Aruanda

“Se a umbanda é o terreiro físico, onde se desenvolve a macumba, um outro terreiro existe, na imaginação do negro, em plano astral, correspondente àquele, e onde repercurte o bem e o mal que nele se pratica, despertando assim as forças sobrenaturais que passam a agir segundo o poder dos feiticeiros, e à sua vontade – sempre que a sua vontade for justa. É o terreiro de Aruanda.”

MEIRELES, Cecília. Batuque samba e macumba: estudos de gestos e ritmos. Funarte, 1983.

popular

“Popular é um termo literalmente repleto de definições, verdadeiras ou falsas, que gerações de estudiosos tornaram problemáticas. O termo traz em si, como herança, a complexidade da palavra povo, que designa, ao mesmo tempo, uma multidão de pessoas, os habitantes de um mesmo país que compõem uma nação e a parte mais pobre desta nação, (…). Popular acrescenta ainda a ambivalência de um adjetivo substantivado: ao conceito, substitui o critério aproximativo de identificação. Num feixe semântico concorrente e, às vezes, contraditório, o povo e, finalmente, o que é amado pelo povo.”

SANTOS, Idelette Muzart Fonseca dos. Em demanda da poética popular; Ariano Suassuna e o Movimento Armorial. Campinas, Editora da Unicamp, 1999.

O problema da auto-publicação

Antes de começar, preciso deixar claro que existem excelentes autores que publicam no esquema da auto-publicação. O livro ser integralmente ou parcialmente pago pelo autor não tem nenhuma relação com o seu conteúdo. Este artigo é apenas um alerta de que não basta escrever e pagar a impressão. Há muito mais entre o Word e a gráfica do que crê a vã filosofia.

A publicação via editor é melhor não porque o editor seja essa maravilha, não, mas porque submete o texto a inúmeras leituras, revisões e a todo um trabalho editorial que na esmagadora maioria dos casos não existe na auto-publicação. O problema é que a auto-publicação é uma prestação de serviços e, como em qualquer lugar, o cliente tem sempre razão. Na hora em que o autor se coloca como cliente e não como uma parte do conjunto necessário para fazer um livro (a parte mais importante, sem dúvida alguma, mas uma parte – carro não é só motor e outras analogias) o autor perde completamente o discernimento do texto.

Dando um exemplo (existem muitos durante toda a linha de produção de um livro): leitores-beta são leitores profissionais (às vezes até mesmo especializados em análise literária) e não aquele seu amigo super legal e inteligente que jurou de pés juntos que faria uma leitura não-tendenciosa do seu livro. A não ser, claro, que você seja amigo de um leitor profissional do porte de um Eric Novello da vida, mas aí ele mesmo com certeza já te falou isso tudo. É melhor inclusive que seja alguém que não te conhece pessoalmente. A separação entre o texto e o que o leitor conhece do autor é uma tarefa que exige muito tempo de estrada e não é para qualquer um. E isso estou falando só da parte da primeira leitura especializada, não estou nem falando de adequação de discurso, de colocação no mercado, de nada disso…

Outro problema sério é a distribuição. Se você só tem um livro – por melhor que seja – para comercializar, os distribuidores sequer te atendem. A editora, por outro lado, liga para o distribuidor e, depois do ok do produtor gráfico da editora, requisita que o caminhão busque os exemplares direto na gráfica. Caminhão, não aquele carro com um enorme porta-malas da sua prima.

O trabalho de design também não é simples. Não, não serve aquele arquivo seu do Word tão lindo já no formato de livro, com até números de páginas. E não, aquela sua amiga artista plástica que tem um clima assim tão legal, tão próximo do livro, que entendeu tudo, não, ela não pode fazer a sua capa. Quer dizer, nada contra ela fornecer uma imagem para a capa, mas capa não é só uma imagem bonita e chamativa com o título grande.

