas quando nos abrimos para esta possibilidade. Ou seja, quando estamos dispostos a sair da zona de conforto, quando estamos disponíveis para experimentar o mundo sem muros.

Vejo nele uma coerência que me inveja. Ou me falta o amadurecimento para ter esta coerência no meu trabalho ou me falta o distanciamento para percebê-la. Dúvidas, entretanto, tenho aos montes.

A colheita do caju

publicado na revista Wide de julho/agosto de 2011, ano 8, nº 86, ISSN 2178-2407

capa da revista Wide de julho/agosto de 2011, ano 8, nº 86, ISSN 2178-2407 "A colheita do caju", revista Wide de julho/agosto de 2011, ano 8, nº 86, ISSN 2178-2407

A arte e a tecnologia são muito mais ligadas do que pensa a maioria das pessoas. Observamos a influência de uma sobre a outra desde os tempos das cavernas. No Paleolítico pintamos com tinturas naturais, musgo, barro e o que mais estivesse ao alcance. Quando conseguimos lascar pedra logo começamos a esculpir. Um pouco mais tarde, a indústria teve a iluminação de criar tinta em tubos, dando mobilidade ao pintor, que começou a pintar fora de seu ateliê. A fotografia e a indústria gráfica também influenciaram de maneira muito significativa o nosso pensar e a nossa arte. Chegamos à era da informática, e com ela a ilustração 3D, vetorial, digital, pixel art e tudo mais que seremos ainda capazes de inventar. E que bom que seremos capazes de inventar. A imaginação é mais importante que o conhecimento, já dizia Einstein. Precisamos imaginar um futuro melhor para podermos inventá-lo.

Estes saltos evolutivos, que não são nem saltos e nem evolutivos, acontecem sempre movidos ou pelo desejo ou pela necessidade humana. E o desejo e a necessidade não andam separados. Nós hoje precisamos de celulares, i-coisas e toda uma quantidade de traquitanas móveis conectadas. Primeiro o desejo ou a necessidade? A vida mudou, as sociedades mudaram, a economia evoluiu, o profissional criativo não trabalha mais batendo cartão no escritório. Naturalmente, a mobilidade – e portanto o celular e demais gadgets – tornaram-se uma necessidade. Por outro lado, é o desejo de liberdade que nos move. É impossível dissociar um do outro. Assim “evoluímos”. Coloco entre aspas porque não existe aqui uma noção de valor, ou seja, não somos melhores nem piores que nossos antepassados ou que nossos sucessores. Somos diferentes. E isso é muito.

A arte é uma criação nossa e é necessariamente um reflexo de nós mesmos. O estudo da arte, conseqüentemente, é um estudo comportamental da nossa espécie.

Tudo muda, mesmo que você não note. Quer dizer, tudo menos o reinado felino no mundo nerd, é claro. Mudar é necessário, desejado e, humano.

Até mesmo o entendimento que temos de conceitos tão básicos como infância muda com o tempo. Quando a expectativa de vida era de 30 anos, 12 anos era considerado adulto. Mesmo mais tarde, com a vida já maior, ou éramos crianças ou éramos adultos. A adolescência só foi inventada a pouco mais de 100 anos, entre o final do século XIX e o início do XX.

Construímos sociedades mas felizmente não somos formigas que passam milhões de anos fazendo a mesma coisa. Assim como o Raul, eu também prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

A Wide completa com esta edição o seu primeiro ano de vida e surgiu de uma mudança, de uma mutação que uniu as antigas Webdesign e TI Digital.

Os 365,2425 dias do calendário Gregoriano sempre me pareceram uma medida bastante estranha da passagem do tempo. A medida dos índios tupi-guarani fazia muito mais sentido. Eles contavam os anos pela época da colheita de caju, que – sem estufas e outras tecnologias agrícolas – acontece entre agosto de outubro. Então, fica aqui os meus parabéns à Wide e o voto de que muitas colheitas ainda venham!

Oficina de Colagem com Maurício Planel no Rio de Janeiro

Acompanho o trabalho de Mauricio Planel já tem um certo tempo e sempre gosto muito do que vejo. Quando meu editor, Mauro Amaral, me perguntou se poderia escrever algo a respeito da oficina que Planel fará no Rio, a resposta foi automática.

Primeiro, algumas definições. Colagem, apesar de não ser algo tão antigo quanto têmpera, é uma técnica artística que pode ser traçada no mínimo até as iluminuras e suas folhas de ouro. Claro que se abrirmos a definição para o processo, e não apenas o resultado final, certamente vamos encontrar alguém que diga que a mão decalcada na caverna já era um processo de colagem, mas tenho cá minhas dúvidas sobre isso.

O nome da técnica é bem auto-explicativa. Colagem consiste em unir/colar elementos visuais (texturas, imagens, cores, formas, etc) em uma nova composição, resultando em um novo significado. Em tempos de repensar autoria e criações colaborativas, nada mais contemporâneo.

Os exemplos são muitos, mas só para citar alguns dos artistas que usaram colagem, lembro de Matisse, Picasso, Georges Braque, Duchamp e Man Ray.

Os trabalhos de colagem de Matisse, por exemplo, são tão ou mais conhecidos que suas pinturas e esculturas. E, no caso dele, é um trabalho amadurecido.

“Minha educação consistiu em perceber os vários meios de expressão da cor e do desenho. Minha formação clássica naturalmente me levou a estudar os mestres, a assimilá-los o máximo possível considerando o volume, o arabesco, os contrastes, a harmonia, e a apresentar minhas reflexões em meu trabalho a partir da natureza, até o dia em que me dei conta de que devia esquecer a técnica dos mestres, ou melhor, compreendê-la de uma maneira particular. Não é essa a regra de todo artista de formação clássica?” (MATISSE in FOURCADE, 2007: 177)

A colagem, antes de ser técnica, é pensamento. É necessário um crivo similar ao de um curador para que a seleção dos elementos esteja condizente com o discurso, com aquilo que o artista quer dizer. O discurso do artista é o que o define.

