São Cristóvão

Para fechar bem o ano e me alegrar com tanta competência, a Editora Fundamento me enviou dois lindos exemplares do livro escolar onde foi publicada uma fotografia minha, da Feira de São Cristóvão.

Acompanhou uma simpática carta e uma prática marcação na página da fotografia. Extremamente gentis. Obrigada!

editorial NEXT Brasil 6

NEXT Brasil 6 NEXT Brasil 6

A partir deste número, inicia-se uma nova fase da revista NEXT, nascida graças ao empenho e cuidado do inesquecível Ivan Bentini – falecido há poucos meses – e de sua colega Carolina Vigna-Marú. Com esta edição, a Unisul (Fundação Universidade do Sul de Santa Catarina) assume a organização e a distribuição da revista, fiel à mesma missão original.

A desorientação generalizada da nossa sociedade agrava a desorientação interna das empresas, causada pela dafasagem cultural e pelo impacto da globalização. Decorre daí um bloqueio à criatividade e a compulsão de repetir sempre e somente os métodos organizacionais pregados nas business schools americanas, sem valorizar a originalidade extraordinária da cultura local.

No início do século XX, depois que a indústria superou a agricultura, o tempo do trabalho prevaleceu sobre o tempo livre, e os trabalhadores em sua grande maioria eram operários industriais. Contemporâneos dessa revolução, Taylor e Ford souberam fazer a passagem da organização do trabalho agrícola e artesanal para o trabalho industrial.

Um século depois, a produção de bens imateriais suplantou a produção de bens materiais, o tempo livre superou o tempo de trabalho, e na maior parte das empresas prevalece o trabalho intelectual. Portanto, é necessário iniciar uma nova revolução cultural capaz de migrar as organizações de um postura industrial para uma postura pós-industrial.

A NEXT tem como objetivo oferecer uma contribuição científica para essa revolução.

Domenico De Masi

Havana Café

publicado no Aguarrás

Nós, filhos da era da mercadoria lidamos com as coisas na condição de produtor ou na de consumidor, e em geral somos irresistivelmente mais propensos ao processo de consumo. – Bertolt Brecht

Foi uma ousadia do Marcelo de Alvarenga me convidar para Havana Café, considerando que ele sabia de antemão que detestei todas as montagens brasileiras de musicais que vi até hoje. Mentira, não queria parecer chata, mas a verdade é que detesto musicais. Ponto. Mesmo sabendo disso, o confiante pianista insistiu. Fui. Vi. Amei.

Havana CaféO texto, brechtiano, permite o riso e a reflexão em iguais proporções. Por algum motivo obscuro, as pessoas tendem a associar Bertolt Brecht apenas com engajamento político, esquecendo que é o humor que alinhava o espetáculo. O texto é reflexivo sim, como em reflexo, como em espelho. Vemos no teatro aquilo que nos retrata. Eu ri feito uma hiena bêbada, como filha da era da mercadoria que sou.

O Havana Café é montado em clima de cabaré pela Companhia Ensaio Aberto, com direito a drinques servidos pelas atrizes. Logo na entrada, a simpatia do Luiz Fernando Lobo conquista e faz a ambientação da platéia. Luiz Fernando, aliás, é responsável pela costura do espetáculo e o faz com maestria. Ele está tão à vontade com o papel que parece ter frequentado cabarés a vida inteira. Sabe escolher a brincadeira certa na hora certa e este é um talento raro.

Tuca Moraes erra na impostação de voz com microfone e quase nos assusta com o grito inicial que rompe exageradamente o clima tão cuidadosamente criado. Felizmente tudo se salva quando entra a Stella Rabello. No decorrer do espetáculo Tuca parece ?esquentar? e se recupera.

Merece destaque também Helena Bittencourt, que faz a professora ucraniana, além de cantar de verdade, tem a veia cômica bem desenvolvida e me faz rir sozinha enquanto escrevo esta resenha, com a lembrança do seu solo.

Sanny Alves tem total controle não só do seu corpo e da sua voz ? o que já seria muito ? como de todo o espaço e da platéia. Preciso dizer que Sanny é, sem margem de dúvida, quem mais deixa lembrança (das mulheres). Ela é divina, do tipo que toda mulher quer ser e todo homem quer ter.