Repare que nem estou falando de copy-desk e revisão. Copy-desk, aliás, é outra questão. O copy-desk está trabalhando a favor do seu texto, não contra. Não mande um peixe enrolado no jornal para a casa do sujeito só porque ele sugeriu cortar 2 parágrafos do seu texto. É claro que copy-desk erra, assim como revisor, assim como o designer, assim como o editor e, pasme, assim como o autor. Não precisa se angustiar, basta conversar e explicar o seu ponto de vista. E, igualmente importante, ouvir o ponto de vista do outro.

O problema da auto-publicação é que, na maioria das vezes, não há troca. É apenas o autor pagando para uma gráfica imprimir o texto. E o produto final sempre reflete o cuidado que se teve com ele. O leitor não é burro. Não o trate como tal.

publicado em 28 de outubro de 2009
no portal Carreira Solo

Do Romantismo ao Séc. XX – Bibliografia

GOMBRICH, Ernst Hans – A História da Arte, trad. Álvaro Cabral, Rio de Janeiro, Livros Técnicos e Científicos, 1999.

ARGAN, Giulio Carlo – A Arte Moderna, trad. Denise Bottmann e Federico Carotti, São Paulo, Companhia das Letras, 1993.

GRIMAL, Pierre – Dicionário de Mitologia Grega e Romana, São Paulo, Bertrand Brasil, 1998.

BÍBLIA DE JERUSALÉM, tradução dos textos em língua portuguesa diretamente a partir dos originais, cotejada com a edição de La Sainte Bible (Paris, Les Éditions du Cerf, 1973), São Paulo, Edições Paulinas, 1989.

WÖLFFLIN, Heinrich – Conceitos Fundamentais da História da Arte, São Paulo, Martins Fontes, 1989.

STAROBINSKI, Jean – 1789: Os Emblemas da Razão, trad. Maria Lúcia Machado, São Paulo, Companhia das Letras, 1988.

FRIEDLAENDER, Walter – De David a Delacroix, trad. Luciano Vieira Machado, São Paulo, Cosac & Naify, 2001.

REWALD, John – História do Impressionismo, trad. Jefferson Luís Camargo, São Paulo, Martins Fontes, 1991.

COLI, Jorge – Van Gogh: a Noite Estrelada, São Paulo, Perspectiva, 2006.

CÉZANNE, Paul – Correspondência, trad. Antonio de Pádua Danese, São Paulo, Martins Fontes, 1992.

ARCHER, Michael – Arte Contemporânea: uma história concisa, trad. Alexandre Krug e Valter Lellis Siqueira, São Paulo, Martins Fontes, 2001.

FalaFreela! 35 – Nano, micro e pequenas empresas

Um belo dia você acorda e resolve dar um salto de fé profissional: vira empresa. Mas como descobrir o momento certo, como fazer acontecer e o que falar – ou porque falar – , para seus antigos clientes? Essas e outras questões serão respondidas no episódio 35 da meia hora mais valiosa do seu dia.

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Mauro Amaral, Humberto Oliveira e Carolina Vigna-Maru oferecem-se em sacrifício a causa, abrindo o planejamento de suas próprias empresas. Imperdível.

Assim como os links de referência:

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FalaFreela na Revista Vida Simples!

Leia o post do Humberto Oliveira no Carreirasolo: “Eu posso demitir um cliente?”,

E após ouvir, twittar sobre e comentar esse episódio, convido vocês a prestigiarem o podcast do Aguarrás. Ponto certo para quem gosta e sabe produzir cultura.

Pedro Taam @ podcast do Aguarrás

Está no ar o podcast do Aguarrás com o pianista erudito Pedro Taam.

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Foi muito divertido gravar este podcast, como vocês vão notar pelos 2 rindo o tempo todo. No site do podcast do Aguarrás tem links e mais informações.

Espero que gostem (e me ajudem a divulgar)!

Barroco holandês

Reino dos Países Baixos, delta do rio Reno.