“É preciso que haja uma necessidade, tanto em filosofia quanto nas outras áreas, do contrário não há nada. Um criador não é um ser que trabalha pelo prazer. Um criador só faz aquilo de que tem absoluta necessidade. Essa necessidade — que é uma coisa bastante complexa, caso ela exista — faz com que um filósofo (aqui pelo menos eu sei do que ele se ocupa) se proponha a inventar, a criar conceitos, e não a ocupar-se em refletir, mesmo sobre o cinema. Eu digo que faço filosofia, ou seja, que tento inventar conceitos.” (DELEUZE, 1999)

Oficina de Colagem com Maurício Planel no Rio de JaneiroE, claro, já que estamos nas definições, não posso esquecer de oficina. Oficinas são uma orientação didática prática. Ou seja, é “mão na massa”, você aprende fazendo.

A oficina de Planel será de apenas um dia, 23 de julho, das 13 às 19h, no Rio de Janeiro, para você sair de lá com aquele gostinho de quero mais na boca.

Aproveitei a simpatia de Planel para uma rápida entrevista.

Mauricio, você pode contar para os leitores do Carreira Solo como foi a sua aproximação com a colagem? Como essa técnica começou na sua vida?

Morava em Petrópolis perto do Rio de Janeiro, trabalhava em um jornal local na parte gráfica e aquele universo todo me chamava muito a atenção. Paralelamente fazia os meus freelas para gráficas e confecções. Estudando em um atelier, surgiu um livro sobre os movimentos artísticos e dentre eles a colagem, no mesmo instante foi uma identificação total. Depois disso fiquei mais atento e integrei essa técnica no meu trabalho de ilustração.

Quais são as suas referências? Que artistas você gosta, acompanha? O que gosta de ler, ouvir, etc?

Os artistas clássicos que você citou acima são fundamentais para toda a pessoa que trabalha com artes visuais. Hoje em dia temos facilidade de conhecer muita gente boa através da internet. Dos artistas que trabalham com colagem hoje me dia aqui no Brasil acompanho sempre o trabalho de Daniel Bueno, Miran, Tide Hellmeister e Eduardo Recife. Mestres nas artes visuais.

Trabalhando com ilustração, além de praticar todos os dias, você tem que estar sempre em dia no que acontece no mundo, ter uma cultura geral ampla. Livros, revistas, blogs são parte do cotidiano, com certeza a leitura aguça a criatividade.

Mauricio, como vai ser a sua oficina? Quantas pessoas no máximo, o que precisa levar, quanto custa? Passa pra gente alguns detalhes práticos, por favor.

Já realizei esta oficina anteriormente e o resultado foi positivo. Nesta versão serão apenas 5 alunos, para uma atenção redobrada. O projeto que vai ser criado é uma capa de LP, daquelas antigas onde tantos artistas gráficos criaram obras geniais. O aluno leva apenas a vontade de aprender, todo o material é fornecido.

Você pode deixar algumas dicas para quem quer fazer colagem mas infelizmente não poderá ir à sua oficina?

Para começar: adquirir revistas e livros antigos e cortar, pensar e colar, pesquisar bastante e iniciar sem medo. Não existe um resultado certo ou errado, existe o seu resultado. Praticar sempre, visitar sites de artistas da colagem e deixar a criatividade rolar!

Obrigada!

 

Referências bibliográficas
DELEUZE, Gilles. O ato de criação: palestra de 1987. Folha de São Paulo. Ilustrada. 27 JUN 1999.
FOURCADE, Dominique (org). 2007. Henri Matisse: Escritos e reflexões sobre arte. Trad. Denise Bottmann. São Paulo : Cosac & Naify. 400p.

publicado no Carreira Solo em 12 de julho de 2011

Uma época de perguntas

publicado na revista Wide de julho/agosto de 2011, ano 8, nº 85, ISSN 2178-2407, sob o título “Uma época”

revista Wide de julho/agosto de 2011, ano 8, nº 85, ISSN 2178-2407 revista Wide de julho/agosto de 2011, ano 8, nº 85, ISSN 2178-2407

O fato é que nada é nunca claro em nosso estado de espírito, e nossa pintura sofre desta falta de certeza. Às vezes eu acho que o significado do meu trabalho está exclusivamente ligado à produção de uma pintura; às suas contínuas referências e modificações; a pequenas descobertas, como balsas em que um náufrago se agarra, e que depois afundam nas profundezas, levando com elas linhas, cores e pseudo-significados.” – Alberto Sughi

Em um ato de coragem escolhi falar sobre Alberto Sughi na coluna desta edição que, junto com Egon Schiele e Lucien Freud, é um dos meus artistas prediletos. Digo coragem porque é muito difícil analisar alguém por quem somos apaixonados, mas eu vou tentar. Antes de começar, entretanto, preciso dizer que o filho dele, Mario, é também um grande artista e ilustrador. Desta vez vou só falar do pai.

Os italianos consideram Sughi “il maestro della realtà” mas o realismo em Sughi é filosófico. Sua obra é pictórica e realista, sem dúvida, mas não é este seu maior realismo. O mestre da realidade é um título mais do que merecido pela ausência de hipocrisia. La classe dirigente (1965) é tão satírico sobre o governo e o poder vigente quanto Goya foi em seu tempo, enquanto Notturno no.2 (1998), por exemplo, é um retrato da vida noturna urbana quase carinhoso de tão próximo emocionalmente. Seus quadros de cidade e clubes noturnos, aliás, são os meus favoritos. É quase possível respirar a fumaça e ouvir a música.

