Die Göttliche Komödie

Die Hölle
Inferno

Erster Gesang
Canto I

Auf halbem Weg des Menschenlebens fand
Nel mezzo del cammin di nostra vita
Quando eu me encontrava na metade do caminho de nossa vida,

ich mich in einen finstern Wald verschlagen,
mi ritrovai per una selva oscura
me vi perdido em uma selva escura,

Weil ich vom rechten Weg mich abgewandt.
ché la diritta via era smarrita.
e a minha vida não mais seguia o caminho certo.

Wie schwer ist’s doch, von diesem Wald zu sagen,
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
Ah, como é difícil descrevê-la!

Wie wild, rauh, dicht er war, voll Angst und Not;
esta selva selvaggia e aspra e forte
Aquela selva era tão selvagem, cruel, amarga,

Schon der Gedank’ erneuert noch mein Zagen.
che nel pensier rinova la paura!
que a sua simples lembrança me traz de volta o medo.

Nur wenig bitterer ist selbst der Tod;
Tant’è amara che poco è più morte;
Creio que nem mesmo a morte poderia ser tão terrível.

Doch um vom Heil, das ich drin fand, zu künden,
ma per trattar del ben ch’i’ vi trovai,
Mas, para que eu possa falar do bem que dali resultou,

Sag’ ich, was sonst sich dort den Blicken bot.
dirò de l’altre cose ch’i’ v’ho scorte.
terei antes que falar de outras coisas, que do bem, passam longe.

Mal e porcamente sei dar bom dia em alemão e já estou aqui tentando ler A Divina Comédia, do Dante Alighieri. Não sou metida, não, estou só pegando textos que sei de cor e salteado para treinar. Como conheço o que diz cada vírgula, não preciso parar em cada trema.

739

Números em alemão são sensacionais. Eles vão pegando uma palavra e juntando com outra, na maior tranquilidade.

0 = null
1 = eins
2 = zwei
3 = drei
4 = vier
5 = fünf
6 = sechs
7 = sieben
8 = acht
9 = neun
10 = zehn

Então, um ser humano normal assumiria que siebenhundertneunundreißig é 793, certo? Errado! Você começa com o 7 (sieben), multiplica por 100 (hundert), aí pega o 30 (dreißig) e soma com o 9 (neun) que está lá no meio, chegando a 39 e aí junta com o que você começou, chegando então a 739!

Não é lindo?

Caso você esteja aí se perguntando, ß se pronuncia ss. E ä tem som de é.

Aí, para facilitar, de vez em quando eles falam 2 como zwo, para não confundir com o drei. Porque, claro, é este o problema.

Dá pra entender perfeitamente porque a psicologia começou em alemão. Tudo doido.

Arlindo Gonçalves e Luciana Fátima

publicado em 1 de março de 2010 no Aguarrás,
ISSN 1980-7767, ano 5, número 24, março & abril de 2010

Recebi para análise três livros de Arlindo Gonçalves, Desonrados e outros contos, Desacelerada mecânica cotidiana e o Carinhas(os) Urbanas(os). Este último, escrito e fotografado a quatro mãos com Luciana Fátima. Preciso confessar que tinha firme intenção de escrever três resenhas separadas, uma para cada livro. Depois de ler os livros, percebo que esta tarefa tornou-se impossível para mim.

Os contos, assim como as fotos, possuem uma estrutura narrativa interessantíssima, de reflexo. Um conto é complementar e reflexo do outro, todos os personagens se entrelaçam, todas as estórias se tocam e todos os livros tocam profundamente o leitor.