Dique em holandês = DAM. Amsterdam = represa do rio Amster; Rotterdam = represa do rio Rotter, etc.

Cidades poderosas e ricas

Várias províncias = Batavia, Holanda, etc. O nome correto é “Países Baixos” mas aqui no Brasil o país leva o nome de uma das províncias, a Holanda.

Invadida pela Espanha depois da unificação espanhola, que domina o território por 100 anos, até 1588.

1588 = 1ª independência dos países baixos, expulsam os espanhóis e se “unificam”. As cidades/burgos continuam importantes até hoje, não há uma unificação cultural, apenas política. Se tornam protestantes calvinistas. É uma região extremamente tolerante, católicos convivem bem não há guerra religiosa -> atrai uma enorme quantidade de judeus, que levam $ consigo. Há liberdade de pensamento, atrai cientistas e pensadores (Descartes, por ex).

Grandes rivais = espanhóis e católicos radicais.

Até hoje “vou mandar o espanhol te pegar” é uma ameaça comum às crianças holandesas.

Marinha mercante forte – fundam as Companhia Holandesa das Índias Ocidentais e a Orientais. Conquistam a Indonésia, o nordeste brasileiro, etc.

Quando Mauricio de Nassau é expulso do Brasil, vão para o norte e fundam NY, junto com uma comunidade judaica enorme.

Cena de interior, c. 1632, Gerrit Van Honthorst

Gordura é sinal de prestígio social, de riqueza. Os bois moviam o arado, ninguém tinha dinheiro para comer carne.

Arara brasileira = contrabando = glória absoluta, riqueza.

Nos mesmos moldes de van Eyck (mesma cultura e região), a riqueza e a opulência eram para ser vividas dentro das casas, do mundo privado. Em público era necessário o cuidado da não-ostentação e um mínimo de decoro.

Vermeer (1632-1675) foi esquecido depois de morto, descoberto só no século XX. Nunca saiu de Delft, não teve alunos, quadros pequenos. Filme Moça com brinco de pérola.

Rembrandt Van Rijn (que nasceu no Reno, não sabemos o sobrenome dele) (1606-1669) – Conhece a glória absoluta como pintor em Amsterdam. No final da vida os 4 filhos e a esposa morrem, perde os principais clientes. Acaba na miséria absoluta.

A lição de anatomia do dr. Tulp

Roupas protestantes (decoro)

O mundo católico não permitia ciência experimental – Holanda = liberdade de pensamento.

A ciência experimental nasce no século XVII e aos poucos se distancia da religião.

A ronda noturna (1642) = caravaggismo extraordinário, milícias particulares dentro da lógica puritana protestante, eram também bombeiros e agiam na prevenção de incêndios.

O filósofo em meditação = fase final da vida, quase tenebrista.

Peter Paul Rubens (1577-1640)

“Rubens e a sintuosidade da matéria”

O rapto das filhas de Leocipo (1618) – rapto envolve violência sexual, seqüestro é privação de liberdade em troca de dinheiro – argonautas Castor e Pólux são os raptores – A descrição do prof. Renato da moça que está mais no topo, sendo raptada, foi impagável: “ao mesmo tempo ela agradece a Deus, vejam a expressão de prazer”.

Diego Velázquez

Diego Velázquez
(1599-1660)

Até o séc. XV a Espanha era dividida em 2: norte católico e sul muçulmano (mouros, mundo extremamente tolerante até o final do século XVI).

Castellano = espanhol típico de Castela

Com a unificação dos reinos, os católicos invadem o sul e expulsam os mouros para o Marrocos e para Argélia. Estado Nação no começo do século XVI.

Dinastia austríaca: Carlos V do sacro império romano-germânico, ou Carlos I da Espanha, governa a Espanha e conquista a America -> o maior fluxo de ouro e pedras preciosas da história da humanidade (incluindo Carlos Magno, etc).

Surge a pirataria, para saquear o ouro que chegava em navios.