O equilíbrio entre drama e leveza é uma das marcas características de Sughi. Outra é a mescla entre o desenho e a pintura, algo que muitíssimo me agrada. Em um vídeo, ele aparece colocando carvão sobre tinta a óleo. É de uma liberdade total, de alguém aberto ao diálogo entre a obra e o artista. O diálogo entre a obra e o fruidor é velho conhecido de qualquer um que já tenha posto os pés em um museu ou galeria, mas nem sempre o artista assume – ou mesmo admite – que sua criação responda. O questionamento estético da representação não se coloca como o saber técnico-artesão e nem como o de uma intangível identidade filosófica ou cultural. Seu questionamento acontece através da história contada. Ele é livre e sabe disso, faz uso desta liberdade. Nada mais contemporâneo.

A contemporaneidade é sempre muito difícil de definir porque não temos ainda o filtro do tempo e o afastamento emocional necessários para análise, mas posso afirmar com certa segurança de que o nosso tempo é marcado por diálogos, contradições, quebras de fronteiras e o questionamento de regras e paradigmas. Por vivermos em uma época de perguntas (e não de respostas), é natural que o desenho e o rascunho, antes entendidos como intermediários descartáveis, ganhem reconhecimento e valor. Existem até mesmo aqueles – como eu – que preferem ver o sketchbook do artista do que a obra pronta. Se pensarmos na trajetória da idéia artística e, considerando que ainda não conseguimos entrar dentro da mente do artista, o mais próximo do pensamento original é o rascunho, não a obra finalizada. O inacabado e o incorreto traduzem nossos desejos desde o ato falho de Freud (o Sigmund, não o Lucien). A verdade não está lá fora, a verdade está no erro.

Alberto Sughi, em outro trecho do mesmo post com que abri esta coluna[1], diz: “A pintura terminada, em exposição, emoldurada e fotografada, é apenas um ato convencional. É uma norma antiga da profissão do pintor mas é incapaz de nos representar completamente. Em outras palavras, no final, a história de nossos fracassos na tela seriam guias melhores para entender a mente do pintor do que a soma dos métodos, concessões, experiência ou outros truques que usamos para levar uma pintura à fruição. E talvez não seja nem mesmo assim!

Fico me perguntando se o real não está, justamente, nesta veia aberta que admite diálogo, que passa carvão em cima de tinta a óleo e que vê na soma dos erros a essência do artista. As redes sociais nada mais são do que uma soma de nossos erros e uma veia aberta ao diálogo. Nosso conceito de real só mudou tanto quanto com a internet quando descobrimos que o mundo não era plano e que o Sol não girava em torno de nós. E tem gente que ainda insiste em chamar esta experiência de “virtual”!

 


[1] os trechos citados são traduções livres

Cinco dicas para criar uma página “Quem somos” em seus projetos

publicado no Carreira Solo em 26 de maio de 2011

“Os textos autobiográficos e auto-elogiosos que os reis (do antigo Egito) e os grandes senhores fizeram inscrever nas suas estátuas e as descrições de acontecimentos da sua vida, são, desde tempos muito recuados, infinitamente monótonos.” [HAUSER]

Se até os faraós que, além de regentes supremos eram também deuses, colocavam um texto ilustrado na entrada de suas pirâmides sobre quem eles eram, fica me parecendo bastante arrogante não ter uma página biográfica em sites. O tom, entretanto, é difícil de conseguir. Corremos um grande risco de sermos “infinitamente monótonos”.

Dependendo da área profissional do nosso cliente, por exemplo, adotamos um tom mais ou menos formal. Ao escrevermos algo para nosso site, entretanto, não sabemos quem nos lê e isso é sempre uma dificuldade.

O filósofo Jean-Jacques Rousseau certamente não tinha problemas de auto-estima:

Tomo uma resolução de que jamais houve exemplo e que não terá imitador. Quero mostrar aos meus semelhantes um homem em toda a verdade de sua natureza, e esse homem serei eu. Somente eu. (…) Se a natureza fez bem ou mal quando quebrou a fôrma em que me moldou, é o que poderão julgar somente depois que me tiverem lido“.

O poeta Mario Quintana é melhor humorado:

Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão.”

Reparem que ambos colocam sua obra como a representação máxima de suas biografias. Estão certos. Nosso trabalho precisa falar por nós, precisa falar alto. Nós somos nossas realizações.

Hand with Reflecting Sphere, litogravura de ESCHER, 1935

Seguem aqui 5 dicas rápidas que esperamos que ajudem você na hora de escrever a página “sobre” do seu site.

1 – Ilustríssimo cavalheiro ou qualé mané?

Um bom método – mas não o único – para determinar onde ficar entre o formal e o informal extremos é fazer um apanhado dos textos que você já publicou ou que pretende publicar. Não existe certo ou errado, mas é interessante que a sua página “sobre” siga o mesmo tom do restante do site.

2 – Lusíadas ou Haikai?

O tamanho do texto também é uma medida complicada e nem sempre essa dica de olhar para o restante do site funciona. Para mim funcionou assim:

  1. primeiro escrevi tudo – tudo! – que conseguia lembrar e que gostaria de compartilhar
  2. organizei em grupos (pode ser ordem cronológica, setores atendidos, tipos de serviços prestados, etc)
  3. cortei (apaguei) o máximo possível
  4. esperei uma semana, sem olhar para o texto
  5. voltei e apaguei mais metade
  6. revisei e pronto!

Naturalmente cada um vai encontrar o seu método, mas limpar bastante o texto é importante. O seu futuro cliente não está interessado em descobrir se seu filho nasceu de cesárea ou parto normal ou se você costumava passar as férias de infância no interior (a menos, óbvio, que o seu site trate exatamente deste assunto).

3 – Figurinhas?

