entrevista concedida para o programa Perfil Literário, da Rádio Unesp FM
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O Oscar D’Ambrosio foi gentilíssimo e só tenho a agradecer.
Infelizmente eu estava estranhando tudo e – mea culpa – falei mal pra caramba. Coisas da vida, enfim.
Indicação do Godô dança na revista Webdesign, edição de janeiro de 2010, ano 7, número 73, ISSN 1806-0099, página 9, seção “Livros do mês”.

Obrigada, pessoal! Mesmo. Este carinho não tem preço.
“Bombardeadas de estímulos, de mensagens e de testes, as massas não são mais do que um jazigo opaco, cego, como os amontoados de gases estelares que só são conhecidos através da análise do seu espectro luminoso – espectro de radiações equivalente às estatísticas e às sondagens. Mais exatamente: não é mais possível se tratar de expressão ou de representação, mas somente de simulação de um social para sempre inexprimível e inexprimido. Esse é o sentido do seu silêncio. Mas esse silêncio é paradoxal – não é um silêncio que fala, é um silêncio que proíbe que se fale em seu nome. E, nesse sentido, longe de ser uma forma de alienação, é uma arma absoluta.”
Jean Baudrillard, À sombra das maiorias silenciosas
…
O link com as redes sociais, obviamente, é meu.
“Silêncio que proíbe que se fale em seu nome” me parece a origem (a humana, não a tecnológica) de toda a internet.
Pode ser só a minha mente poluída também.
“O tempo cíclico é já dominante na experiência dos povos nômades, porque são as mesmas condições que se reencontram perante eles a cada momento da sua passagem: Hegel nota que ‘a errância dos nômades é somente formal, porque está limitada a espaços uniformes’. A sociedade, que ao fixar-se localmente dá ao espaço um conteúdo pela ordenação dos lugares individualizados, encontra-se por isso mesmo encerrada no interior desta localização. O regresso temporal a lugares semelhantes é, agora, o puro regresso do tempo num mesmo lugar, a repetição de uma série de gestos. A passagem do nomadismo pastoril à agricultura sedentária é o fim da liberdade ociosa e sem conteúdo, o princípio do labor. O modo de produção agrário em geral, dominado pelo ritmo das estações, é a base do tempo cíclico plenamente constituído. A eternidade é-lhe interior: é aqui embaixo o regresso do mesmo. O mito é a construção unitária do pensamento, que garante toda a ordem cósmica em volta da ordem que esta sociedade já realizou, de fato, dentro das suas fronteiras.”
“A cultura é a esfera geral do conhecimento e das representações do vivido na sociedade histórica, dividida em classes; o que se resume em dizer que ela é esse poder de generalização existindo à parte, como divisão do trabalho intelectual e trabalho intelectual da divisão. A cultura desligou-se da unidade da sociedade do mito, ‘quando o poder de unificação desaparece da vida do homem, e os contrários perdem a sua relação e a sua interação vivas e adquirem autonomia…’ (Diferença entre os sistemas de Fichte e de Schelling). Ao ganhar a sua independência, a cultura começa um movimento imperialista de enriquecimento, que é, ao mesmo tempo, o declínio da sua independência. A história, que cria a autonomia relativa da cultura e as ilusões ideológicas quanto a esta autonomia, exprime-se também como história da cultura. E toda a história conquistadora da cultura pode ser compreendida como a história da revelação da sua insuficiência, como uma marcha para a sua auto-supressão. A cultura é o lugar da procura da unidade perdida. Nesta procura da unidade, a cultura como esfera separada é, ela própria, obrigada a negar-se.
A luta da tradição e da inovação, que é o princípio do desenvolvimento interno da cultura das sociedades históricas, não pode ser prosseguida senão através da vitória permanente da inovação. A inovação na cultura não é, porém, trazida por nada mais senão pelo movimento histórico total que, ao tomar consciência da sua totalidade, tende à superação dos seus próprios pressupostos culturais e caminha para a supressão de toda a separação.”
Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo.