98% da pirataria era financiada pelos estados inglês e francês. O maior pirata de todos tempos foi Sir Francis Drake, amante da rainha Elisabeth II da Inglaterra.

Séc. XVII – Velázquez nasce em Sevilla e depois vai para Madrid, a nova capital.

Felipe IV, neto de Felipe II, era o grande patrocinador de Velázquez.

A forja de Vulcano (1630)

Vulcano (Hefesto) é o deus ferreiro, é o chefe da oficina. Vulcano foi rejeitado por sua mãe Juno porque era muito feio e foi expulso do Olimpo. Na queda, fraturou o calcanhar direito e passou a andar sempre cocho, mancando. É o primeiro dos deuses do mundo inferior. Resignado, vai até o Vesúvio e trabalha o metal. É o deus das máquinas, da tecnologia e do mundo prático. Quando um deus queria uma armadura, era Vulcano quem fazia. Juno arma uma armadilha para Venus, sua rival, para que se case com Vulcano. Venus casa com Vulcano, pobre e feio, e o trai o tempo todo. Apolo ai à forja de Vulcano e lhe conta que está sendo traído por Venus, na frente dos empregados (é este o momento retratado no quadro). Vulcano trama uma vingança. Constrói uma rede de metal muito fina, quase transparente, e coloca sob o lençol da cama de Venus, presa com roldanas. Espera Venus e Marte (pais de Cupido) estarem em uma situação comprometedora e os “fisga” na rede. Vulcano então chama todos os deuses do Olimpo para ver. Ao contrário de repreenderem os amantes, riem de Vulcano, imagine, se aborrecer por algo tão natural assim. Vulcano se tranca em sua forja e nunca mais sai.

Há uma certa erudição no quadro (é preciso conhecer mitologia Greco-romana) mas dita de maneira absolutamente cotidiana, aproximando o discurso com o contemporâneo.

Venus ao espelho (1644-48)

Primeiro nu da história da pintura espanhola.

Venus se admira ao espelho, com o filho Cupido (Eros), de sua relação com Marte. É também um Vanitas, denúncia da vaidade.

As Meninas (1656)

Título dado posteriormente pelos portugueses.

Velázquez tem um prestígio real inacreditável. O rei Felipe IV constrói para ele um atelier dentro do palácio.

Os bastidores da pintura = as condições da feitura de uma imagem barroca, a “cozinha” de um quadro.

Dica de livro: FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 1966.

ps: escrevi, em 2004, um artigo sobre o Velázquez.

Borromini

Francesco Borromini

(1599-1667)

San Carlino alle quattro fontane

(São Carlos das 4 fontes) – fica no cruzamento de 2 ruas, onde existe uma fonte em cada esquina.

Uma das fontes está encrustada dentro de San Carlino alle quattro fontane.

São Carlos é Carlos Borromeu, recém-canonizado. É um santo da Contra-reforma.

Borromini fez a fachada e o interior, em momentos separados:

Interior: 1638-1641

Fachada: 1665-1667

Introduz o movimento radical da fachada, rompe com o frontão triangular grego (sem concreto armado, é entalhado na pedra).

A fachada esconde o interior, que comporta a capela, um pequeno claustro e a cela.

O barroco na arquitetura nasce em Roma, é uma nova linguagem, cria o espetáculo a partir do antigo.

Côncavo/convexo – fundamental a aplicação de uma matemática ousada de elementos que se equilibram.

Linguagem arquitetônica clássica precisa ser reinventada a serviço do maravilhamento, do espetáculo.

Cúpula elíptica

Barroco branco, sem muita cor, mas com uma incrível complexidade matemática, ousadia na estrutura. A matemática está a serviço do abalo dos sentidos e não do prazer do intelecto (Renascimento).

Palazzo Barberini

O maior palácio barroco de Roma.