O que é melhor: uma página “sobre” com imagens ou só texto? Não faço a mínima idéia. Isso vai depender muito do tipo de site que você tem. Existem mercados que valorizam muito a imagem do profissional e aí uma foto sua é de bom tom. Existem mercados em que o texto é mais importante. E você pode ainda criar algo completamente baseado em imagens ou até mesmo em uma história em quadrinhos. Depende muito de onde você atua ou quer atuar.

Agora, uma coisa eu sou capaz de dizer: não seja arrogante ao ponto de achar que o seu leitor tem obrigação de conhecer jargões da área. Não precisa escrever um glossário mas, se usar algum termo profissional de nicho, coloque um link para a sua explicação ou troque por um termo mais acessível. é melhor, por exemplo, escrever “sistema gerenciador de conteúdo” do que “cms”. Não vai te custar nada e pode significar aquele momento mágico em que você consegue fazer o leitor se interessar pelo que você faz.

4 – Metamorfose ambulante!

Nada, nada, nada, nada (eu já disse nada?) pior do que uma página biográfica desatualizada, com um contato que não funciona mais ou com uma informação velha. Redes sociais são maravilhosas mas nós temos o péssimo hábito de achar que, por mantermos as novidades em dia nas redes, todo mundo já sabe o que está acontecendo e isso simplesmente não é verdade. Sua biografia precisa ser representativa de quem é você. E você não quer passar uma imagem de algo que não funciona mais ou que fala a mesma coisa desde o século passado, não é? (Raul RULES)

5 – E depois?

Especialmente se você for freelancer, não tenha medo de colocar também os assuntos que te interessam, o que você está estudando, o que planeja para o futuro. É sempre bom saber que a pessoa que está sendo contratada vai crescer, vai evoluir. Isso é valor agregado e passa uma mensagem clara de que se você se deparar com algum problema que não sabe ainda como resolver, vai correr atrás. Lembre-se que contratar um serviço é contratar uma solução e não uma resposta padrão.

E, para finalizar, revise, revise, revise. Ler cachorro com x em um post já é de chorar mas em uma página institucional/biográfica é motivo mais que justo para fechar o navegador.

 

Referências bibliográficas

HAUSER, Arnold, 1982. História social da literatura e da arte. Tomo I. 4. Ed. São Paulo: Mestre Jou. p.60

QUINTANA, Mario. Mario por ele mesmo. IstoÉ 14 nov. 1984.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Rousseau. As confissões.Tradução de Wilson Louzada. Rio de Janeiro : Tecnoprint, 1965.

Tecnologia da informação

publicado na revista Wide de maio/junho de 2011, ano 8, nº 84, ISSN 2178-2407

revista Wide de maio/junho de 2011, ano 8, nº 84, ISSN 2178-2407   revista Wide de maio/junho de 2011, ano 8, nº 84, ISSN 2178-2407

Tecnologia da libertação

Durante muito tempo, a representação da realidade mais conhecida no Ocidente foi a do Antigo Egito e suas figuras com proporções determinadas pela hierarquia (um imperador era obviamente retratado maior do que um escravo). Sempre privilegiavam o traço mais característico, em uma busca quase taxionômica da espécie ou do indivíduo. Por isso, temos aquelas figuras humanas de perfil torcido e peixes que nadam de lado. As imagens tinham, portanto, um valor descritivo altíssimo.

Depois, deuses greco-romanos eram construídos como colagens de perfeições. Não havia um modelo para as esculturas, por exemplo. O artista escolhia partes perfeitas de pessoas. O nariz de um, a orelha de outro, e assim por diante. Temos, então, desde antes do cristianismo uma imposição de um modelo falso e inalcançável de perfeição, assim como as modelos photoshopadas de hoje.

Quinze séculos depois, os irmãos Hubert e Jan van Eyck inventaram uma técnica viável de pintura a óleo, em Flandres. A invenção teve um impacto tão grande nas artes que o braço direito de Hubert foi preservado na Catedral de São Bravo como uma relíquia sagrada. Até então, os pigmentos eram misturados com ovo (têmpera) e secavam muito rápido, impossibilitando efeitos mais demorados. Tudo que vem depois, incluindo os sfumatos de Leonardo da Vinci e seus contemporâneos, só foi possível graças a essa técnica de fazer tintas.

Esses avanços tecnológicos têm consequências muito mais amplas do que você imagina. Muda também a noção de verdade. Cabe a lembrança de que os renascentistas eram os retratistas da Era dos Descobrimentos e, portanto, toda a nossa identidade foi formada a partir dessas imagens chiaroscuro. A formação de identidade tem reflexos vitais em como entendemos nossa cultura e sociedade e, por consequência, o modo como desenhamos nosso futuro. A imagem que muitos têm de suas divindades e de si próprios é, até hoje, montada a partir dessas camadas de tinta.

Colocando esta coluna em fast-foward antes que meus caracteres acabem, passamos a jato pela fotografia e chegamos ao mundo digital. A fotografia tirou do pintor a responsabilidade de criar retratos. A responsabilidade de retratar o “verdadeiro” passou para as costas da fotografia. O pintor, agora, era livre para pintar o que bem entendesse.

Quase que na mesma época, temos os impressionistas conseguindo pintar em campo (sem ser dentro de seus ateliês) graças à invenção da tinta em tubo. Até a segunda metade do século XIX, os artistas misturavam os pigmentos com vários tipos de óleo (principalmente o de linhaça) para fazer suas tintas. Depois da tinta pronta em tubos, bem semelhante à que temos hoje, o artista ganhou mobilidade. E foi em campo pintar sob o Sol e todas as variedades tonais que a luz natural proporciona. Era uma busca pela imagem “verdadeira”. A verdade passa, então, a não ser mais o objeto retratado, e sim a luz e o movimento. Daí para o expressionismo, o cubismo e o surrealismo é um passo curto.