São muitos níveis diferentes de espelhamento. Começa, claro, com o Eu da estória sendo contada. Não existe um narrador, existem muitos e nenhum ao mesmo tempo. O narrador é o personagem, o autor e o leitor simultaneamente. Depois, as estórias em si, incluindo seus cenários e personagens, que parecem ser a prova viva de que a teoria das cordas é muito mais palpável do que supõe a Física. O autor brinca com os muitos níveis da cidade de São Paulo, cenário escolhido para os livros. Poderia ser qualquer centro urbano e continuaria funcionando igual. São realidades absolutamente distantes, paralelas, tangentes e próximas ao mesmo tempo. Sim, eu sei que isso não faz qualquer sentido. Leia os livros, fará. O ponto de vista do observador destes muitos mundos é também parte dele e, ao mudar o Eu narrativo, o autor insere o leitor em uma observação ativa, como parte integrante deste cenário multidimensional. E, o último e mais importante espelhamento, é a humanização destes diferentes mundos. Não há qualquer julgamento de valor, não existe uma única moral adotada. Para cada ponto de vista, ou seja, para cada Eu narrador, o autor adota a escala de valores daquele personagem e com isso tece um conjunto – que ultrapassa os limites físicos de um único livro – cromático heterogêneo, rico e por isso mesmo interessantíssimo.

E tem as fotos. As fotos repetem o mesmo diálogo. São rostos olhando para você e você para os rostos. Há uma generosidade de olhar e de se permitir ser olhado que é incomum, tanto para fotógrafos quanto para escritores. As duas profissões, por natureza, são voyeurs, gostam de observar mas preferem manter-se fora do olhar do outro. Estes autores abraçam e acolhem o olhar que volta.

É necessário um olhar maduro para perceber o Outro e enxergá-lo como similar e humano. Não existem grandes diferenças entre você, um marciano, uma prostituta portadora de HIV, um comerciante ou um autor de livros. Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves não apenas sabem disso como aceitam o espelho. E isso é mais do que generoso, é lindo.

A grande dificuldade na fotografia não é técnica, é de discurso. É claro que existem questões de controle da luz, profundidade de campo, etc. O discurso é mais importante. De nada adianta você ter um microfone se não tem nada a dizer. Luciana Fátima tem muito a dizer. E fala junto com outro brilhante orador, Arlindo Gonçalves.

“Há poesia em fachadas de prédios históricos. Ornatos, capitéis, pedestais, cornijas, molduras, abóbadas, cúpulas, motivos vegetais, rostos de pessoas ou de criaturas – ora doces, ora sisudas.

(…) Para quem observa as construções mais detalhadamente, não passa despercebido um certo sentimento carinhoso que partia do responsável pelo projeto para com a cidade. Mesmo as feições mais rabugentas tinham por objetivo afugentar os seres indesejáveis.

Estão lá, resistindo ao descaso, ao vandalismo; verdadeiras gentilezas urbanas que os mestres das fachadas nos legaram.”

Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves, vocês estão errados. A delicadeza, a generosidade, a poesia e a beleza pertencem a vocês.


Carinha(os) Urbanas(os) – Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves – Editora Horizonte

Desonrados e outros contos – Arlindo Gonçalves – Editora Marco Zero

Desacelerada mecânica cotidiana – Arlindo Gonçalves – Editora Horizonte

As homens

Alemão tem 3 artigos. Masculino, feminino e neutro.

O idioma diz muito a respeito de seu povo.

Além disso, o plural é sempre o artigo feminino.

Ou seja, um grupo de médicos é as médicos, que, por sinal, é o  nome de uma banda que eu gosto muito, Die Ärzte.

Divertidíssimo.


Ah, não se deixe enganar: ä se pronuncia é!

Bibliografia resumida

Bibliografia resumida para o curso A arte no Brasil entre os séculos XIX e XX: do fim da arte acadêmica até os modernistas, MASP 2010.

Almeida Júnior – um criador de imaginários. Catálogo de Exposição. Curadoria de Maria Cecília França Lourenço. Pinacoteca do Estado, 25 de janeiro a 15 de abril de 2007.

ALMEIDA, Paulo Mendes de. De Anita ao Museu. São Paulo, Perspectiva, 1976.