Papa Urbano VIII Barberini (pontificado de 1623 a 1644) – era prática o Papa indicar um sobrinho para cuidar das finanças da Igreja (sobrinho = nipote, em italiano -> nepotismo) – Cardeal Francesco Barberini (mecenas das artes).

Francesco Barberini contratou Borromini para remodelar por dentro do Palazzo Barberini (hoje é um museu, a Galeria Nacional da Arte Antiga, onde estão os melhores Caravaggios do mundo). A fachada é de Carlo Maderno, não é de Borromini.

“A diabólica escada” = primeira escada helicoidal do mundo.

Quebra a monotonia do visível, gera o espetáculo, o impacto e a desorientação dos sentidos.

O triunfo da Divina Providência e da família Barberini

Pietro da Cortona (1596-1669) – teto afrescado entre 1633 e 1639

Grande decoração barroca – o barroco do excesso, a perspectiva a serviço do espetáculo, é considerada a “Capela Sistina do Barroco”.

Trompe l’oeil – engana o olho

A matemática renascentista esclarece o visível, a barroca engana o olho.

Barroco super-desenvolvido = rocaille (concha em francês) = Rococó

Revista Vida Simples

revista Vida Simples de outubro de 2009, editora Abril, ISSN 1678-7609 (capa) revista Vida Simples de outubro de 2009, editora Abril, ISSN 1678-7609 (capa)

Saiu na revista Vida Simples de outubro de 2009 uma indicação para o Fala Freela!, podcast que faço com o Mauro Amaral e com o Humberto Oliveira.

Muito legal! Obrigada, pessoal!

A revista Vida Simples é uma publicação da editora Abril, ISSN 1678-7609.

São Jerônimo penitente no deserto

São Jerônimo penitente no deserto, circa 1448-1451, têmpera sobre madeira (carvalho)

Andrea Mantegna (1431-1506)

O quadro é descoberto em 1930 em uma galeria em Londres, não se sabia sua autoria com certeza e durante muito tempo foi atribuída a Marco Zoppo. Hoje existe um consenso de que é de Mantegna.

Produção humanista da imagem: no século XV há uma intelectualização do artista, que deixa de ser um simples artesão. O pintor passa a ser um pensador. A imagem tem uma função estética mas também é didática. Os quadros tem um caráter erudito, é preciso conhecer a estória para reconhecer a imagem.

São Jerônimo (c. 340/347-420): um dos grandes doutores da igreja primitiva. Foi ele quem traduziu a bíblia para a vulgata (latim vulgar) e era um filósofo e gramático. Sonha com sua “missão” e vai para o deserto, onde traduz a bíblia, solitário.

Elementos iconográficos:

1. Martelo: gravação de escrituras

2. Deserto: vazio, silêncio absoluto, contato com o absoluto (síntese entre os textos platônicos e os textos judaicos)

3. Terço e livro nas mãos: terço = fé / livro = razão – diálogo com os gregos

4. Chapéu vermelho: Jerônimo era cardeal e tinha um cargo na igreja (bibliotecário). Abdica disso, abdica da grande fama que tinha.

5. Tamanco: símbolo do caminhante, daquele que procura a verdade

6. Caverna: texto de Platão

7. Crucifixo dentro da caverna, pequena vela que ilumina a cruz + coruja em cima da entrada da caverna = ícone cristão + alegoria cristã. Coruja = animal de Minerva / Palas Atena, a deusa da sabedoria, da inteligência.

8. Passarinho vermelho: semelhante ao cardeal, testemunho (passarinho estava ao pé de Cristo na cruz, pinga sangue e fica vermelho)

9. Pedras, caminhos tortuosos: a verdade não é obtida literalmente, é difícil de ser vista e só se mostra àqueles que estão à sua altura. Diálogo com escultura e com a permanência das coisas – Mantegna é o grande mestre da superfície petrificada.