O contrabaixo mal se ouve e acaba desaparecendo no palco mas o piano e o sax estão na medida certa. Os músicos que tocam sax e piano estão integrados no espetáculo e se fazem notar, sem cair na armadilha de música de fundo.

Cláudio Basttos é absolutamente perfeito. É o barman caricato de nosso inconsciente coletivo durante a primeira metade do espetáculo e o ponto de encontro do cabaré na segunda.

O Havana Café está muito bem estruturado, montado e realizado. A direção é a melhor de todas: a que não se impõe à força mas se faz notar com naturalidade no decorrer do espetáculo. A cenografia de Cláudio Moura é meticulosa e faz com que o público compreenda tudo imediatamente. O figurino de Cláudio Tovar também está na medida, inserindo os atores com perfeição no ambiente.

O Havana Café transforma definitivamente Luiz Fernando Lobo em uma marca de qualidade. A sua direção será suficiente para me levar ao teatro novamente, mesmo que seja outro musical.

Brecht, assim como Shakespeare, é levado mais a sério do que deveria. Explico: ambos escreviam para a diversão. Com conteúdo, mas sem esquecer que o teatro devia divertir. São escritores do cotidiano, populares, para o povo. Havana Café diverte, sem com isso esquecer de nossas contradições naturais, sem esquecer que somos todos ? platéia e atores ? filhos da era da mercadoria. Tanto Shakespeare quanto Brecht criticavam o status quo sem perder o humor. A porção política do espetáculo não passa em branco e é, como quase tudo de Brecht, bastante didática mas nem por isso vá ao teatro Café Pequeno no Leblon (RJ) esperando uma palestra. Vá se divertir e leve os amigos.


Havana Café Havana Café Havana Café Havana Café Havana Café - cartaz

Revista Webdesign

Pessoal,

Saiu um artigo meu na Webdesign.

Revista Webdesign, novembro de 2007, ano 4, número 47, www.revistawebdesign.com.br

página 11, seção Post-it, “Referências sobre ilustração vetorial” – pequeno parágrafo com dicas minhas sobre o assunto.

páginas 34, 35, 36 e 37 – artigo “Passo a Passo – Criando uma ilustração vetorial”

Revista Webdesign, novembro de 2007, ano 4, número 47 - artigo-tutorial de ilustração vetorial Revista Webdesign, novembro de 2007, ano 4, número 47 - artigo-tutorial de ilustração vetorial Revista Webdesign, novembro de 2007, ano 4, número 47 - artigo-tutorial de ilustração vetorial Revista Webdesign, novembro de 2007, ano 4, número 47 - artigo-tutorial de ilustração vetorial

Custa menos de 10 pratas.

Nas bancas!

tutorial de ilustração vetorial

Revista Webdesign, novembro de 2007, ano 4, número 47, www.revistawebdesign.com.br

página 11, seção Post-it, “Referências sobre ilustração vetorial” – pequeno parágrafo com dicas minhas sobre o assunto.

páginas 34, 35, 36 e 37 – artigo “Passo a Passo – Criando uma ilustração vetorial”

Revista Webdesign, novembro de 2007, ano 4, número 47 - artigo-tutorial de ilustração vetorial Revista Webdesign, novembro de 2007, ano 4, número 47 - artigo-tutorial de ilustração vetorial Revista Webdesign, novembro de 2007, ano 4, número 47 - artigo-tutorial de ilustração vetorial Revista Webdesign, novembro de 2007, ano 4, número 47 - artigo-tutorial de ilustração vetorial

Ricardo Noblat

Ricardo Noblat, do Globo, em 21 de outubro de 2007, comenta:

Vale a pena acessar

(reprodução de uma fotografia de Thiago da Arcela, do artigo “Captura da Luz 3“)

O Portal de Arte Aguarrás aborda diversos temas como música contemporânea, música erudita, arte contemporânea, cinema, teatro, design, literatura e por aí vai. Além disso, o Aguarrás também faz algumas edições curtinhas em vídeo, em torno de 5 minutos, com temas diversos. Já teve Jorge Durán (cinema), professor Parafuso (capoeira), Ana Paula Maia (literatura) e outros. Aqui

Sugiro diariamente sites, blogs e fotologs que valham a pena ser acessados. Esses passarão a fazer parte da seção aí acima, do lado esquerdo, chamada “Vale a pena acessar”.