“Todo o confuso amontoado do social se move em torno desse referente esponjoso, dessa realidade ao mesmo tempo opaca e translúcida, desse nada: as massas. Bola de cristal das estatísticas, elas são ‘atravessadas por correntes e fluxos’, à semelhança da matéria e dos elementos naturais. Pelo menos é assim que elas nos são representadas. Elas podem ser ‘magnetizadas’, o social as rodeia como uma eletricidade estática, mas a maior parte do tempo se comportam precisamente como ‘massa’, o que quer dizer que elas absorvem toda a eletricidade do social e do político e as neutralizam, sem retorno. Não são boas condutoras do político, nem boas condutoras do social, nem boas condutoras do sentido em geral. Tudo as atravessa, tudo as magnetiza, mas nelas se dilui sem deixar traços. E na realidade o apelo às massas sempre ficou sem resposta. Elas não irradiam, ao contrário, absorvem toda a irradiação das constelações periféricas do Estado, da História, da Cultura, do Sentido. Elas são a inércia, a força da inércia, a força do neutro.
É nesse sentido que a massa é característica da nossa modernidade, na qualidade de fenômeno altamente implosivo, irredutível a qualquer prática e teoria tradicionais, talvez mesmo irredutível a qualquer prática e a qualquer teoria simplesmente.
Na representação imaginária, as massas flutuam em algum ponto entre a passividade e a espontaneidade selvagem, mas sempre como uma energia potencial, como um estoque de social e de energia social, hoje referente mudo, amanhã protagonista da história, quando elas tomarão a palavra e deixarão de ser a ‘maioria silenciosa’ – ora, justamente as massas não têm história a escrever, nem passado, nem futuro, elas não têm energias virtuais para liberar, nem desejo a realizar: sua força é atual, toda ela está aqui, e é a do seu silêncio. Força de absorção e de neutralização, desde já superior a todas as que se exercem sobre elas. Força de inércia especifica, cuja eficácia é diferente da de todos os esquemas de produção, de irradiação e de expansão sobre os quais funciona nosso imaginário, incluindo a vontade de destruí-los. Figura inaceitável e ininteligível da implosão (trata-se ainda de um processo?), base de todos os nossos sistemas de significações e contra a qual eles se armam com todas as suas resistências, ocultando o desabamento central do sentido com uma recrudescência de todas as significações e com uma dissipação de todos os significantes:
O vácuo social é atravessado por objetos intersticiais e acumulações cristalinas que rodopiam e se cruzam num claro-escuro cerebral. Tal é a massa, um conjunto no vácuo de partículas individuais, de resíduos do social e de impulsos indiretos: opaca nebulosa cuja densidade crescente absorve todas as energias e os feixes luminosos circundantes, para finalmente desabar sob seu próprio peso. Buraco negro em que o social se precipita.”
Jean Baudrillard – À sombra das maiorias silenciosas
publicado na revista Webdesign, edição de janeiro de 2010, ano 7, número 73, ISSN 1806-0099
obs: coloco a data aqui igual à de publicação mas sempre respeito o prazo de reprodução

Jano é um dos mais antigos deuses do panteão romano. Segundo a mitologia, não era filho de deuses e ganhou sua divindade após um bem-sucedido e longo reinado. É uma divindade exclusivamente romana, não aparece na mitologia grega. É considerado o deus dos portões, passagens, entradas, portas e similares. Normalmente Jano é representado com dois rostos. O que olha para frente é novo e imberbe e o que olha para trás é velho e barbudo. É aquele que percebe todos os ângulos de uma mesma questão, que vê o passado e o futuro simultaneamente. É também quem dá o nome ao mês de janeiro.
Este conceito, de que o passado é tão importante quanto o futuro na compreensão do todo, ficou esquecido durante séculos no Ocidente. Devemos à revolução dos blogs a retomada desta idéia. Passear pelos arquivos de um blog nos dá poderes de oráculo na visão do passado e uma noção mais clara daquele todo específico, ou seja, do “todo” que o blog pretende mostrar.
Jano possui uma chave dupla, é aquele que tem o tempo em suas mãos. A iconografia da chave de Jano é muito similar à das chaves de São Pedro. Quando o Cristianismo surgiu, a maioria das pessoas era analfabeta e a Igreja recorreu a símbolos que já pertenciam ao inconsciente coletivo para conseguir se comunicar. Existem vários exemplos de “cristianização” de elementos iconográficos que já eram utilizados, como por exemplo a luz na cabeça de Apolo (auréola) ou o 3 como número sagrado. O Cristianismo, por sua vez, também empresta seus ícones a outras culturas e outros tempos. Nossa história é orgânica e permeada por diálogos. Não somos frutos apenas de nosso tempo. Somos frutos de todos os tempos.