Sabemos hoje que, por mais semelhante que a realidade seja à arte (fotografia, animação 3D, etc), sempre será, necessariamente, uma interpretação do artista. Você pode colocar vinte fotógrafos, por exemplo, com o mesmo tipo de câmera, mesma lente, no mesmo lugar, no mesmo momento, e terá vinte fotografias diferentes. A realidade retratada é sempre um recorte, jamais a “verdade”. Não existe uma verdade. Existem várias verdades. Inclusive a de quem recebe aquela informação.

A computação nos trouxe, como nunca antes, a noção de que a “verdade” não existe. A internet nos transformou em elétrons. As mídias sociais nos uniram. Criamos as tecnologias para atender aos nossos desejos e necessidades, mas a tecnologia também nos transforma. E, em muitos casos, nos liberta.

Café com sereias

capa da Wide 83 minha coluna

publicado na revista Wide de março/abril de 2011, ano 8, nº 83, ISSN 2178-2407
obs: coloco a data aqui igual à de publicação mas sempre respeito o prazo de reprodução

Não sou barista, mas sou fanática por café ao ponto de ter um blend favorito, prensa francesa em casa e sinceramente notar a diferença entre tipos de grãos. Eu praticamente sustento a franquia de Starbucks aqui perto de casa com o meu consumo semi-industrial de Gold Coast Blend®. Acompanhei, portanto, com interesse o último redesign da identidade visual do Starbucks, que tem uma sirena bicaudata (sereia de 2 caudas) no centro.

A primeira figura mitológica metade pessoa, metade peixe de que se tem registro era homem. Um tritão, portanto. Foi o deus Oannes, que pertence à mitologia da Mesopotânia, de 5000 anos atrás. Ele saía todo dia do mar para ensinar artes e ciências à população do Golfo Pérsico que, na época, era o que se considerava “toda a humanidade”. Alguns milênios depois, na mitologia grega, “tritão” se tornou nome próprio. O Tritão, filho de Poseidon e Anfitrite, é um deus marinho. Assim como acontece hoje com algumas marcas famosas (Gilette, Bombril, Perfex, etc), o nome próprio se tornou sinônimo do objeto em si. Tritão, hoje, é entendido na maioria das vezes como sendo o deus e poucas pessoas usam a palavra como o masculino de sereia. Na mitologia grega, as pessoas-peixe são sempre masculinas. As divindades aquáticas são ninfas e não possuem caudas ou escamas.

As sereias eram, originalmente, metade mulher, metade pássaro e é esta a origem da sua linda voz. Tinham grandes asas, garras e penas nas pernas. Acredita-se que a versão peixe surgiu em um bestiário do século V chamado Physiologus, escrito em grego e de autor desconhecido, que teve uma tradução para o latim muito popular. Na Idade Média ainda vemos híbridos das duas versões e existem muitas sereias esculpidas em tumbas com asas. O mito de que atraíam marinheiros para a morte com seu canto é comum às duas versões. A Odisséia, certamente a estória mais conhecida envolvendo estes seres míticos, já foi retratada tanto com mulheres-peixe quanto com mulheres-pássaro.

Segundo o blog do Starbucks, a origem da sereia deles é uma xilogravura norueguesa do século XVI mas todas as referências que encontrei falam desta gravura como sendo do século XV. De toda forma é anterior à internet. O que acho interessante é como uma gravura de no mínimo 5 séculos de idade ainda pode render tanto. A mitologia sobre sereias é vasta e atinge diversas culturas, inclusive a nossa. Em algumas vertentes da Umbanda, Iemanjá é representada como uma sereia. É uma imagem forte de um mito presente em várias civilizações diferentes. Muito apropriado para uma multinacional. Se vamos usar um ícone existente, é sempre uma boa idéia escolher um que seja compreendido em qualquer lugar do mundo e por um longo período de tempo.

A sereia do Starbucks sofreu um processo de vários redesigns para se tornar menos sexual. Primeiro teve os seios cobertos pelos cabelos e depois perdeu o umbigo. Deixo para vocês a interpretação da posição em que a bicaudata segura as suas caudas, minimizada pelo enquadramento que gradativamente saiu de um plano médio para o close.

Edições moralistas na arte não são incomuns. O MASP recentemente fez um brilhante trabalho de restauro no quadro Himeneu Travestido Assistindo a uma Dança em Honra a Príapo, de Nicolas Poussin (1594-1665). Uma das etapas do restauro foi retirar o repinte de pudor do falo de Príapo. A cena do quadro é um ritual pagão de fertilidade. Acredita-se que a censura tenha ocorrido no século XVIII, quando estava em posse da família real espanhola. O quadro pertence hoje ao acervo do museu. Então, se Poussin sofreu um, digamos, redesign pudico, imagine uma identidade visual de cunho 100% comercial.

Agora em março, no seu 40º aniversário, o Starbucks decidiu tirar o nome escrito e adotou uma marca sem texto, apenas com imagem.

É no mínimo uma atitude ousada retirar o nome da identidade visual mas atenção, crianças: não façam isso em casa! Algo assim só é possível com um branding muito forte, como os das empresas Nike, Apple e, acredito, Starbucks.

A água turva não mostra os peixes

Capa da revista Wide de janeiro/fevereiro de 2011, ano 8, nº 82, ISSN 2178-2407 "A água turva não mostra os peixes", minha coluna na revista Wide de janeiro/fevereiro de 2011, ano 8, nº 82, ISSN 2178-2407

publicado na revista Wide de janeiro/fevereiro de 2011, ano 8, nº 82, ISSN 2178-2407
obs: coloco a data aqui igual à de publicação mas sempre respeito o prazo de reprodução

 

Expressões envolvendo peixes são comuns na nossa cultura: “peixe ensaboado”, “um peixe fora d’água”, “peixe não puxa carroça”, “vender o meu peixe”, “puxar a sardinha para o meu lado”, e por aí vai. Lições de vida também não faltam: “não dê o peixe, ensine o homem a pescar”, lembra? O título desta coluna é um ditado budista.