Ricardo Noblat, do Globo, em 21 de outubro de 2007, fala sobre o Aguarrás

Captura da Luz 3

publicado no Aguarrás

O espaço foi pequeno para a grandeza dos artistas”, me disse Alexandre ao saírmos do espaço oPHicina, na Vila Madalena. Ele tem razão. O grupo captura da Luz organizou uma mostra de alta qualidade (e quantidade). Ótimas e muitas ampliações. Tantas que mal couberam na casa.

Os fotógrafos que mais me impressionaram:

Rodrigo Jazinski, com suas cores modernas e composições interessantes, é muito bom. As fotografias dele são depoimentos urbanos antes de se tornarem cor.

Eduardo Muylaert, com umas pbs cênicas de fazer inveja, leva o conceito de captura da luz ao pé da letra. Suas fotos mostram escolhas muito conscientes de luz e composição.

Matangra e sua arte moderna, colorida, urbana, adorei.
Célia Mello
Célia Mello me lebrou Doisneau com seus pbs. Ela tem duas linhas diferentes, e as suas sobreposições (no filme, “na unha”, não é manipulação digital) surpreendem com ritmo.

Bruno Sandini ainda não definiu muito bem seu estilo mas, não importa por qual caminho escolha seguir, vai ser bom. Ele se preocupa com o motivo de tudo na foto e isso, por si só, já é suficiente para definir um grande fotógrafo.

Tiago da Arcela
Tiago da Arcela é quase pop art, as cores são fortes e mesmo quando ele resolve brincar com monocromáticos consegue manter o ritmo pop.

Renato Soares mantém o seu já conhecido trabalho com índios mas a mostra traz vários formatos e até mesmo pequenas ampliações que devem ter o tamanho de mais ou menos metade de um cartão postal. O interessante em fotógrafos como o Renato é que as imagens não perdem a sua força, independente do tamanho da ampliação.

Alberto Oliveira é uma mistura entre fotógrafo e artista digital. O que gosto nele é que a manipulação é assumida e incorporada, não é uma muleta para o que não conseguiu fazer com a câmera, é uma opção consciente e parte de um projeto visual completo.

Carlos Fadon e seus reflexos. Fadon assina como fotógrafo mas deveria assinar como poeta. Concretismo puro, muito bom.

Hugo Curti
Hugo Curti, com seus horizontes baixos e plantas tranquilas.

Claudio Lunardelli é artista digital. Manipula objetos, não se limita a alterar contrastes ou a fazer sobreposições. Ele usa a ferramenta para criar novas imagens, completamente novas, que não existem no mundo real.

Outros lá estavam, todos bons.

Peter de Brito
Agora, o trabalho pelo qual eu me apaixonei foi o do Peter de Brito. Ele tem uma leveza e um carinho no olhar que há muito eu não encontrava. A série “Lápis de cor”, com fotos da Parada Gay de 2003, é de uma doçura difícil de descrever. A maioria dos fotógrafos que conheço (eu inclusive) se preocupam em conseguir a imagem exatamente como a imaginaram antes do clique. Peter consegue ver através da imagem e aceitar o outro, diferente ou não, como ele é. Isso não é apenas raro na fotografia, é raro na humanidade.

Cyber Café

Em 1998 tive um programa na tv chamado Cyber Café, “o programa light para heavy users”.

Encontrei uma das entrevistas que fiz no Youtube. O programa tinha uma hora de duração, semanal. A entrevista está picada em 6 partes por causa da limitação de 10 minutos do youtube.

E sim, sou eu mesma, de cabelos curtos e bem… Alguns bons anos mais jovem e ainda usando nome de solteira.

Assistam!

Dia 07/11/1998, às 13h, Carolina Vigna entrevista Marco Antonio Perna, Webmaster da Agenda da Dança de Salão Brasileira (www.dancadesalao.com/agenda), no programa Cyber Café da Vinde TV (NET, TVA, etc.).

- parte 1

- parte 2

- parte 3

- parte 4

- parte 5

- parte 6

Muito bom encontrar isso.