Acho no mínimo curioso que sejam os blogs os primeiros desta nova Era a falar de monetização. É atribuída também a Jano a invenção do dinheiro-moeda. As moedas romanas mais antigas (c. 225 a.C), inclusive, trazem Jano em uma face. No verso das moedas de prata, cobre e ouro, respectivamente, as moedas mostram: Júpiter em uma quadriga (biga tem dois cavalos, quadriga tem quatro), a proa de um barco e, uma cena de cobrança de tributos devidos a Cesar. Júpiter, só lembrando, é o deus romano do céu, dos trovões e do dia e é, portanto, outro símbolo da passagem de tempo.
Outra coincidência engraçada é o termo navegar/navegador para internet. Teria sido Jano também o inventor do barco, primeiro utilizado em sua travessia da Tessália a Roma. Jano emigrou para a Itália já casado com Carmise[1] (ou Camasena, uma outra grafia possível), com quem teve vários filhos. Seu filho mais famoso foi Tiber, que empresta seu nome ao rio mais importante daquele país, o rio Tibre (em latim Tiberis). Sempre fico na expectativa que surja um navegador chamado Jano com a feature de um histórico mais inteligente do que uma simples lista.
Essa idéia de Jano como aquele que observa os vários ângulos da questão é tão forte que em representações mais recentes, a partir do século II d.C, às vezes é representado com quatro faces e ocasionalmente com uma face feminina e outra masculina.
O reinado de Jano foi uma Idade de Ouro, com prosperidade, abundância de recursos naturais, liberdade e paz absoluta. Existe uma estátua de Jano com Belona[2] que mostra o deus delicadamente impedindo a passagem da moça. Belona é uma deusa da guerra. Jano é pacífico. Ele não é bruto, não derruba a guerreira a golpes de ignorância. Com sutileza, quase com ternura, faz com que ela não siga adiante. Assim foi todo o reinado de Jano: pacífico e gentil. Estamos muito longe desta realidade, infelizmente, mas online nos esforçamos muito para atingir esta utopia. Nos organizamos em comunidades, buscamos informações (o saber é o recurso mais valioso de nosso tempo), tentamos ganhar dinheiro e procuramos conviver de forma pacífica. Queremos todos, anacronicamente, um reinado de Jano.
Talvez a grande maioria de nós mantenha vivos os arquivos de seu blog sem refletir que isto pode ser uma expressão do desejo humano de perpetuar-se e de ser compreendido. Não mantemos nossos arquivos, como crêem alguns, (apenas) como prova do tempo de estrada ou para o Sr. Google ter o que buscar. Mantemos nossos arquivos como registros nas paredes das cavernas de que ali estivemos, de que pensamos, criamos, erramos, acertamos, vivemos. A vontade de expressão caminha junto com a vontade de registro desta mesma expressão e são, ambas, fundamentalmente humanas e é este fator, e não a facilidade de publicação, que torna o blog forte e, ao mesmo tempo, incompreensível para as grandes mídias habituadas a atender uma necessidade mercadológica e não uma necessidade atávica de poética pessoal.
A construção de nossa poética pessoal, aliás, é o que nos leva a usar ferramentas como o Twitter, Facebook e afins. A chave aqui é “pessoal” e é este o grande problema com o branding e outros jargões em inglês que o marketing adora inventar, mas isso é conversa para outro artigo.
E eis que então chega janeiro e, com ele, todos aqueles clichês de Ano Novo. Não seriam clichês, entretanto, se não tocassem em emoções próximas a nós. Fica aqui, portanto, o meu voto de que 2010 consigamos refletir sobre o passado e o futuro e que encontremos, de alguma maneira, o Jano em nossas vidas.
[1] PALAZZI, Fernando Piccolo, Dizionario di Mitologia e Antichità Classiche, Milão, Mondadori, 1925.
[2] http://commons.wikimedia.org/wiki/File:N29Janus-u-Bellona.jpg