10. Leão: na agiografia de São Jerônimo, ele encontrou um leão (leão = instinto da natureza / desejos) rodopiando no deserto com um espinho espetado na pata. Leão em agonia, Jerônimo sem ter medo arranca o espinho da pata do leão. Jerônimo o amansa (doma/domina o desejo) e ele se torna seu bichinho de estimação. Submete o instinto animal ao freio da razão e da fé.

Bernini

Gianlorenzo Bernini

(1598-1680)

Maior escultor, urbanista e arquiteto do Barroco.

Imenso atelier, grande mestre de projetos, vários ajudantes. Usava vários blocos de mármore em suas esculturas, sem essa de bloco único branco sem veios.

Grandes fontes = objeto cívico (distribuição de água potável) e teatral, com o impacto emocional causado nos transeuntes de Roma.

Piazza di San Pietro

Urbano VIII Barberini encomenda o baldaquino do interior da Basílica de San Pietro e Bernini usa para o trabalho o bronze das portas derretidas do Panteon.

“aquilo que não fizeram os bárbaros, fizeram os Barberinis”, dizia-se na época sobre o Panteon.

Elipse = forma básica do Barroco (não há mais o círculo).

Johannes Kepler descreve a órbita elíptica dos planetas.

Os barrocos não negam a matemática, a usam para tirar dela efeitos teatrais. Pensam a forma como motivadora das paixões.

Bernini é quem cria a praça e a colunata do Vaticano. A via da Conciliação, avenida que une o rio Tibre à Praça de São Pedro, é criada muito depois, sob encomenda de Mussolini, que também é quem institui o Estado Vaticano. Beleza é uma manifestação física do sagrado.

Roma, apesar de ser o centro do poder católico, era, dos estados católicos o mais liberal de todos. Havia uma extrema liberdade de pensamento na época.

Bernini usa o erótico, especialmente os mitos Greco-romanos eróticos com um sentido moralizante. Não é uma arte democrática, necessita de um eruditismo para ser compreendida e exige um preparo para “suportar” o erotismo. Ou seja, só a aristocracia pode ter desejo.

Arte poética de Horácio: Ut pictura poesis (assim como a pintura, a poesia).

O êxtase de Santa Teresa D’Avila

(1647-1652)

Família Cornaro, aristocratas importantes, encomenda a capela morturária da família a Bernini. Escolhem uma pequena igreja construída no final do séc. XVI em homenagem à Virgem Maria, a Santa Maria della Vittoria. Os Cornaros eram devotos de uma santa poetisa, intelectual, recém-canonizada, Santa Teresa D’Avila. Foi freira, passou a vida toda enclausurada e descreve em seus poemas seus encontros místicos com anjos e Jesus Cristo. De acordo com seus relatos e poemas (existe uma tradução para o espanhol), ela vivencia o êxtase nestes encontros.

Êxtase = experiência de elevação física, experiência religiosa dionísica, usa as emoções do corpo como suporte para o transbordamento do sagrado.

Santa Teresa D’Avila se casa misticamente com Jesus Cristo, que passa para ela todo seu sofrimento, é uma experiência aniquiladora. O sagrado é levado às últimas conseqüências, ela desenvolve o “amor de Cristo”. O êxtase de Santa Teresa D’Avila mistura o erotismo com o sagrado, no seio da igreja católica, uma capela mortuária.

A década de 1960, uns 300 anos depois, volta com o êxtase como experiência de percepção individual, as drogas são o êxtase individual e individualista, é uma experiência egoísta, vazia e sem objetivo. Hoje é apenas o vício, não tem sequer o conhecimento individual.

O orgasmo é um momento de êxtase quando abandonamos o sensível, ultrapassamos o visível. Em francês a expressão para orgasmo é “La petite morte” (a pequena morte), retratando na linguagem o instante de abandono e libertação do mundo da matéria. O erotismo no Barroco é moralizante e não libertador.

Dica de livro: Imagem e persuasão, ensaios sobre o Barroco, Giulio Carlo Argan, Companhia das Letras