AMARAL, Aracy. Arte para quê?: a preocupação social na arte brasileira, 1930-1970 subsídios para uma história social da arte no Brasil. 3a ed., São Paulo: Studio Nobel, 2003.

AMARAL, Aracy. Artes plásticas na semana de 22. 5ª edição revista e ampliada, São Paulo: Ed. 34, 1998.

AMARAL, Aracy. Tarsila Sua Obra e seu Tempo, 3ª. Ed., São Paulo: Editora 34 / Edusp, 2004 (1975) .

BARATA, Mario. Eliseu Visconti e seu tempo. Rio de Janeiro, Zelio Valverde, 1944.

BATISTA, Marta Rossetti et Alli. Brasil: primeiro tempo modernista. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros, 1972.

BATISTA, Marta Rossetti: Anita Malfatti no Tempo e no Espaço –biografia e estudo da obra, catálogo e documentação. São Paulo: Editora 34 / Edusp, 2006, 2 v.

Bienal Brasil Século XX. Nelson Aguilar (organizador). 2a edição, São Paulo, Fundação Bienal de São Paulo, 1994.

BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo, Perspectiva, 1981

CAMARGOS, Marcia. Villa Kyrial: crônica da Belle Époque paulistana. São Paulo:SENAC, 2001.

CAVALCANTI, Lauro, Quando o Brasil era Moderno: Guia de Arquitetura 1928-1960, Rio de Janeiro, Aeroplano, 2001.

CHIARELLI, D.T. “De Almeida Jr. a Almeida Jr.: a crítica de arte de Mário de Andrade” 2 vols., Tese de Doutorado, ECA/USP, 1996.

COLI, Jorge. “Almeida Jr: o caipira e a violência”. In Como estudar a arte brasileira do século XIX. São Paulo: Editora Senac, 2005.

FABRIS, Annateresa. O futurismo paulista: hipóteses para o estudo da chegada da vanguarda ao Brasil. São Paulo: Perspectiva/ Edusp, 1994.

FABRIS, Annateresa. Portinari, Pintor social. SP: Edusp/ Perspectiva, 1990.

GOTLIB, Nadia Battella: Tarsila do Amaral: a modernista. 2a ed., São Paulo: Senac, 2000.

HERKENHOFF, Paulo; e Pedrosa, Adriano (Curadores): Catálogos da XXIV Bienal de São Paulo. Núcleo Histórico: Antropofagia e Histórias de Canibalismo. São Paulo, 1998.

MAGALHAES, A. G. Picasso e o Parque do Ibirapuera: o Brasil moderno? Revista Número, São Paulo, p. 6 – 7, 01 set. 2004.

MATTOS, Claudia Valadão de: Lasar Segall. São Paulo, 1997.

MICELI, Sergio. Imagens negociadas, retratos da elite brasileira (1920-40). São paulo: Cia das Letras, 1996.

PEDROSA, Mário. Acadêmicos e modernos: textos escolhidos III. Organização Otília Beatriz Fiori Arantes. São Paulo: Edusp, 1998. 429 p., il. p&b.

SCHWARTZ, Jorge (org) Da Antropofagia à Brasília: 1920-1950. Ed revista e ampliada, São Paulo: FAAP e Cosac & Naify, 2002.

SCHWARTZMAN, BOMENY, & COSTA. Tempos de Capanema. São Paulo: Paz e Terra; Fundação Getúlio Vargas, 2000.

SEGAWA. Arquiteturas no Brasil 1900-1990. São Paulo: Edusp, 1998.

SEVCENKO, Nicolau. Orfeu Extático na Metrópole: São Paulo sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Cia das Letras, 1992.

ZANINI, Walter (org.). História geral da arte no Brasil – II. São Paulo: Fundação Djalma Guimarães : Instituto Walther Moreira Salles, 1983.

ZANINI, Walter. Vicente do Rego Monteiro. Artista e poeta. São Paulo, Empresa das Artes/Marigo Editora, 1997.

