A Morte

Este foi o primeiro texto que eu publiquei na vida.
Eu tinha 12 anos de idade e isso, por favor, deve ser levado em consideração.




Como chegamos ao ponto em que nosso coração bate mas estamos mortos?

“Esse texto tem um grande valor: é inteiramente desprovido de qualquer teoria e possui, intuitivamente, uma forma simples e direta de ligar com o tema da morte: pelo humor. É um texto escrito de ouvido, e de vida. Por uma menina de 12 anos de idade.”
Acho que quando as pessoas dizem a expressão “Prefiro a morte” na verdade a temem. A morte para essas pessoas é o corte de seus sofrimentos, e não a queda da vida.

Antes de falar da morte, prefiro falar da vida. Na verdade, o que é a vida, uma vida sem sofrimentos, decepções, nem tristezas e fossas? Essa vida não existe. Pois para alguém ser feliz, precisa antes ser triste, sofrer, ficar na fossa, ter decepções. Porque sem conhecer o buraco em que se cai, não se reconhece quando se sai dele. Bem, assim já estou entrando na morte: quando alguém cai nesse buraco sem fundo, e não reconhece quando saiu, está na morte, pois ficará procurando para o resto da vida, ou melhor da morte, uma entrada para uma saída, e esta saída é a entrada. Nesse ponto a pessoa pára de viver. Então morre.


publicado em: Cadernos de Psicanálise, maio de 1984, ano 3 – nº 4
Órgão oficial da Sociedade de Psicologia Clínica do Rio de Janeiro
Instituto de Psicanálise