Na parte 4 eu apareço dançando com o Perna. Nós gravamos tudo no mesmo dia e logo depois da entrevista, antes de irmos pro salão gravar os takes de dança, uma lâmpada do set caiu no meu pé e eu estava com uma dor degraçada e com o pé sangrando, mas resolvemos gravar assim mesmo. O Perna foi gentil em não fazer muitas firulas na dança para que, basicamente, eu não caísse de dor. The show must go on.

E, só pra não deixar passar em branco, as animações (e modelagens) em 3D da vinheta de abertura e encerramento são minhas. Foram feitas no 3D Studio DOS, jurássico e ultrapassado. Para a época, eram boas.

Amei.

Jogos Visuais

publicado no Aguarrás

Fui no centro cultural da Caixa (RJ), devo confessar, ver “Jogos Visuais – arte brasileira no Pan” com uma certa impaciência já que tudo que espero do Pan é que acabe logo. A exposição, de curadoria de Manoel Fernandes, conseguiu me dobrar.

Oriana Duarte

Oriana Duarte mostra stills ampliados com closes de uma mesma atleta. Por algum motivo obscuro, retratistas esportivos (ou de dança) gostam de mostrar o absurdo esforço físico necessário como se fosse leve, simples e fácil. Oriana foge desse lugar comum e mostra o esforço de várias formas. Uma, o próprio exercício retratado. Duas, o imenso barco vermelho no meio da sala, maior que a atleta. Três, o still pixelado de uma captura assumida e incorporada. Nada é fácil, nem mesmo fazer as fotos. Quatro, o vídeo, grande, estourado, que nos cansa por assimilação.

José Tannuri - fotografia de Clarisse Tarran

José Tannuri consegue mostrar um Rio de Janeiro em duas rodas que é caricato e simultaneamente verdadeiro e romântico. Um Brasil possível, que se inventa e reinventa, à venda na carrocinha mais próxima.

Eudes Mota

Depois vi os remos de madeira antiga de Eudes Mota. É impossível não pensar em como são similares os nossos utensílios. Remo, taco de críquete, pá de ventilador, não faz a menor diferença. Eudes esfrega na nossa cara que somos iguais. Remo, porta ou colher de pau.

A vídeo-instalação de Daisy Xavier e Célia Freitas tem um quê de psicanálise. A nadadora vai sempre em frente pela água que escorre na tela. A água que escorre, como o tempo, a natureza, a vida, o infinito, não importa, nos dá a certeza do inexorável e a nadadora que corta isso tudo nos garante que o ser humano ainda é possível. Otimistas.
Raul Mourão Ratão Diniz Bira Carvalho Bira Carvalho Adriano Rodrigues Adriano Rodrigues Adriano Rodrigues

Fotografias de esportes tem, a grosso modo, quatro possibilidades: movimento suspenso (muita luz, lentes maravilhosas, filme rápido e voilá um atleta parado no ar), movimento assumido (borrões e afins), perspectivas (ângulos incomuns, distorções de lentes, essas coisas), e portraits (geralmente em um preto e branco “expressivo”). E aí sempre me dá um pouco aquela sensação de dejá vu.

Matheus Rocha Pitta consegue fugir de tudo isso com Câmara de compensação. E consegue retratar o jogo contido tanto nas artes quanto nos esportes, levando à exposição um de seus raros momentos polissêmicos.

Felipe Barbosa Felipe Barbosa

Felipe Barbosa critica o esporte de consumo com suas bolas rotuladas, catalogadas, organizadas, penduradas na parede. Ele faz o mesmo com outra obra, ao desmontar e remontar uma bola de futebol parece lembrar que a máquina marqueteira do esporte não existe sem o indivíduo (atleta ou artista, aqui não importa).

Marcos Cardoso também remonta bolas de futebol, mas a partir de rótulos jogados fora. A crítica é a mesma mas o método tem um resultado bem mais gráfico.

Aí tem os vídeos.

Ana Vitória Mussi

Ana Vitória Mussi mostra um boxe de alto contraste que traz toda uma nova interpretação do chiaroscuro mas para quem que, como eu, não tem a menor idéia de quem foi Éder Jofre Galinho de Ouro, a mensagem se perde um pouco.