A simbologia do peixe é muito forte. O primeiro símbolo cristão foi um peixe, antes mesmo de usarem a cruz. O peixe cristão tem voltado à moda e pode ser visto na traseira de muitos carros de fiéis.

Desde quando morávamos em cavernas, os peixes eram importantes. Estranhamente, as representações na arte rupestre são raríssimas. Aqui no Brasil, podemos ver algumas na Serra do Ererê, na Amazônia, e umas poucas em Lascaux, mas mesmo assim não em número expressivo.

O peixe encontra espaço em quase todas as tradições. Moisés proibiu o consumo de peixes faltando alguma parte, como escamas ou nadadeiras. Os peixes nessa tradição, inclusive, são classificados em comestíveis ou não de acordo com a presença de escamas.

No Egito, os sacerdotes e os reis não podiam comer peixe, mas a população podia. Era tipo um x-tudo de carrocinha, bem popular, mas considerado “impuro”. Em Esna, existem múmias de percas-do-nilo, um peixe azulado bastante comum na região e venerado pelos antigos egípcios. Ainda no Egito, a deusa-peixe Hatmehit é uma das formas de Isis, a deusa da maternidade e da fertilidade.

Em Moçambique, é o peixe-deus Chipfalamfula quem controla os rios.

Na China, o peixe dourado significa harmonia e abundância. Os chineses consideram que o peixe e a água juntos são um símbolo do prazer sexual. Na Turquia, esse lado sex symbol do peixe é tão cotidiano que “peixe de um olho só” é gíria para o órgão sexual masculino.

Na Índia, tem o deus-peixe, Matsya, uma das muitas formas de Vishnu, que derrotou o demônio Hayagriva e salvou a espécie humana da destruição.

No Japão, acreditava-se que o bagre podia prever terremotos. O símbolo de peixe mais famoso tanto no Japão quanto na China é a carpa — símbolo de coragem e vitória — e pode ser vista em incontáveis tatuagens no mundo todo.

No feng shui, os peixes significam sorte, prosperidade, riqueza e sucesso. De acordo com essa filosofia, esculturas com duplas de peixes representam casamentos felizes.

Um dos meus contos prediletos, O velho e o mar, do Ernest Hemingway, conta a luta entre um velho pescador e um peixe grande, um marlim. Esse conto ganhou uma adaptação em animação, de Alexander Petrov, feita com pinturas a óleo sobre vidro que, se você ainda não conhece, precisa ver. É linda.

Não posso esquecer das sereias, ícones de sensualidade e perigo que habitam nosso imaginário desde a Grécia Antiga. O mito diz que, com sua beleza e linda voz, a sereia atrai os inocentes marinheiros para a morte.

E, claro, peixe na astrologia é o melhor dos signos (nasci no dia 12 de março)!

O peixe é muito mais próximo dos humanos do que à primeira vista possa parecer. Passamos nove meses envoltos em líquido. Para muitos, a água é a representação do inconsciente, e o peixe é um dos símbolos do Self, a noção psicológica que temos de nós mesmos como indivíduo. Evolutivamente, já fomos peixes. Parece, portanto, natural que o peixe represente tanta coisa em tantas culturas diferentes.

Muitos animais têm representatividade na nossa iconografia, mitologia e simbologia. Escolhi o peixe para esta coluna por motivos óbvios: fica aqui os meus parabéns a todos os participantes e, especialmente, aos vencedores do Peixe Grande.

Logomarca existe, passa bem e manda lembranças

publicado no portal da Revista Wide, em 18 de novembro de 2010

Logo vem do grego lógos e, segundo meu pai Aurélio, significa palavra, tratado, estudo, ciência, faculdade de raciocinar, razão, inteligência, entendimento, que estuda, que trata.

Marca vem do alemão markЭ. MarkЭ pronuncia-se “marka” e a grafia varia entre “marke” e “marka” por causa da ausência da letra Э em nosso alfabeto. Nos bons dicionários germânicos encontramos “marke” e nos bons dicionários latinos encontramos “marka”. Depende, basicamente, de onde o dicionário foi feito.

O argumento contra o uso do termo “logomarca” baseia-se inteiramente na falsa idéia de que markЭ é traduzida como “significado”. O erro é compreensível: alemão não é dos idiomas mais fáceis. Entretanto, markЭ significa marca (como em “marcar algo”), identificação de uma empresa ou produto, selo gráfico, formato de um território… Qualquer coisa menos “significado”.

Temos, portanto, um radical que pode ser entendido como estudo e outro claramente gráfico.

Copio aqui, para os mais curiosos, a definição do dicionário alemão: eine Verbindung zwischen einem Namen und einem dazugehörigen Logo, die zusammen für ein bestimmtes Produkt stehen, und die das Symbol für die Qualität vom Produkt repräsentiert. A definição chega até a falar em produto, logo, representação, etc.

Mesmo em dicionários online de alemão, a tradução nunca passa pelo sentido que daria uma conotação redundante ao termo.

exemplos:

http://dict.leo.org/ende?lp=ende&lang=de&searchLoc=0&cmpType=relaxed&sectHdr=on&spellToler=&search=marke

http://www.dict.cc/?s=marke

Supondo que a tradução para signus fosse possível, mesmo esta não seria de significado e sim de signo gráfico, símbolo. Aliás, vale a lembrança que signus é símbolo desde que o mundo fala latim. In Hoc Signus vinces quer dizer “Com este Símbolo Vencerás” e é uma referência a Constantino, o Grande, que passou a usar a frase como lema após adotar a cruz como símbolo do cristianismo.

Os demais termos – logotipo, identidade visual, etc – também estão corretos, mas estes não sofreram uma campanha a favor de sua extinção, então não sinto que seja necessário defendê-los.