ZILIO, Carlos. A querela do Brasil, a questão da identidade na arte brasileira: a obras de Tarsila, Di Cavalcanti e Portinari/1922-1945. Rio de Janeiro, Funarte, 1982.

Brasil séc XIX e XX

Toda animada recebo o email do MASP com o programa do curso que se inicia na quinta próxima, A arte no Brasil entre os séculos XIX e XX: do fim da arte acadêmica até os modernistas, com a Profa. Dra. Leticia Squeff.

Reproduzo aqui para vocês ficarem aí se mordendo de inveja.

Objetivos e metodologia

O objetivo do curso é discutir as peculiaridades do processo de modernização da pintura brasileira entre os anos de 1890 e 1930. Trata-se de focar um momento-chave da cultura brasileira – que transcorre, em sua maior parte, durante a chamada “República Velha” – e que, paradoxalmente, nem sempre tem sido estudado com o devido vagar pelos historiadores da arte.

Por muito tempo artistas como Eliseu Visconti ou Rodolfo Amoedo foram vistos como pintores acadêmicos ou como representantes de correntes tardiamente alinhadas ao impressionismo. Nessa história pontuada por etapas divididas entre acadêmico e moderno, tradição e vanguardas, a Semana de 1922 ganhou significado de marco divisor fundamental, que organizava a interpretação de artistas e obras. Contudo, estudos mais recentes vêm mostrando o quanto os valores artísticos foram fluidos no caso brasileiro.

Tendo essa questão como pano de fundo, esse curso será centrado na análise de obras e na discussão de estudos de caso.

Programa

11/03 – Aula 1 – A geração de 1880: modernidades possíveis

Leitura: MARQUES, Luiz (org). “Introdução” in 30 Mestres da pintura brasileira. Catálogo da Exposição no MASP. São Paulo, 2001.

18/03- Aula 2 – “Acadêmicos” e “precursores”

Leitura: SOUZA, Gilda de Mello e. “Pintura Brasileira: os precursores”. In Exercícios de Leitura. Campinas: Duas Cidades, 1980.

25/03 – Aula 3 – A “Exposição de Arte Moderna Anita Malfatti”

Leitura: CHIARELLI, “Tropical de Anita Malfatti: reorientando uma velha questão” In Novos Estudos, 80, março de 2008.

01/04 – Aula 4 – A semana de 22: alcance e impasses

Leitura: CAMARGOS, Márcia. “O festival modernista”. In Semana de 22: entre vaias e aplausos. São Paulo: Boitempo, 2003.

08/04 – Aula 5 – Arte moderna e a arte brasileira

Leitura: ZILIO, “A questão política no modernismo”. In Mestres do modernismo. Catálogo de Exposição. Pinacoteca do Estado: Imprensa Oficial, 2005.

15/04 – Aula 6 – Antropofagia e Surrealismo 

Leitura: “O manifesto Antropofágico” In Mestres do modernismo. Catálogo de Exposição. Pinacoteca do Estado: Imprensa Oficial, 2005.

22/04 – Aula 7 – Pintura e arquitetura nos anos 30 e 40

Leitura: FABRIS, A. . A Semana de Arte Moderna e seus desdobramentos. In: Gonçalves, Lisbeth Rebollo. (Org.). Arte brasileira no século XX. São Paulo, SP: ABCA-MAC/USP-Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007, v. , p. 67-87.

29/08 – Aula 8 – O Modernismo em questão: estudos de caso

Leitura: FABRIS, “Modernidade e vanguarda: o caso brasileiro”. In FABRIS, Annateresa (org.) Modernidade e modernismo no Brasil. Campinas, Mercado de Letras, 1994. (Col Arte: ensaios e Documentos)

onde comprar o Godô

Coloquei lá no site do Godô uma relação de locais onde é possível encontrar o Godô dança.