Paula Gabriela e o seu Simbiose mostra duas mulheres andando de um lado para o outro, se confundindo pela falta de foco. É o tal do “movimento assumido” que anda muito em moda ultimamente.

Alice Micelli

O vídeo da Alice Micelli, 99,9 metros rasos, mostra um corredor que vai desacelerando, parando no ar, morrendo na praia. O som vai parando junto. Hilário e angustiante ao mesmo tempo.

Marcos Chaves

Marcos Chaves e sua Foca! também mostra a repetição. É, de fato, muito difícil para o artista entender a repetição no esporte. Para o artista, o aprendizado é um caminho contínuo e normalmente muito longo. Para o atleta, a perfeição só é conseguida através da repetição. Aí um olha para o outro e enxergam focas amestradas.

Marepe mostra o aquecimento de algum time de futebol pequeno. Os jogadores cantam enquanto fazem aqueles movimentos repetitivos. Parece uma ladainha hipnótica igual a de mulheres bordadeiras, militares, religião, não faz diferença. Adorei. Marepe. Você tem razão: somos todos iguais, realmente.

AiráOCrespo & AFA (estudo)

Tem também um enorme graffitti de AiráOCrespo & AFA. Usa tinta spray e acrílica. A spray dá a cor, a textura, a luz, o movimento. A acrílica dá o drama, o foco. Sensacional. Os corredores estão todos mais ou menos na mesma linha imaginária de chegada. Pernas, pra que te quero?! Ah, eu respondo: para levantar daí e dar uma passadinha no Caixa Cultural.

Fita isolante

Preciso compartilhar com vocês uma descoberta recente que mudou a minha visão de universo: a fita isolante líquida.

A descoberta da fita isolante líquida foi a primeira coisa que contei ao Roney depois do “alô”. Roney sugeriu que comprássemos juntos um potinho e, claro, depois de gastos os primeiros 4ml isolando todas as nossas necessidades elétricas, ligássemos para amigos… Não sei o que me assusta mais: se é continuarmos a conversa sobre isolantes líquidos como se fosse este o assunto mais natural do mundo em um sábado à noite ou a constatação de que teríamos, de fato, várias pessoas para ligar a respeito do mesmo assunto, para quem poderíamos sem qualquer constrangimento perguntar sobre a manutenção elétrica de suas residências.

Ficar sem internet faz muito, muito, muito mal.

Lemos, Lorca e Farkas

publicado no Aguarrás

Curadoria é uma tarefa pra lá de difícil. Entrei na Galeria Tempo com isso em mente. Existem aspectos na fotografia modernista, como a geometrização da realidade, que permaneceram através do tempo: como a Tempo colocaria Fernando Lemos, German Lorca e Thomas Farkas dentro daquele contexto histórico, ainda mais considerando que são fotógrafos atuantes, contemporâneos?

O acerto não poderia ser maior.

As fotografias de Lemos, feitas entre 1949 e 1952 em Lisboa, antes dele vir para o Brasil fugindo da ditadura salazarista, foram recuperadas a partir dos negativos e tiveram cópias digitais recentes. Lorca mostra cópias vintage, ampliadas pelo próprio fotógrafo em laboratório tradicional, com papel de fibra, na época em que fez as fotos. Farkas tem ampliações recentes. Isto é relevante por conta da tecnologia de captura, ampliação e papel, que mudou muito de lá pra cá. E, assim como é relevante, poderia ser um problema sério mas felizmente as diferenças ficam em milésimo plano frente à força das imagens.

Fernando Lemos - eu poeta Fernando Lemos - gesto emoldurado

Lemos (e sua Rolleiflex) manipula contraste e foco, domina a luz, usa e abusa de duplas exposições – no próprio fotograma. Não é essa moleza de colocar camadas no software para ver se fica bom, viu?

German Lorca - 099 1 German Lorca - Andaime German Lorca - 3 pernas

Lorca é fotógrafo das antigas, laboratorista e se adaptou às novas tecnologias. Tem, inclusive, uma nova tiragem de 15 exemplares de algumas fotos selecionadas que foram corrigidas digitalmente para tirar pequenas marcas e alguns outros ajustes mínimos. É muito raro – e bom – encontrar profissionais que não deixaram o tempo passar por eles.