Resumindo, então, use o termo que quiser e seja feliz!

 

 


Agradecimento ao meu professor de alemão, Cyro Lavieri Jr, por sua inestimável ajuda e paciência.

Audrey Kawasaki

Wide 81 coluna @ Wide 81

publicado na revista Wide de novembro/dezembro de 2010, ano 7, nº 81, ISSN 1806-0099

obs: coloco a data aqui igual à de publicação mas sempre respeito o prazo de reprodução.

A minha coluna, nesta edição, foi selecionada como “degustação”, constando na íntegra no site da revista, no formato PDF. Se preferir, pode ler no pdf diagramado.

Audrey Kawasaki

Para vocês não ficarem aí achando que o meu perfume predileto é naftalina, a coluna deste mês é sobre uma artista jovem e contemporânea nascida em 1982, a Audrey Kawasaki.

Em tempo: não use moderno para se referir a artistas do nosso tempo. O termo diz respeito ao Modernismo, movimento que terminou mais ou menos na metade do século passado.

Toda obra possui várias relações espaço-tempo, tanto em si quanto de sua época e sociedade. O cineasta francês Robert Bresson (1901-1999), por exemplo, é famoso por usar espaços desconexos, sem uma relação direta entre si. Assim como em Bresson, o espaço em Kawasaki também é fragmentado, mas ela leva este conceito um passo além e a personagem também é desconexa e, ambos são, simultaneamente, auto-suficientes o bastante para sustentar sozinhos a narrativa. Ou seja, os elementos em Kawasaki são desconexos e fragmentados. Somos todos.

A obra de Kawasaki é uma dúvida entre o erótico e o inocente, uma mistura entre a ilustração e a pintura, uma fusão entre ficção e realidade. Kawasaki é um espelho do nosso tempo. É muito difícil um artista conseguir refletir o seu próprio momento e, ao mesmo tempo, emocionar pessoas. É necessário manter uma sensibilidade extrema sem perder o senso crítico, mesmo que não estejamos – e não estamos – falando de uma arte de protesto ou um ato de resistência.

Esta dubiedade que tão bem retrata Kawasaki é nossa, de nosso tempo. Pela primeira vez na história, sabemos que a seriedade e o respeito não terminam na primeira fazendinha virtual. É esta geração – e nenhuma outra – que consegue trabalhar com o MSN aberto, mp3 a toda, falando no Skype e com novecentas janelas abertas. Curiosamente, vejo muitos tratando este comportamento como problema quando eu acho que é a solução. Nós somos muitos, complexos e ricos.

Assim como acontece com o design ou qualquer outra coisa, a pintura é fruto de uma seqüência de escolhas. Ao escolher determinada cor, enquadramento, traço e elementos, o artista conta uma história, um texto. Conseqüentemente, a imagem tem uma conotação, que varia de acordo com o contexto histórico-social tanto do artista e da obra quanto do fruidor (nome que se dá àquele que frui, que usufrui, determinado conteúdo). O fruidor empresta à obra o seu próprio espaço-tempo, através da sua interpretação. Daí surgem todos aqueles chavões do tipo “a beleza está nos olhos de quem a vê” e outras frases de efeito igualmente bregas.

O design é também objetivo e subjetivo, e a construção de uma linguagem que reflete a si própria e o mundo. O webdesign é, se não a primeira, a melhor sucedida linguagem que assimila este papel do fruidor em sua própria estrutura, modificando-se e evoluindo enquanto existe, em tempo real. O webdesign é a única linguagem que modifica a sua estrutura narrativa – e não apenas a forma e/ou conteúdo – durante a conversação. Este fato já é mais que suficiente para definir o webdesign como único e portanto dificílimo. O espaço-tempo no webdesign, portanto, é volátil e etéreo.

Kawasaki entende este espaço-tempo dúbio que se ajusta conforme existe e, por isso mesmo, existe. Ela consegue unir com perfeição e harmonia a criação da imagem e do espaço como reflexo das questões deste mesmo tempo. Em termos técnicos ela também ousa: usa madeira crua como suporte e mistura a ilustração com a pintura, deixando o traço absolutamente aparente.

Ela não faz um julgamento de valores. Não vivemos em um tempo onde julgamentos moralizantes sejam possíveis (felizmente). Nem sempre observamos isso, mas, aos trancos e barrancos, a humanidade caminha sim para uma maior tolerância, e a internet exerce um papel fundamental nesta evolução. Vivemos um tempo que se permite questionar e que admite o dúbio e o diferente. Não precisamos mais ter certezas. Este é o discurso de Kawasaki. E isso é ótimo.

Provavelmente Kawasaki será vista no futuro com uma estranha curiosidade, com um olhar quase sociológico a respeito das pessoas e dos costumes de nossa época. O fato é que será vista e isso já diz muito. André Malraux (1901-1976) afirmou que a arte é a única coisa que resiste à morte. Ele tem razão.

Outubro

publicado na seção “Inspiração” do Carreira Solo em 1o de outubro de 2010

All is Vanity, de C. Allan GilbertPreciso confessar uma coisa. Eu adoro o “macabro”. Gosto do Dia dos Mortos mexicano, gosto de tudo. Gosto até mesmo do infantilizado Halloween. Quando pequena, minha fantasia predileta era de fantasma, o que muito devia deixar meus pais felizes porque um lençol branco com furos na altura dos olhos não exigia uma produção muito elaborada ou uma carteira cheia. Muito me fascina como o ser humano, consciente de sua própria temporalidade, lida com o tema da morte.

Gosto até, para vocês terem uma idéia do quanto o tema me agrada, da moralizante Vanitas, quando uma obra de arte – normalmente um quadro – resolve esfregar na nossa cara que somos todos temporários e que, portanto de nada adiantam nossas pequenas vaidades (daí o nome) cotidianas.