A relação foi gentilmente enviada pela editora e nela constam algumas distribuidoras também, portanto é possível encontrar o livro em outras lojas das redes que aparecem na lista.

Vale a lembrança de que é possível comprar o Godô diretamente no site da editora, recebendo em casa no maior conforto.


ATLANTICA LIVRARIA PAP.E DISTR. FEIRA DE SANTANA BA
W.J. LIVRARIA E PAPELARIA LTDA VITORIA DA CONQUISTA BA
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LEITURA ALAMEDA LTDA – ME BRASILIA DF
LEITURA ALVORADA COMERCIO DE LIVROS BRASILIA DF
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LEITURA BRASILIA LTDA BRASILIA DF
LEITURA TERRACO LIVRARIA LTDA BRASILIA DF
LEITURA TAGUATINGA LTDA TAGUATINGA DF
REPRESENTACOES PAULISTA LTDA SERRA ES
LIVRARIA LEITURA GOIANIA LTDA GOIANIA GO
ELANE FERREIRA DA SILVA – ME SAO LUIS MA
LEITURA DISTRIBUIDORA E REPRES. BELO HORIZONTE MG
LIVRARIA DO PSICOLOGO E EDUCADOR BELO HORIZONTE MG
CENTER BOOK LIVROS DIDATICOS LTDA UBERLANDIA MG
LEITURA JUIZ DE FORA LTDA. JUIZ DE FORA MG
LEITURA CAMPO GRANDE COM. DE LIVROS CAMPO GRANDE MS
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NOVA PARATY COLONIAL LIV.CAFE LTDA PARATY RJ
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Águas de março

Publicado online na Revista Webdesign online em 01 de março de 2010
obs: eu coloco a data aqui no site igual à de publicação mas eu sempre respeito o prazo de reprodução da revista


Águas de março

Todas as crenças, de certa maneira, buscaram na água os seus ritos de passagem e momentos de transição. Para alguns, a água é purificadora, para outros é ligada à morte e às vezes a vidas futuras. Da água nascemos, por ela morremos. Alimenta a Terra, mata a sede dos seres vivos, afoga, constrói e destrói e nela navegamos.

De uma forma geral, independente da cultura, a água era considerada a fonte de vida primordial. No século XVIII, com o surgimento da ciência experimental, a água passa a ser incolor, insípida e inodora. A água não é mais um elemento, é apenas três átomos, H2O. Talvez este distanciamento emocional explique o que leva a humanidade a poluir o elemento que a mantém viva.

A Tailândia homenageia a deusa da água, Phra Mae Khongkha, durante o festival Loy Krathong, que acontece no final da temporada de monções. Milhares de pessoas iluminam os rios e canais com velas, oferecem flores e acendem incensos. É um simbolismo de amor.

Em inúmeras tradições, o peixe, fruto das águas, é um ícone de revelação, sabedoria e santidade. Quando o cristianismo surgiu, o símbolo de Cristo era um peixe. Na tradição cristã, a água é um elemento purificante. Até a saliva aparece na Bíblia, curando os olhos de um cego. Curiosamente, o elemento da extrema-unção é o óleo, que não se mistura com a água.

No islamismo, os fiéis só podem fazer as suas cinco orações diárias depois de um ritual de lavagem do corpo com água limpa, chamado “wudu”, e os mortos recebem três banhos que os prepara para a nova vida espiritual.

A transmutação da água é uma simbologia tão forte que se repete inúmeras vezes. No Egito, Moisés faz um gesto e transforma água em sangue. Foi um choque, consideraram uma violência. Séculos depois, Jesus Cristo transforma água em vinho. E depois, antes de ser crucificado, o vinho se torna sangue sagrado.

É na água que Narciso vê sua imagem refletida. Ou seja, a água pode ser também uma prisão do Ego.