Thomaz Farkas - cobertura SP Thomaz Farkas - Surrealistas

Farkas talvez seja o mais ?modernista? dos três. Os anos 40 no Foto-Cine Clube Bandeirante (SP) são transparentes no seu trabalho. Ele cai pesado na abstração e geometrização da realidade, ao ponto de encostar no surrealismo. E isso faz dele um fotógrafo bastante expressivo.

Então, respondendo à pergunta inicial, a Tempo conseguiu, através da narrativa (seleção) e do ritmo (disposição), formar um conjunto que não poderia existir em outra época. Saí de lá com a certeza de ter visto o crème de la crème. E este sentimento é raríssimo. Pelo menos pra as chatas de galochas como eu.

Três expoentes da fotografia moderna
Fernando Lemos, German Lorca e Thomas Farkas
19 de junho a 04 de agosto de 2007
Galeria Tempo
Rua Visconde de Pirajá, 414 ? sala 305, Ipanema ? Rio de Janeiro
(21) 2227.2221 / contato@galeriatempo.com.br
Segunda a sexta, das 12h às 19h, e sábado com hora marcada.
Entrada Franca

“(…) As propostas anteriores de fotógrafos norte-americanos e europeus como Man Ray, Brassai, Moholy-Nagy, as tendências surrealistas, as teorias da Bauhaus, são, nos anos 1940 e 1950, retomadas no Brasil e suas primeiras discussões são realizadas no seio dos fotoclubes. Thomas Farkas e German Lorca, entre tantos outros, propunham imagens abstratas. Técnicas de solarização, o recorte geométrico da cena, a repetição da forma em busca de ritmo e sonoridade, representam os experimentos fotográficos desses dois artistas. Totalmente alinhado com as questões brasileiras, Fernando Lemos, em 1949, ainda em Portugal, realizou uma série de fotografias de caráter surrealista. Sua opção pela superposição de imagens feita na própria câmera fotográfica dá movimento às poses, imobilizadas tradicionalmente pelos suportes fotográficos. O desafio surrealista é percebido nos cortes que acrescentam, eliminam, deformam a realidade retratada.” – Marcia Mello, conservadora e curadora de fotografia.

Recortes de Inquieta Retina

publicado no Aguarrás

Começou hoje no Oi Futuro a expofoto Recortes da Inquieta Retina. São fotografias projetadas na parede defronte ao simpático café do último andar. Todos os fotógrafos foram orientados pelo Walter Firmo, em momentos diferentes. A linha narrativa é clara, objetiva e com forte preocupação pela composição.

As fotografias, de uma forma geral, perdem muito na projeção. São fotografias que usam e abusam do chiaroscuro e o ambiente claro e movimentado prejudica a fruição. A movimentação excessiva do slideshow da projeção também fere as imagens. É tanto recorte, zoom e entradas ?dinâmicas? que o espectador precisa de um esforço extra para conseguir ver, de fato, as fotografias.

O grupo, formado por Jayme Plotkowski, Luiz Carlos Lopes, Nilton de Moraes Filho e Sergio Povoa, tem uma força incomum na fotografia contemporânea através do cuidado com a composição e a tonalidade, sem se perder em seus próprios grafismos.

Felizmente a exposição também pode ser vista online, no endereço www.oifuturo.org.br/expofoto, sem as pessoas passando na frente ou o grupo barulhento que insiste em debater amenidades enquanto você está lá tentando apreciar as fotografias.

Jayme Plotkowski, Recortes da Inquieta Retina Luiz Carlos Lopes, Recortes da Inquieta Retina Nilton de Moraes Filho, Recortes da Inquieta Retina Sergio Póvoa, Recortes da Inquieta Retina

“Recortes da Inquieta Retina”
Curadoria: Pedro Agilson
Projeção de trabalhos dos fotógrafos Jayme Plotkowski, Luiz Carlos Lopes, Nilton de Moraes Filho e Sergio Povoa
Exposição: 5 de junho a 31 de julho
Oi Futuro
Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo – Nível 8 – (21) 3131-3060
Classificação etária livre / Entrada Franca
Terça a domingo, das 11h às 20h.