A má notícia é que o único que conseguiu vencer o tempo foi Zeus e mesmo assim precisou matar o próprio pai, Cronos, para isso. A imortalidade é para poucos. A boa notícia é que ao tirar o monopólio da publicação e distribuição de uma meia-dúzia de mãos, nada nos impede de vivermos eternamente através da nossa obra.

Hoje em dia quem dita a moda são os vampiros. De uma hora para outra, deixaram de ser imagens sombrias e passaram a objetos de desejo e acho que isso fala mais sobre a nossa sociedade do que sobre os sedentos dentuços. Perpetuar-se, ou seja, vencer a morte, tornou-se muito mais simples. Podemos escrever em blogs, publicar ebooks, criar exposições virtuais e até mesmo deixarmos registrada nossa imagem e voz para todo sempre ou pelo menos enquanto existir o Youtube, o que dá mais ou menos no mesmo. Vencemos o medo de nossa finitude. Vampiros são populares. As religiões (reencarnacionistas ou não) ganham força. Nunca se publicou tanto. Nunca se registrou tanto. Estamos todos tentando vencer o tempo.

Faço aqui, então, a pergunta: O que você é capaz de criar algo digno da eternidade? Eu ainda não sei o que responder a isso, mas estou procurando. Não importa o quanto seja bom, não se satisfaça, não se acomode. Busque mais, sempre mais. E melhor. Aí sim você terá vencido.

É Primavera!

Capa da Revista Wide, ano 7, edição número 80, de setembro/outubro de 2010, ISSN 1806-0099. minha coluna na Revista Wide, ano 7, edição número 80, de setembro/outubro de 2010, ISSN 1806-0099.

publicado na revista Wide, de setembro/outubro de 2010, ano 7, nº 80, ISSN 2178-2407
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Botticelli fez três obras para a Villa Di Castello, dos Medici: Nascimento de Venus (1482), Nascimento da Primavera (1478) e Pallas e o centauro (c. 1482). Os quadros estão hoje na Galleria Uffizi.

Para comemorar a estação do ano que finalmente chega, escolhi o Nascimento da Primavera para a coluna de setembro.

Em 1492 Lorenzo, o Magnífico, morre. Lorenzo Medici era ousado e o grande patrono das artes. No mesmo ano, é descoberta a América e de repente a Europa deixa de ser o centro do mundo e o mundo, por sua vez, deixa de ser plano. Também no mesmo ano, os franceses invadem a Itália. Simultaneamente surgem os Estados nacionais (até então as cidades eram as nações). Pode até ter acontecido a mais de 500 anos, mas estamos longe de falar de um período pacato e tranqüilo.

Botticelli era apelido. Seu nome era Alessandro Filipepi e, além de ter sido o pintor oficial dos Medici, teve uma formação altamente erudita e filosófica. É considerado o criador da tradição hermética, que Dan Brown e séries de TV como Lost, Arquivo X e Armazém 13 exploram com grande sucesso ainda nos dias de hoje.

Antes de mais nada, muitos confundem o Nascimento de Venus e o Nascimento da Primavera. O de Venus é aquele com a mulher em pé em cima da concha, tenho certeza de que você conhece. O da Primavera é o que tem um monte de gente dançando com um cupido gordinho em cima.

Os personagens de Nascimento da Primavera são, da esquerda para a direita, sem incluir o cupido: Hermes, as 3 Graças (Aglaia, Thalia e Eufrosina), Venus, Primavera, Clori e o Inverno.

Hermes é associado, entre outras coisas, ao bom governo. Muitos autores acreditam que o rosto de Hermes é uma homenagem a Lorenzo, o Magnífico.

A interpretação a seguir é baseada na obra do historiador alemão Aby Warburg.

As plantas são uma alusão ao Jardim das Hespérides, que além de ser o habitat natural das ninfas, também simbolizava a passagem entre o dia e a noite e por este motivo o quadro é pintado com uma luz de lusco-fusco.

Zéfiro (inverno) se apaixona pela ninfa Clori, a persegue e a violenta (ela já está grávida no quadro). Primavera é filha de Zéfiro com Clori. Sim, é Primavera no ventre de Clori e ela já nasce adulta e vestida. Coisas da mitologia grega. Clorofila, por sinal, quer dizer amizade com Clori.

As Graças (Cárites) são as deusas da dança, dos modos e da graça do amor. São as bailarinas do equilíbrio cósmico e presidem todas as festas. A expressão “sem graça” faz referência a elas.

Um fato interessante é que estes quadros não foram pintados para o público genérico. Foram encomendados para a Villa dos Medici. A Villa era um lugar de exercício do ócio, ou seja, um tempo voltado para si mesmo, de auto-conhecimento. Negócio significa a negação do ócio.

Tanto para os gregos quanto para os romanos, ser culto era uma forma de vencer a morte e por isso o entendimento dos ícones, símbolos e alegorias escondidos nas obras era tão importante.

Tudo começa com a concepção da Primavera, a cena com Zéfiro e Clori. A presença das Graças nos diz ser um momento de festa e Hermes dá a notícia: a Primavera chegou! Por isso essas figuras todas estão ali. O quadro explica o quadro. Nós vivemos um tempo em que a mistura do texto com a imagem, ou seja, tanto da imagem ilustrativa quanto do texto explicativo, é um fato comum e ordinário. Esta prática de auxílios para interpretação e mensagem só se tornou comum depois de Gutenberg.

Estas obras permanecem famosas e fazem sucesso até hoje justamente por não depender de anexos para sobreviver. Talvez deveríamos questionar-nos sobre até que ponto não contamos demais com textos e contextos para que as nossas imagens façam sentido. Será que com um pouco mais de esforço não conseguiríamos construir ilustrações (ou layouts, ícones, logotipos, o que for) mais independentes e portanto mais duradouros?