No Brasil, Iemanjá é uma divindade muito venerada, até mesmo por pessoas não-praticantes do Candomblé ou Umbanda. Todo réveillon vemos levas de pessoas jogando flores ao mar para Iemanjá, independente de sua religião. Ela é também um símbolo de fecundidade e rege a maternidade. Na África era cultuada pelos egbá, nação Iorubá da região próxima ao rio Yemojá. Em rituais de Umbanda, banhos de cachoeira, rio ou mar lavam desafetos e infortúnios.

Já para os índios Bororo, da região do Mato Grosso, a água é o mediador entre os irreconciliáveis Céu e Terra. Não podemos pensar em água sem falar da Lavagem do Bonfim, que acontece em Salvador na segunda quinta-feira depois do Dia de Reis, em janeiro. Temos também muitos mitos ligados à água – como o Boto, o Caboclo-d’água, Alamoa, Iara, e Boiúna – que ainda perduram em algumas regiões do país.

Na mitologia grega, o Oceano é tão antigo quanto o mundo e por isso é sempre representado como um velho. Vários ícones repetem este conceito. Os nomes mais comuns da “mitologia aquática” são Netuno, Proteu, Tritão e Tetis. Netuno é geralmente representado nu, com uma longa barba e com um tridente na mão, com o qual ele poderia, a seu bel prazer, provocar terremotos e maremotos. Proteu guardava o rebanho de Netuno, isto é, os peixes. Como pagamento pelo trabalho, Netuno deu-lhe o conhecimento do passado, do presente e do futuro.

A água assume também uma face erótica-mortal com as sereias, que com seu canto atraem os inocentes homens para o fundo das águas.

A cidade asteca de Tenochtitlán (onde hoje é a cidade do México) tinha um sistema complexo e extremamente eficaz de aquedutos. Outra que impressiona é Roma, com suas fontes termais e um sistema hidráulico dos tempos de César que ainda funcionam.

Quando os espanhóis chegaram à América e encontraram os índios, a estranheza foi mútua. Os europeus questionavam se os nativos tinham alma e estes, por sua vez, mergulhavam os espanhóis na água para descobrir do que eram feitos.

Para o taoísmo e para a acupuntura, os meridianos de nosso corpo são como caminhos de água na Terra e dependem de não haver qualquer bloqueio para fluírem. Esse movimento energético (falando de modo simplista) no corpo é conhecido como “chi” e é usado também em artes marciais, como o Tai Chi Chuan e o Aikidô.

O mito do dilúvio, que encontramos entre todos os povos, é a água dos céus e da terra que renova a humanidade nem que seja no tapa. É o símbolo do retorno a um passado romântico, o famoso “no meu tempo era melhor”.

A literatura, então, deita e rola com os simbolismos da água. De Lusíadas a Vinte mil léguas submarinas passando por Vidas secas, o elemento água se torna importante inclusive na narração de histórias.

Curiosamente, a iconografia moderna de água não utiliza mitos e sempre reproduz algum tipo de onda ou pingo. Ou seja, o movimento tornou-se mais importante do que o elemento. Esta mudança de entendimento da água faz todo sentido se pensarmos que somos seres pós-industriais e vivemos em uma época de valorização do conhecimento e da informação que são, por natureza, voláteis e móveis.

A internet, por exemplo, é entendida como um meio fluido, líquido. Prova disso é que usamos um navegador e somos internautas (ou, em inglês, surfistas).

Hoje falamos de fluxo de informação, design fluido, acessibilidade (não-bloqueio, chi), e redes sem limites definidos. Vivemos a água em movimento e refletimos esta fluidez em nosso cotidiano. É natural, portanto, que a imagem do mito-ícone, estática e dependente de contexto, assuma uma importância menor. Vivemos um tempo em que o conteúdo, volátil e etéreo, é mais importante do que seu suporte. Vivemos um tempo em que a onda sonora é mais importante do que a matéria (mp3 versus CDs). E por falar em música, como fã incondicional de Tom Jobim, termino fechando o verão.